O grupo secreto de WhatsApp que ajuda as mulheres a abortar

Investigação da BBC revela grupo onde as mulheres conseguem ter acesso a comprimidos abortivos no Brasil, país em que este é ilegal, desabafam, e partilham informações práticas sobre o processo abortivo

No Brasil, onde o aborto é ilegal e punível com uma pena de prisão até três anos, há um grupo de WhatsApp que ajuda as mulheres a conseguirem comprimidos abortivos que custam entre 900 e 1500 reais (entre 200 e 334 euros), dá-lhes apoio durante o processo vídeos explicativos e mensagens, ou encaminha-as para uma clínica clandestina de São Paulo, conta a BBC numa reportagem.

"Olá, seja bem-vinda! Esse é um grupo feminista destinado à venda de medicamentos. Nosso grupo é um espaço de acolhimento e auxílio, então, por motivos de segurança, pedimos que apaguem o histórico do grupo no mínimo uma vez por semana, podendo haver verificação de cumprimento dessa solicitação." As regras são claras e dadas a conhecer a cada mulher que entre no grupo: o histórico deve ser apagado pelo menos uma vez por semana, os comentários sexistas são proibidos, bem como as conversas que não sejam pertinentes para o procedimento abortivo e a partilha das conversas com alguém que não faça parte do grupo.

A jornalista fingiu tratar-se de uma mulher grávida e comprou pílulas abortivas, que recebeu dois dias depois pelo correio, dentro de uma caixa de CD.

A BBC investigou o caso durante meses e chegou à criadora e administradora do grupo. "Abigail" fundou-o há três anos, e já ajudou 300 mulheres a abortar, no país onde todos os dias o ministério da Saúde estima que morram quatro mulheres por consequências de aborto ilegal. A criação do grupo tem que ver com a própria história daquela mulher.

"Em outubro 2013 foi raptada e violada. Engravidei e infelizmente não podia terminar [a gravidez] legalmente, porque a pessoa que me violou era importante, um ex-agente da polícia. Senti que tinha a vida inteira à minha frente, e que ela me fora roubada", contou "Abigail" à jornalista. No Brasil, o aborto só é legal em circunstâncias muito específicas, risco para a vida da mãe, feto com anencefalia ou violação, mas, para ter acesso a ele, a vítima terá de fazer uma descrição detalhada da violação, conta ainda a BBC. "Eu decidi criar o grupo porque eu não acho justo que as mulheres sejam obrigadas a ter um filho se elas não quiserem."

"Acho que eu nunca senti tanta dor na minha vida!", diz uma jovem numa mensagem áudio enviada para o grupo, citada pela BBC. Outras respondem-lhe:"Amiga, calma. Eu senti essa dor ontem. Tem alguém com você?" Não estava nenhum adulto, e a mãe chegaria a casa em breve. Ana, de 16 anos, partilhava o processo que se seguiu à toma da pílula abortiva. Após 12 horas, a mãe chega a casa. "Contei para ela. Ela falou que vai-me levar ao médico. Vou apagar essas conversa." E sai do grupo, relata a BBC.

Entre os casos escritos na reportagem está o de uma rapariga de 13 anos que terá engravidado do primo e o de uma outra jovem que diz ter sido violada e ter vergonha e medo da humilhação pública. "Eu tô com muito medo (de o aborto não dar certo), muito mesmo, até porque a minha gravidez veio de um estupro, então eu não posso ter esse bebé. Eu tenho medo e vergonha", escreve, citada pela BBC.

A ginecologista Alessandra Giovanini, coordenadora do núcleo de Aborto Legal do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, ouvida pela BBC, afirma que "todas as vias ilegais de prática do aborto podem ser perigosas, incluindo o grupo de Whatsapp. "Acho que elas (administradoras do grupo de WhatsApp) têm até a intenção de ajudar. Mas essas pacientes correm o risco de ter uma hemorragia muito grande, correm o risco de ficar com restos ovulares e ter uma infeção que pode até levar à morte."

Nem todas as conversas, conta a BBC, levam à prática do aborto. "'Bárbara' faz parte do grupo e decidiu ter. Esse é o bebé dela. Ela desistiu do procedimento", escreveu a criadora do grupo. "Que fique claro que a gente apoia qualquer decisão. A que ela escolheu só é mais aceita pela sociedade. A alternativa a gente oferece, e fico feliz em vê-las felizes, independente de como decidam seguir a vida", rematou.

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