Segunda Guerra Mundial

Toda a história do marinheiro do beijo e outros heróis portugueses da II Guerra

Foi um português o protagonista da fotografia mais célebre do final da II Guerra. George Mendonsa (que morreu na segunda-feira) tinha documentos que o comprovam. Este é o ponto de partida para estas histórias de veteranos luso-americanos.

(Texto originalmente publicado na Notícias Sábado a 15 de novembro de 2011)

George Mendonsa sacode os 88 anos e salta do sofá, precisa de mostrar algo e tem de ser agora. Desce até à cave escura da sua casa em Middletown, Massachusetts, nos Estados Unidos, abre a gaveta de uma secretária e agarra numa folha. Acende um candeeiro e a luz ilumina uma imagem a preto e branco.

Um marinheiro beija uma enfermeira em Times Square, Nova Iorque, no dia 14 de agosto de 1945, o dia em que Segunda Guerra Mundial terminou. É a fotografia do Kissing Sailor, que foi destaque da revista Life e de outras 90 publicações do mundo inteiro. A enfermeira é Edith Shain, que morreu em junho do ano passado, aos 91 anos, devido a um cancro no fígado. Quanto ao marinheiro, de perfil, negando o rosto do fotógrafo, a sua identidade permanece um mistério. É isso que George precisa contar: ele sabe quem é aquele homem.

O filho de madeirenses mostra agora quatro fotografias diferentes, onde é possível ver uma bela morena atrás do casal que dá o beijo. O veterano explica que o nome da desconhecida é Rita Petry e começa a desenhar a sua relação com esta imagem: esta mulher, que não ocupa o centro do olhar, era sua acompanhante naquele dia.

George abandona as imagens e agarra um dossiê de 2005 com a chancela do Naval War College. É uma investigação realizada no Mitsubishi Electric Research Lab (MERL), em Cambridge, liderada pelo especialista em análise fotográfica e antigo reitor da Escola de Artes da Universidade de Yale, Richard M. Benson. Ao longo de várias páginas, veem-se imagens de uma tatuagem e de uma cicatriz a serem comparadas com duas sombras nos braços do marinheiro. Depois, imagens coloridas e a três dimensões de um crânio. Na última página, conclui-se "com um razoável grau de certeza" que o portador da tatuagem e da cicatriz é o marinheiro da foto.

George pousa o dossiêe arregaça as mangas. Distingue-se uma cicatriz num braço; no outro, um G e um M, as suas iniciais. Não há dúvida. George é o marinheiro.

É um instante mágico. À nossa frente materializa-se uma realidade oculta durante décadas. Até George teve de esperar 35 anos por um momento semelhante. Foi apenas em 1980 que um amigo lhe perguntou onde estava no dia 14 de agosto de 1945 e mostrou uma edição da Life em que os editores da revista revelavam a identidade da enfermeira e pediam ao marinheiro que se identificasse. George fê-lo imediatamente. Ele e, pelo menos, outros dez veteranos. A revista decidiu ser prudente e não identificou o marinheiro. Mas George teve sempre a certeza de que era ele e por isso encomendou o estudo ao laboratório de Cambridge.

Na cave da casa onde vive com a mulher, George volta a segurar a fotografia com as suas enormes mãos - as mesmas mãos que amparam o corpo da enfermeira - e desabafa: "Sempre que outro homem diz que é o marinheiro, o meu sangue ferve." Levanta os olhos e, prestes a abandonar o corpo num tempo quase passado, quase perdido, promete: "Esta história é minha."

George alistou-se para ir para a guerra no dia 26 de março de 1942, quando as ondas de choque do ataque de Pearl Harbor já tinham chegado a Newport, na costa oeste dos Estados Unidos, onde trabalhava o então jovem e tímido pescador. George passava os verões com os pais madeirenses e os irmãos numa ilha minúscula perto da costa que batizaram "Portugese island".

"Tinha 19 anos, os que morreram em Pearl Harbor eram da minha idade... depois do ataque que todos os rapazes queriam ir atrás dos japoneses, queríamos caçá-los."

