O israelita que faz robôs em Cascais

A história de Limor Schweitzer, que passou por Sillicon Valley e por Londres, antes de se fixar em Portugal.

Segways desmanchadas, uma impressora 3D, caixas de papelão, fios, peças, ferramentas e várias máquinas que um leigo tem dificuldade em identificar. É este o cenário quando se entra no laboratório de Limor Schweitzer na Aldeia de Juzo, em Cascais. Em cima da mesa, Fonzie, o robô dançarino, mostra a coreografia inspirada nos movimentos de Beyoncé e Michael Jackson ao som de Sexy and I know it. "Queria fazer um jogo com robôs a lutar kung-fu. Mas não arranjei financiamento", conta Limor Schweitzer, recordando como em 2004 nasceu a RoboSavvy, a empresa que o israelita gosta de apresentar como uma "Amazon da robótica".

Nascido em Londres, onde os pais estavam a estudar, Limor regressou a Israel com três anos. Mas por pouco tempo. Com oito foi viver para Roma, onde passou cinco anos. De volta a Israel, o adolescente começou a interessar-se por computadores. Ou melhor, pelos seus antepassados. Porque em 1983-84 "não havia computadores". Ainda no liceu foi fazer um curso de programação na Universidade Hebraica de Jerusalém. Rapidamente os exercícios se transformaram num emprego. "Ia à escola de manhã e à tarde ia trabalhar", recorda Limor, sentado numa das salas da RoboSavvy no Vila International, o espaço de trabalho que partilha com outras empresas.

Na escola, "ninguém sabia verdadeiramente que eu tinha esta segunda vida", admite Limor que não esconde o orgulho de ter sido um dos pioneiros da Internet. Trabalhar no Departamento de Computação da Universidade permitia-lhe comunicar com pessoas de todo o mundo através das primeiras chatrooms, fazer alguma pirataria numa altura em que o conceito não era tão malvisto como agora - "se alguém entrasse nos servidores da NASA, a reação seria: "Bom trabalho!", diz com uma gargalhada, antes de acrescentar "Hoje, íamos logo para Guantânamo!" - e participar na Usenet, a avó da Wikipédia, onde utilizadores respondiam a Perguntas&Respostas sobre os mais variados tópicos.

Os conhecimentos de informática levaram-no aos serviços de informação durante os três anos de serviço militar obrigatório em Israel. E quando deixou o exército, decidiu criar a sua própria empresa de consultadoria. "Toda a gente no mundo queria ter um servidor de email. A web ainda não existia, mas o email era o centro de tudo, era o substituto para o fax e para o telefone", explica. Com o boom das novas tecnologias, a empresa cresceu e chegou a ter 200 empregados. "Ia buscar engenheiros que não tinham emprego mas que tinham bons cérebros e convertia-os em administradores de sistemas", recorda Limor, destacando um projeto em que trabalhou para ligar Marrocos à internet. Na altura, em meados dos anos 90, a paz entre Israel e os países árabes parecia possível e Limor foi chamado a criar o domínio .ma, ainda hoje usado.

De Telavive Limor mudou-se para Sillicon Valley, onde trabalhou com as grandes empresas na monitorização do tráfego na Internet. Mas o crash do domínio .com ditou o regresso a Londres.

Portugal surge na história de Limor como uma coincidência. Casado com uma holandesa que conheceu no Reino Unido, quando a filha nasceu, o casal começou a pensar se realmente queria criar um bebé numa cidade com a dimensão de Londres. Por isso, decidiram vir seis meses à experiência para Cascais onde a mulher de Limor crescera. "Casámos aqui no Farol Hotel. Ela veio para Cascais com 12 anos, andou na St. Dominic"s International School".

A primeira impressão foi de familiaridade. A Limor, Cascais fazia lembrar Roma ou Telavive. "Há semelhanças culturais apesar de ser um país católico. As pessoas são simpáticas, não há violência. Com crianças é um ótimo sitio para estar e fica a duas horas de Londres", onde Limor mantém os escritórios da RoboSavvy.

Passados 11 anos, Limor diz não pensar muito sobre se vai ficar por Portugal, apenas "vai ficando". E se nos primeiros tempos estranhou o pouco interesse dos portugueses pela política e ainda hoje o português causa dificuldades a um homem que até fala várias línguas (entre elas o italiano, o francês e o espanhol), é por Cascais que vai fazendo robôs, como o robô-câmara que tem no laboratório e espera vender às televisões. Projetos tem muitos e não hesita em dizer que o seu objetivo é mudar o mundo. Como? Limor começaria por "tirar as pessoas dos governos e substituí-las por inteligência artificial".

Ler mais

Exclusivos