O motorista, os cadernos e as malas de dinheiro que tramam Kirchner

Ex-presidente argentina vai hoje a tribunal para declarar no caso de um alegado esquema de corrupção que envolve empresas que foram beneficiadas durante o kirchnerismo com contratos estatais.

É o sétimo de um total de oito cadernos escritos ao longo de uma década pelo motorista Óscar Centeno, que trabalhou para o Ministério do Planeamento argentino, que deixa a ex-presidente Cristina Kirchner em maus lençóis. É ali que o juiz Claudio Bonadio acredita estarem as provas de como a atual senadora deu ordens ao ministro Julio de Vido para arrecadar fundos para a campanha eleitoral de 2013, junto das empresas que beneficiaram de contratos estatais.

Kirchner vai ser ouvida esta segunda-feira em tribunal, imputada por fraude ao Estado, lavagem de dinheiro e associação criminosa. O juiz acredita que terá assumido a liderança do esquema de corrupção após a morte do marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, em 2010. Como senadora (foi eleita o ano passado, dois anos após deixar a Casa Rosada) tem imunidade e não pode ser detida, mas resta saber quais serão as consequências políticas desta investigação.

Os oito cadernos de Centeno, que entretanto está a colaborar com a justiça, foram entregues ao jornal La Nación em janeiro. O motorista tinha-os dado a um amigo, o antigo polícia Jorge Bacigalupo, para guardar. Os jornalistas, além de investigarem o conteúdo, passaram a informação ao juiz Bonadio, o mesmo que pediu ao Senado para levantar a imunidade da ex-presidente e a sua prisão preventiva num outro processo (a decisão ainda não foi tomada).

O juiz já tinha ouvido, em novembro do ano passado, a ex-mulher de Centeno Hilda Horovitz, falar das malas de dinheiro. Após meses de investigação, foram detidas este mês 17 pessoas, entre corruptores e corruptos. E muitos estão a admitir os crimes, incluindo terem feito donativos ilegais para as campanhas kirchneristas, em troca de benefícios judiciais.

O que dizem os cadernos?

Centeno era motorista de Roberto Baratta, número dois do ministro do Planeamento, Julio de Vido, que durante 12 anos foi o responsável por todas as obras públicas do kirchnerismo. Nos seus oito cadernos, descreveu todas as viagens que fez com o Toyotta Corolla (com moradas e outros detalhes), incluindo todas as malas cheias de dinheiro que transportou. No total, terão sido mais de 56 milhões de dólares em efetivo, mas o juiz acredita que os valores possam chegar a mais de 200 milhões.

Quem pagavam eram os grandes empresários que tinham contratos com o Estado. Quem recebia era quem ocupava altos cargos no governo, havendo relato das viagens que fazia até ao apartamento privado de Néstor e Cristina Kirchner. Além das viagens, Centeno descrevia nos cadernos as conversas que ia tendo com Baratta, os telefonemas que este fazia, além do ouvia quando o transportava e a outras pessoas. As informações do caderno terão sido cruzadas pelos investigadores com dados telefónicos e outras provas.

O primeiro caderno começa a 23 de março de 2005 e o último acaba em novembro de 2015, quando as recolhas de dinheiro dispararam porque em causa estavam as presidenciais, nas quais o candidato Daniel Scioli, apoiado por Kirchner, acabaria por perder para Maurício Macri. Todas as folhas individuais dos cadernos estão disponíveis no site do La Nación .

O sétimo caderno, aquele que pode tramar Cristina Kirchner, começa com uma entrada a 6 de maio de 2013, mais de dois anos depois de o sexto ter sido concluído, em dezembro de 2010, após a morte de Néstor Kirchner. "Pensei que depois do falecimento não haveria mais o valijeo", escreveu o motorista. Valija é mala em espanhol e o valijeo seria a ida e vinda do dinheiro.

"Diminuiu a frequência, com a diferença que se recolhia dinheiro para o ministro De Vido, o próprio Baratta, não quis meter mais por receio de ser descoberto e ficar sem trabalho. Mas decidi novamente porque, numa reunião que teve o ministro De Vido, Baratta e a sra. presidente Cristina F. Kirchner, na qual os instruiu a continuar a recolher das empresas para as próximas campanhas eleitorais", lê-se no caderno.

Um dos empresários que admitiu ao juiz ter pago é Angelo Calcaterra, primo de Macri e ex-proprietário da construtora IECSA, que terá sido uma das beneficiadas pelo kirchnerismo com obras públicas. Calcaterra, que se desfez da empresa assim que o primo assumiu o cargo, confessou em troca de benefícios judiciais.

Este é apenas mais um dos processos em que o nome de Kirchner surge envolvido, com os aliados da ex-presidente a começarem também a ser condenados.

Vice de Kirchner condenado

Amado Boudou, ex-ministro da Economia de 2009 a 2011 e vice-presidente no segundo mandato de Kirchner, foi condenado na semana passada a cinco anos e dez meses de prisão por corrupção. Foi considerado culpado no chamado "caso Ciccone" (também conhecido como Boudougate).

Ciccone é o nome de uma gráfica que declarou falência em 2010, por causa de uma dívida milionária ao fisco, com Boudou a interceder quando era ministro da Economia, para reverter essa situação e facilitar um resgate. Em troca, ficou com 70% da empresa, com o empresário Alejandro Vandebroele a agir como testa-de-ferro. A gráfica conseguiu depois o certificado que lhe permitiu ganhar contratos avultados para imprimir as notas de cem pesos.

Boudou rejeitou as acusações, alegando em tribunal ser vítima de perseguição política.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.