"Tinha 19 anos, os que morreram em Pearl Harbor eram da minha idade... depois do ataque que todos os rapazes queriam ir atrás dos japoneses, queríamos caçá-los", lembra. "Fui criado na água, tinha estado no mar toda a minha vida, decidi ir para a Marinha." Durante seis meses aprendeu a pilotar um navio e a comunicar através de sinais de luzes.

As primeiras missões em que participou foram de patrulha de costa e de formação. "No primeiro dia no mar, ao largo da Califórnia, acordei à meia-noite para cumprir o meu turno. Chego ao convés, estava tudo alagado, o mar entrava, e estavam todos enjoados e a vomitar."

Quando chegaram a Pearl Harbor, juntaram-se à Fast Carrier Task Force, composta por três cruzeiros, três navios de batalha e cerca de 20 destroyers, a primeira linha de defesa do alvo principal dos inimigos: os quatro porta-aviões que seguiam no centro do grupo. George embarcou num dos destroyers, o USS The Sullivan, batizado pelos marinheiros como "The Sully". O barco recebera o nome de cinco irmãos do Iowa que tinham morrido a bordo do USS Juneau, afundado durante a batalha de Guadalcanal, meses antes.

O comandante Gentry Kenneth liderou-os numa vitoriosa campanha através do Pacífico, das ilhas Marshall às Filipinas. O primeiro 4 de Julho, Dia da Independência, de George desde que estava embarcado foi passado a bombardear Iwo Jima. Em dezembro do ano seguinte enfrentou um furacão, três destroyers naufragaram, mas o "The Sully" sobreviveu e em 1945 estava perto da costa do Japão, no mar da China, a apoiar o bombardeamento de Hong Kong, Okinawa, Tóquio e Honshu.

A 11 de maio, o Pacífico estava conquistado. Confiante, o grupo estacionou a 60 milhas da costa, mas nessa noite - "eles atacavam sempre de noite..." - sofreu um ataque surpresa. O alvo foi o USS Bunker Hill, o coração da frota. Dois pilotos kamikaze japoneses conduziram as suas aeronaves contra o casco escuro do porta-aviões e desapareceram num mar de chamas. "Os aviões no convés estavam cheios de combustível e explodiram. Os homens começaram a saltar, para fugir das chamas. Salvámos umas centenas", recorda George.

Debaixo da luz de fogo dessa noite, o madeirense alto e corpulento recolheu os náufragos e entregou os feridos num navio-hospital. Não percebeu se a culpa foi do cheiro a fósforo ou do gosto a metal na superfície da língua, mas invadiu-o a sensação de que o tempo parava e de que tudo à sua volta se dissolvia para destacar o perfil nítido das enfermeiras - as linhas dos seus uniformes brancos, os gestos finos limpando as chagas dos feridos e o toque morno na mão de um queimado que o segurava à vida. Estas imagens, percebeu mais tarde, haviam de ficar escondidas dentro dele até ao final da guerra. Aguardando o momento da revelação.

Um mês depois, a frota tinha "afundado os japoneses, a única coisa que faltava era a ocupação pelo exército". George partiu das Filipinas e avistou o continente americano no dia 10 de julho, um ano e oito meses depois da sua partida.

"The Sully" chegara a estar 64 dias sem ancorar e tivera apenas uma baixa, quando o comandante mandara alguns homens a uma ilha das Filipinas confirmar se algum japonês sobrevivera. "Deixaram o barco na praia e um deles ficou a guardá-lo. Quando os outros regressaram, ele tinha desaparecido." O corpo foi depois encontrado.

George recebeu 30 dias de licença para visitar a família e dez dias para as viagens. Fez as malas e partiu para Newport. De visita a casa, conheceu Rita Petry, uma americana prima do marido da sua irmã mais nova, que estava também de visita. "Ela tinha 20 anos e era linda", lembra, George começou a cortejá-la, mas uma semana depois a jovem regressou a Nova Iorque. George decidiu então passar um dia na grande cidade quando regressasse para a Califórnia, no fim da sua licença.

