O novo Air Force One levanta voo em 2023

Transporta o presidente norte-americano pelo mundo e funciona ele próprio como um pequeno mundo. Há 25 anos no ar, está a chegar a hora de aterrar

Só há um. Na verdade, são dois. Mas chegam a ser oito, nove ou dez. Só a designação é que nunca muda: Air Force One, o avião utilizado pelo presidente dos Estados Unidos nas suas deslocações. Dois deles devem estar permanentemente operacionais, embora o presidente possa recorrer a outros aparelhos, consoante a distância das viagens ou a extensão das pistas disponíveis.

Os principais aviões são hoje dois Boeing 747-200B devidamente adaptados, qualquer um deles com 25 anos - o mesmo aparelho utilizado em voos comerciais pode chegar aos 35 anos, com o adequado acompanhamento técnico.

Com os códigos 28 000 e 29 000 inscritos na asa traseira, os dois aparelhos em uso foram encomendados na presidência de Ronald Reagan e entraram em serviço no mandato de George Bush pai.

A Boeing deixou de construir o modelo há quase duas décadas e as peças sobresselentes têm de ser feitas por encomenda. Atendendo à "antiguidade" dos aparelhos, a Casa Branca acaba de encomendar novos aviões presidenciais. Mas estes só estarão disponíveis por volta de 2023, isto é quando o sucessor de Barack Obama estiver a completar um segundo mandato.

O modelo escolhido foi um Boeing 747-8, mais sofisticado e com maior autonomia de voo do que o atual Air Force One. E com novos e mais sofisticados meios de defesa, além dos elementos necessários para dirigir o governo - ou uma guerra - a partir do ar e permanecer invulnerável aos efeitos eletromagnéticos de uma explosão nuclear.

À semelhança do atual Air Force One estará equipado com tecnologia que permite interferir com a rota de mísseis teleguiados e possuirá outros sistemas de defesa antimíssil e contramedidas eletrónicas para interferir em radares no solo ou de outros aviões. Além de mais detalhes que permanecem secretos. Poderá ainda ser reabastecido em pleno voo, como sucede já com os modelos presentes.

O Departamento de Defesa está em negociações com a Boeing sobre as características dos aparelhos, tendo requisitado três mil milhões de dólares (cerca de 2,6 mil milhões de euros) para os próximos cinco anos. O valor final será muito superior.

O avião ganhou estatuto de estrela cinematográfica com Força Aérea Um (Air Force One), filme de 1997 em que Harrison Ford protagoniza um presidente que tem de salvar a família... e o avião de um grupo de terroristas russos. O que, naturalmente, consegue - recorrendo aos "ensinamentos" de Indiana John. O avião surge ainda na quarta temporada da série 24, protagonizada por Kiefer Sutherland, para ter um fim pouco glorioso: é abatido por um míssil, com o presidente a bordo!

Além do prestígio associado ao transporte do "homem mais poderoso do mundo", o Air Force One entrou na história em, pelo menos, duas ocasiões traumáticas na história dos EUA. Em novembro de 1963, foi a bordo do Air Force One, então um Boeing 707, que John F. Kennedy chegou ao Dallas no último dia de vida e foi nele regressou a Washington, já sem vida, enquanto o Lyndon Johnson prestava juramento a bordo durante o voo de regresso à capital. Kennedy foi, aliás, o primeiro presidente a ter um avião especialmente concebido para as viagens: um Boeing 707.

O segundo momento sucedeu no 11 de setembro de 2001, quando George W. Bush foi colocado a bordo e o avião permaneceu no ar horas a fio (segundo uma outra versão, foi-se deslocando de base aérea para base aérea até se tornar o claro o quadro da situação) até se tornar claro a dimensão dos ataques da Al-Qaeda.

Bloco operatório

O Air Force One da próxima geração será o sucessor de uma tradição iniciada na presidência de Franklin D. Roosevelt (na Casa Branca entre 1933-1945) embora a designação só tenha sido cunhada com Dwight Eisenhower. Com Roosevelt, o avião era conhecido como Sacred Cow (Vaca Sagrada).

O atual aparelho tem cerca de 371 metros quadrados, possui três pisos, saídas nos diferentes pisos, com degraus incorporados (para evitar o uso de escadas exteriores), uma mini-Sala Oval, um quarto para o presidente (com casa de banho completa) e um bloco operatório, estando um médico sempre a bordo. Tem capacidade para 76 pessoas e uma tripulação de 20 efetivos, mais de 70 metros de comprimento, 59 metros de envergadura das asas e 19 metros de altura. Está equipado com duas cozinhas que permitem a preparação simultânea de cem refeições.

Além de todas as vantagens associadas aos aparelhos que transportam o presidente dos EUA, há uma particularmente cara quando este volta a ser utilizador dos voos comerciais: a bagagem nunca se perde. Uma ideia partilhada por todos os presidente, como fizeram questão de o dizer em mais de uma ocasião o republicano George W. Bush e o democrata Barack Obama.

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