Trump no 11 de Setembro: "O meu edifício voltou a ser o mais alto"

Numa conversa telefónica com a televisão WWOR de New Jersey na tarde dos atentados que mataram quase 3000 pessoas nos EUA o então empresário conta como viu a explosão da sua janela e refere que o seu edifício 40 Wall Street voltou a ser o mais alto da baixa de Manhattan após a queda das Torres Gémeas

Naquela tarde de 11 de setembro de 2001 a WWOR de Syracuse em New Jersey continuava a passar as imagens dos aviões a embaterem nas Torres Gémeas. A América e o mundo estava em choque com um atentado que se viria a saber mais tarde fez quase 3000 mortos nos EUA. Além do World Trade Center, o centro financeiro de Nova Iorque, os terroristas da Al-Qaeda atacaram o Pentágono e os passageiros obrigaram um quarto avião a despenhar-se num campo na Pensilvânia.

Com tantas horas de emissão por preencher, alguém na WWOR lembrou-se de ligar a Donald Trump para comentar o ataque. O empresário, uma das figuras mais conhecidas de Nova Iorque atendeu logo e aceitou dar uma entrevista, recorda esta terça-feira o The Washington Post.

"Ele estava nervoso", recorda Alan Marcus, porta-voz e assessor de Trump durante os anos 90 que fez a ligação entre a WWOR e o empresário.

"Tenho uma janela que dá mesmo para o World Trade Center e vi uma explosão enorme", contou Trump na entrevista, referindo-se à vista que tem da penthouse da Trump Tower. "Não queria acreditar", continuou. "Agora, estou a olhar para nada. Desapareceu. É difícil de acreditar".

Questionado pela pivô Brenda Blackmon sobre eventuais danos sofridos pelo edifício de que era dono no 40 Wall Street, Trump garante que não. Mas entretanto faz questão de sublinhar: "O 40 Wall Street era o segundo edifício mais alto da baixa de Manhattan e antes do World Trade Center era o mais alto - depois eles construíram o World Trade Center e passou a ser o segundo mais alto. E agora [o meu edifício] voltou a ser o mais alto".

Veja aqui o vídeo da entrevista:

Passados 17 anos, Brenda Blackmon recorda aquele momento em declarações ao The Washington Post. "A minha única reação, no meio de tudo o que estava a acontecer foi, wow, que insensível".

Na altura, a entrevista de Trump perdeu-se no fluxo de notícias daquele dia, mas ao longo dos anos seguintes foi muitas vezes vista como um momento em que o empresário comunicou algumas das suas ideias sobre segurança nacional que mais tarde iriam fazer parte das suas políticas como presidente.

Tanto como candidato como já enquanto presidente, Trump tem falado várias vezes sobre o 11 de Setembro, elogiando as forças policiais e as equipas de socorro.

Mas também já foi acusado de politizar aquele momento. Como quando num debate entre candidatos à nomeação republicana em 2016 acusou os ex-presidentes Bill Clinton e George W. Bush de terem culpas no atentado.

E em 2015 promoveu uma teoria que andava a circular segundo a qual após a queda das Torres Gémeas teria havido centenas de muçulmanos a celebrar em New Jersey. Também nesse ano, garantiu ter visto pessoas a saltar das Torres no dia dos ataques, um facto que não referiu na tal entrevista dada à WWOR.

Já esta terça-feira, Trump assinalou no Twitter o 17.º aniversário dos atentados, com uma mensagem simples: "17 anos desde o 11 de Setembro!"

O presidente vai estar hoje na inauguração de um memorial às vítimas do voo 93 da United, o que se despenhou na Pensilvânia depois de uma revolta dos passageiros contra os terroristas. Um evento que referiu também no Twitter. E foi na sua rede social favorita que Trump destacou o trabalho de Rudy Giuliani, o seu atual advogado, como mayor de Nova Iorque na altura dos atentados. "Rudy Giuliani fez um grande trabalho como mayor de Nova Iorque na altura do 11 de Setembro. A sua liderança, coragem e capacidades nunca devem ser esquecidas. Rudy é um VERDADEIRO GUERREIRO!"

O seu empenho na recuperação da cidade valeu-lhe mesmo na altura a alcunha de "Mayor da América" e ser eleito Pessoa do Ano pela revista Time.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.