No dia 14 de agosto, o casal estava a ver o espetáculo das Rockettes, no Radio City Music Hall, quando as pessoas começaram a bater nas portas e janelas da sala de espetáculos. O seu olhar tocou o de Rita e cada um tentava descobrir no outro o que se passava quando as portas foram abertas e um grito atravessou a sala: "Os japoneses renderam-se, a guerra acabou!" A sala irrompeu em aplausos e já ninguém olhava para as bailarinas no palco.

George e Rita dirigiram-se para Times Square, o coração da cidade, onde costumavam decorrer as celebrações. Era ali a dois passos. "Estava cheio de pessoas, milhares e milhares de pessoas", recorda George. O marinheiro festejou no Child´s Bar, um conhecido bar anunciado por néons numa esquina. "Bebi muito", confessa. "O barman colocava uma fila de copos no balcão, agarrava numa garrafa e enchia os copos, nós bebíamos; ele agarrava noutra garrafa e nós bebíamos outra vez."

A festa estava boa, sobretudo para George, mas ele precisava de ir para o aeroporto apanhar a ligação da uma da manhã para São Francisco. Começou a caminhar com Rita para a estação de metro, no meio da multidão efervescente de Times Square. Perto da Rua 45 reconheceu uma silhueta branca, os mesmos gestos suaves que tinham cuidado dos seus camaradas feridos, o mesmo calor reconfortante. Bêbedo do álcool e das memórias que o inundavam, algo se soltou dentro de si. George agarrou na enfermeira desconhecida e beijou-a.

O tempo parou. Para George. E para o mundo.

Para George, naquele beijo estavam os feridos do ataque ao porta-aviões que ele ajudou meses antes, estavam os seus pais, os filhos, netos e bisnetos que havia de ter. Estavam todos os seus ontens e todos os seus amanhãs. Para o mundo, estavam todos os poderosos e indefesos, todos os kamikaze e vítimas civis, todos os homens e mulheres tocados por aquela guerra. Naqueles dois lábios colados estavam o mundo inteiro e o seu festejo no fim do conflito mais mortífero da história.

Alfred Eisenstaedt fotografou o portugês a beijar a enfermeira Edith Stain no dia da vitória sobre o Japão.

Um fotógrafo carregou num botão e um flash de luz branca transformou George num símbolo.

O marinheiro não se apercebeu de nada e abandonou Times Square sem trocar uma palavra com a enfermeira. No aeroporto, despediu-se de Rita, que nunca mais tornaria a ver. Quando entrou no avião, distinguia-se apenas o perfil banal do seu uniforme azul, mas George vivia já na eternidade.

No laboratório de Alfred Eisenstaedt, em Nova Iorque, o fotógrafo revelou os seus negativos e uma imagem destacou-se. Acabou escolhida para um lugar de destaque no trabalho de 12 páginas da edição especial de "Vitória" da revista Life. Na mesma edição havia outros casais a beijarem-se, da Florida a Seattle, mas foi o gesto daquele marinheiro e daquela enfermeira que se tornou eterno. Um homem, uma mulher e o mais antigo dos gestos transformaram-se na nossa mais íntima ligação com o que aconteceu naquele dia.

Da Guerra da Independência à Guerra do Iraque

A participação dos portugueses nas fileiras militares dos americanos começou ainda antes de os Estados Unidos serem um país independente. Peter Francisco nasceu na ilha de São Miguel, nos Açores, no dia 9 de julho de 1760, mas terá sido raptado por piratas e levado para o outro lado do Atlântico ainda criança. Já adulto, com 1,98 metros e quase 120 quilos, acabaria por tornar-se um soldado lendário durante a Guerra da Independência (1775-1783), contra a Inglaterra, ao ponto de o presidente George Washington declarar no final do conflito: "Sem ele, teríamos perdido duas batalhas cruciais, talvez a guerra, e com ela a nossa liberdade. Ele era verdadeiramente um exército de um homem só." Estas palavras repousam agora num monumento na Praça Peter Francisco, em New Bedford, Massachusetts.

