O outro candidato que quer a vitória... do presidente

Chegaram a ser cinco candidaturas opostas à do atual presidente. Todas desistiram. À última hora, surgiu Mostafa Moussa.

Formalizou a candidatura no final do prazo-limite, em janeiro. Até aí, ele próprio e o partido que dirige, o liberal Ghad, tinham manifestado intenção de apoiar o presidente Abdel Fattah al-Sisi. E mesmo após o anúncio da candidatura continua a dizer que considera o antigo general a melhor opção para a presidência do Egito. O que tem levado personalidades da oposição a afirmar que Moussa Mostafa Moussa não passa de um instrumento ao serviço de Sisi para que na votação dos dias 26 a 28 este último não surja sem qualquer oponente.

Mas ficou claro, quer no período de formalização de candidaturas quer durante a campanha, que o presidente não queria mesmo ter oposição digna desse nome. Se Ahmed Shafik, o candidato que ficou a curta distância de Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, nas presidenciais de 2012, anunciou que não se apresentaria nestas eleições, os cinco que apresentaram candidaturas foram-nas retirando ao longo da campanha, declarando não existirem condições para eleições livres e justas.

Aquele que poderia ser um dos principais opositores de Sisi, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas entre 2005 e 2012, Sami Hafez Anan, foi preso em janeiro, sob acusação de ter forjado o seu pedido de passagem à reserva (o que sucedeu em 2012). Para o Ministério da Defesa, Anan continua a ser um oficial no ativo e no Egito estes não podem concorrer a cargos políticos.

Um outro candidato, Khaled Ali, ativista de direitos humanos e que já se candidatara em 2012, denunciou várias tentativas de intimidação e retirou-se da campanha em protesto pela prisão de Anan. O mesmo sucedeu com o candidato laico El-Sayyid al-Badawi, que pertence ao partido Wafd, uma das formações históricas da política egípcia. Este acabou por reconhecer não haver condições para um voto livre.

De forma diferente, os restantes candidatos, Mortada Mansour, um jurista e presidente do Zamalek Sporting Club (uma das equipas mais importantes no país) e apoiante de Al-Sisi em 2014, e Anwar Essmat Sadat, sobrinho do antigo presidente Anwar el-Sadat e político liberal, chegaram à mesma conclusão. O que deixou caminho aberto para Moussa. Admitindo não estar de acordo com a política económica do presidente, entre outras questões, Moussa justificou a candidatura por "ter ideias próprias" e por "não ser bom para a imagem do país haver um só candidato", Al-Sisi, que evita criticar. E que espera que saia vitorioso.

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