Durante a Guerra de 1812, um grupo de portugueses chegou a fundar uma companhia para contrariar a relutância da Guarda Nacional em aceitar imigrantes nas suas fileiras. Durante a Guerra Civil (1861-1865), um regimento de Nova Iorque incluía uma companhia formada apenas por portugueses e espanhóis. Judah Philip Benjamin foi ministro da Guerra sulista durante esse conflito e era descendente de judeus sefarditas portugueses. No fim da guerra, foi senador e membro do Supremo Tribunal. Francis Barretto Spínola foi general e acabou por ser o primeiro luso-americano eleito para a Câmara dos Representantes.

Na Grande Guerra (1914-18), calcula-se que cerca de 15 mil imigrantes se alistaram e muitos deles acabaram por ser mobilizados. No dia 7 de dezembro de 1941, durante o ataque japonês a Pearl Harbor, Charles Braga transformou-se na primeira baixa portuguesa na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Hoje, dá o nome à Ponte Braga, que atravessa o rio Taunton em Massachusetts.

A Medalha de Honra do Congresso é a maior distinção que pode ser atribuída a um militar e já foi entregue a vários lusodescendentes. O primeiro terá sido o cabo Joseph H. de Castro, que se distinguiu na batalha de Gettysburg, em 1863. France Silva era tripulante do navio USS Newark e recebeu a Medalha de Honra pelo seu comportamento heroico durante a Guerra dos Boxers, em Pequim, em 1900.

No livro Portugueses no Vietname, de Eduardo Mayone Dias e Adalino Cabral, os autores admitem existirem cem nomes portugueses no Memorial dos Veteranos do Vietname, em Washington, que regista o nome dos 58 195 militares caídos durante este conflito.

Desde 2002 que os estrangeiros com direito à residência no país podem reivindicar a cidadania americana depois de um ano de serviço militar. Segundo os últimos dados disponíveis, os hispânicos (onde se incluem os portugueses) já representam 12% dos militares americanos.

No site de um jornal da comunidade portuguesa, o Portuguese Times, é possível ler uma descrição do funeral de David Marques Vicente, cabo dos Marines, morto no Iraque em 2004, aos 25 anos. Dias antes do funeral, os seus pais foram ao consulado de Portugal em New Bedford pedir uma bandeira. O cônsul satisfez o pedido, mas pediu que a bandeira fosse devolvida, pensando que seria usada apenas durante a cerimónia. Foi nesse momento que os pais do soldado lhe explicaram que a bandeira portuguesa acompanharia David para sempre, dentro da urna.

Manny Martin, o sobrevivente de Pearl Harbor

A presença portuguesa nesta fotografia é sinal de uma outra, muito importante: a dos portugueses que combateram nas forças americanas na Segunda Guerra Mundial, desde o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Na noite de 6 para 7, Manny Martin cumprira um plantão e, de manhã, tomava o pequeno-almoço no primeiro turno, como estabeleciam as regras da base militar de Pearl Harbor, no Havai. Enquanto comia creamed beef on toast, um rugido atravessou as paredes da cantina, como se algo arrastasse as unhas num quadro no seu caminho do céu à terra, e uma explosão de força sísmica abalou as paredes da cantina. Eram 07.48. Manny precipitou-se para a entrada, com a espingarda pousada no ombro direito, olhou em frente, levantou os olhos para o céu e distinguiu um avião.

"Que avião é este?", perguntou um colega ao seu lado. "Seu parvo, não vês um grande sol nascente? São os japoneses!"

Começava assim a Segunda Guerra Mundial para os Estados Unidos.

Manny Martin foi o nome que escreveu quando se alistou, mas na quinta de Westport, Massachusetts, onde vivia com os pais e a "vovó", o seu nome era Manuel Martins. No início do século XX, os pais tinham partido de São Miguel num barco a vapor e desembarcado em Ellis Island, Nova Iorque. Naquela ilha, o pai de Manny definiu o seu destino quando lhe entregaram uma vassoura. Ele recusou o trabalho e, apontando para umas máquinas, disse: "Isto vai quebrar e eu vou consertar."

"Que avião é este?", perguntou um colega ao seu lado. "Seu parvo, não vês um grande sol nascente? São os japoneses!"

Sem saber ler nem escrever, o micaelense construiu um futuro próspero como mecânico e em poucos anos comprou um terreno de 138 acres, de onde retirou sustento para os 11 filhos, mas não os dispensou do trabalho. Aos 7 anos, Manny já ordenhava as vacas e limpava o celeiro antes de ir para a escola. Começou a carregar sacas de farinha "assim que teve força para isso". Anos depois, quando a comunidade açoriana nos estados de Massachusetts e Rhode Island cresceu, ajudou o pai a vender os inhames e chicharros salgados que chegavam das ilhas em grandes barris.

Assim que completa 18 anos, a mãe, Maria Emília Martins, que vivia no país desde os 5 anos e, por isso, lia e escrevia nas duas línguas, levou-o a ver o seu primeiro filme. Sem saber, indicava ao filho o caminho para a guerra.

Em 1940 a participação dos EUA começava a parecer inevitável. Antes dos filmes eram projetadas "notícias de homens a pilotar aviões em exercícios de treino", recorda Manny. Enquanto na tela imagens a preto e branco contavam a história de O Homem da Máscara de Ferro, Manny sonhava que era piloto de aviões.

Começou por revelar o desejo aos irmãos, depois, quando fez 19 anos, aos pais. "As portuguesas choram muito, a minha mãe também chorou, mas acabou por aceitar."

E muito terá rezado, também. Maria Emília era fã devota do Espírito Santo e tinha convencido o marido a doar uma parcela de dez acres da quinta para construir uma sede da festa açoriana, o Clube do Espírito Santo de Sodom Road.

Algumas semanas depois de se ter alistado em Boston, Manny chegava a Nova Iorque. "O filho de um maldito agricultor açoriano na Grand Central Station, em Nova Iorque...", pensou. Recebeu uma farda azul para o seu corpo alto e esguio e embarcou num navio que o levou a descer a costa oeste, atravessar o continente no canal do Panamá e subir a costa leste até São Francisco.

Foi nesta cidade que encontrou as curvas das dançarinas do primeiro espetáculo burlesco a que assistiu. "Os rapazes foram todos. Não sabia bem o que era. Entrei, vi toda a gente sentada lá à frente e raparigas a dançar em coiro, muitas raparigas em coiro."

Partiu para Pacífico embalado pelo requebrar destas americanas, chegou ao Havai, passou a oeste de Honolulu, aproximou-se da ilha de Oahu e ancorou no enorme porto da baía de Puuloa, a base militar de Pearl Harbor.

Manny Martin estava de serviço em Pearl Harbor a 7 de dezembro de 1941, no dia do ataque japonês.

Era aqui que estava, nesta manhã de 1941, a tomar o pequeno-almoço, quando a força sísmica de uma primeira explosão o conduziu à entrada da cantina e à visão de um avião militar japonês. "Estava mesmo por cima de nós, a 150 pés de altitude, talvez nem tanto. Via-se perfeitamente o sol nascente."

Manny agarrou na sua espingarda e correu até à casa das armas, onde encontrou o seu superior, o comandante Cassey, que ordenou: "Vai guardar o canal de Pearl Harbor." O português lançou-se sozinho para o canal que servia de entrada à base militar e encontrou lá dois americanos. Quando o grupo se juntou, um avião fez uma razia e começou a disparar sobre eles. Os três militares refugiaram-se junto a um grande tanque de água e num relâmpago surgiu outro avião. "Eram às centenas", diz Manny.

A criatura metálica desceu dos céus, "baixou até aos 50 pés", e Manny garante que viu "o japonês colocar a cabeça fora da janela, com um grande sorriso, e largar uma bomba".

Os três homens espremeram-se contra o tanque, Manny fechou os olhos e o mundo desapareceu.

Silêncio.

O explosivo rebentou com um estrondo, muito próximo deles.

Quando abriu os olhos, confirmou que estava inteiro. Um dos americanos puxou-lhe um braço. "Fui atingido", disse.

Manny descansou a espingarda no chão e, enquanto inspecionava o colega, fixou o seu rosto - "era um homem muito bem-parecido, louro, cabelo curto, espesso". Concluiu: "Pareces-me bem." Mas o americano respondeu que o ferimento era nas costas. O português agarrou a camisa do marinheiro e "ela desfez-se aos pedaços", deixando a descoberto um enorme buraco nas costas.

"Eu e o outro americano agarrámos nele e levámo-lo para a enfermaria. Ele tinha a camisa toda rasgada, junto ao cinto estava ensopada em sangue. Falava com dificuldade e tinha a respiração pesada. Quando chegámos à enfermaria, já estava cheia", conta. O ataque começara "há menos de meia hora".

Manny abandonou a enfermaria e era apenas um miúdo sozinho e desorientado que regressava aos soluços para o seu posto. "Não sabia nada da guerra, nada! Tinha-me alistado meses antes. Tudo o que sabia era que os japoneses estavam a atacar-nos. Só pensava: podia estar na quinta e estou aqui, onde os homens estão a matar-se uns aos outros."

Quando o ataque terminou, menos de duas horas depois de ter começado, Manny descobriu que o americano morrera dez minutos depois de o ter deixado na enfermaria. "Nunca soube o nome dele, mas nunca me esqueci da sua cara."

Durante uma semana, permaneceu no seu posto. "Pensámos sempre que eles iam voltar... Meu Deus, tantas horas sem dormir. No primeiro dia não comi nada. Depois, escavámos uma pequena vala, arranjei um cobertor e tapava a cabeça, havia muitos mosquitos."

Em menos de um mês, Manny regressou às antigas funções na sua unidade - "assegurar o correto funcionamento de 82 telefones e de uma central elétrica a diesel" - mas "as coisas nunca voltaram a ser como eram".

Pearl Harbor foi um terramoto que abriu enormes fendas na Casa Branca. Nas duas investidas japonesas sobre a base, perto de 1300 militares foram feridos e 2402 homens morreram. O presidente Franklin D. Roosevelt ofereceu uma voz aos que foram calados e declarou guerra ao Japão 24 horas depois. Classificou o dia como "uma data que irá viver na infâmia".

Frank Farias, um adolescente na guerra

Quando Frank tinha 8 anos, o seu pai, da ilha de Santa Maria, estava a cantar as janeiras em casa de um amigo quando escorregou, bateu com a cabeça num degrau de cimento e morreu. Estava uma noite fria e escura, mas não tão fria nem tão escura como ficou o olhar desta mulher: Galamina Farias, viúva, acabada de chegar aos Estados Unidos e com seis filhos menores.

Frank começou a trabalhar muito novo e descobriu que se fosse para a tropa a família recebia um cheque. Partilhou a intenção com a mãe, que resistiu e argumentou que o filho ainda tinha 16 anos. Ele explicou-lhe que era "a única maneira" de ela criar todos os filhos. Galantina assinou a autorização para o filho ir para a guerra.

"Recebia dez dólares de duas em duas semanas, a minha mãe recebia mais, mas não tenho a certeza de quanto, era bom dinheiro. Fui para a guerra pela minha família."

Frank, "um miúdo doido", trabalhou numa doca seca, em São Francisco, onde se reparavam embarcações militares danificadas. Também participou em pequenas missões no mar para testar os navios consertados, mas foram os rostos frescos das americanas que ficaram gravados na memória do adolescente.

"Quando regressávamos ao porto, elas estavam atrás de uma vedação e gritavam: 'Amo-te, baby; Querido, casa comigo; Vamos viver juntos.' Havia umas bonitas, mas só estavam interessadas no dinheiro", explica. "Se morrêssemos na guerra, as viúvas recebiam dez mil dólares, era isso que elas queriam."

"Quando regressávamos ao porto, elas estavam atrás de uma vedação e gritavam: 'Amo-te, baby; Querido, casa comigo; Vamos viver juntos.' Havia umas bonitas, mas só estavam interessadas no dinheiro."

O jovem estava há quase um ano na Marinha quando recebeu ordens para partir. Era julho de 1945, no mês seguinte embarcaria para a guerra.

Afinal, o momento sempre chegava. "Crazy Frank", já com 18 anos, sempre acreditara que ia atravessar a guerra sem precisar combater, mas agora tudo mudava num instante. Começou a prestar atenção às conversas dos outros marinheiros sobre o inimigo japonês. "Eram loucos. Se te apanhavam vivo, punham-te num tanque, arrancavam-te a pele onde tinhas tatuagens, cortavam-te os dedos e cortavam-te o pescoço - nós víamos nas notícias. Viviam em buracos nas montanhas e enviavam-se dentro dos aviões contra os navios - quem é que faz uma coisa dessas?"

Três anos antes, o presidente Roosevelt criara o Office of War Information, um gabinete de propaganda que recorria às rádios, aos jornais e aos estúdios de Hollywood para reunir apoio popular e mobilizar as tropas. O objetivo era destituir os inimigos de qualquer característica humana, submetê-los a uma metamorfose para que ressurgissem como uns seres estranhos e bizarros. Os japoneses não eram humanos, eram ratos e diabos, por isso podiam ser atacados, por isso podiam ser mortos. Era este inimigo alienígena que Frank iria combater.

Por esta altura, as intenções dos Aliados falharam e os japoneses não assinaram o Tratado de Potsdam, que previa a sua rendição. O primeiro-ministro nipónico recusou ceder e declarou: "Vamos ignorá-lo [o tratado]. Vamos continuar implacavelmente e lutar até ao fim."

Frank Farias estava na Marinha e só não chegou a combater porque a bomba atómica acabou com a guerra.

Nos dias 6 e 9 de agosto, os Estados Unidos largaram LittIe Boy e Fat Man sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui e entre 150 mil e 250 mil daqueles seres míticos com cara de rato morreram queimados, soterrados pelos destroços ou envenenados pela radiação.

Chamaram-lhe bombas atómicas. Frank não sabia o que eram, mas quando foi informado de que já ninguém seria embarcado - quando suspirou de alivio porque estava salvo da guerra - o assunto já dominava todas as conversas.

Considere-se os números para perceber a dimensão deste suspiro. Ao longo de seis anos de guerra, 70% das infraestruturas do continente europeu tinham sido destruídas e 72 milhões de pessoas, entre elas 46 milhões de civis, tinham morrido. Até um adolescente, como o português, percebia a terrível aritmética do conflito mais mortífero da história.

Hoje, com 83 anos e pai de três filhos, Frank Farias já não é um miúdo. Manny Martin, viúvo, 89 anos, dois filhos, e George Mendonsa, casado e pai de dois filhos, também não o são. Nos últimos 66 anos foram condecorados e levantaram-se memoriais em sua homenagem, mas as suas histórias estão a desaparecer sob um nevoeiro denso. Por exemplo: é impossível saber quantos veteranos luso-americanos combateram com os Aliados para vencer os países do Eixo. Os anos passam-se, gasta-se o mundo, e é cada vez mais difícil oferecer uma alternativa à narrativa oficial de que, do país neutral de Oliveira Salazar, não saíram mártires para esta guerra.

Ainda assim, eles os três, que sobreviveram e estão aqui, têm um segredo para contar. Explicam que algo aconteceu, um acontecimento terrível, sim, mas depois, algo maravilhoso. Aconteceu no final, quando o ar ainda mantinha o gosto ácido do sangue, o cheiro explosivo do fósforo e a eletricidade subia do chão e arrepiava os pelos do corpo. Foi um instante solitário e estranho, em que a história convocou os seus protagonistas e eles perceberam o que lhes tinha acontecido: tinham-se tornado homens.

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