O gangue foi ao hospital e resgatou o traficante "Fat Family"

Traficante "Fat Family", que saiu da prisão para se submeter a uma cirurgia, foi resgatado por 20 parceiros do seu gangue. Um paciente morreu na ação. Homicídios crescem 15 por cento na cidade em ano de Jogos Olímpicos

Um grupo de 20 criminosos invadiu no domingo passado um hospital público do Rio de Janeiro, armado de metralhadoras, pistolas, espingardas e granadas, para soltar um preso que acabara de receber alta após ser submetido a uma cirurgia. Na sequência do fogo cruzado entre o grupo e os polícias que vigiavam o traficante, morreu um paciente. Um agente e um enfermeiro ficaram feridos. A menos de dois meses dos Jogos Olímpicos na cidade brasileira, o caso elevou a preocupação das autoridades - e dos visitantes e atletas - até porque o hospital em causa está destacado para o evento.

Nicolas Jesus, conhecido como "Fat Family", recuperava de cirurgia no Hospital Souza Aguiar, porque as unidades hospitalares penitenciárias não efetuam operações, onde ficou seis dias, com direito a visitas e a uso de telemóvel. "Os marginais já tinham conhecimento de onde estava o preso tudo indica que pessoas de dentro do hospital também deram informações para os marginais executarem a operação", disse o delegado encarregado do caso Fábio Cardoso.

Os dois polícias que faziam a guarda do traficante afirmam que se sentiram impotentes perante a chegada de seis dos criminosos armados ao quarto de "Fat Family", que lidera o tráfico de droga num morro carioca. "Ficamos encurralados no vão de escada que dá acesso ao quarto, sob a mira de espingardas, então um outro grupo entrou no quarto, rebentou as algemas dele e todos fugiram", disse um dos agentes.

Ronaldo de Souza, de 35 anos, que foi levado por um amigo ao hospital para receber atendimento médico, acabou morto com um tiro no peito durante a invasão. "Ele só ia receber atendimento médico, ele é a vítima de tudo isto, ele e a família dele", disse Robson, irmão da vítima, que era pai de uma menina de 13 anos e que deixa a mulher grávida de outra. Um polícia e um enfermeiro também foram atingidos durante o fogo cruzado.

"Nunca presenciei tanto terror, metralhadoras, granadas, tiros, fiquei escondida o tempo todo debaixo de uma maca", contou uma médica que testemunhou a cena à TV Globo.

As autoridades discutem agora a responsabilidade da ação. José Mariano Beltrame, secretário de segurança do Rio, com gabinete a poucas centenas de metros do hospital, disse que "historicamente, nestes casos de custódia estão sempre dois polícias com o criminoso". Mas acusou a falta de planeamento urbano do Rio que faz com que a polícia esteja sempre em desvantagem. Eduardo Paes, prefeito da cidade, rebateu: "Culpam sempre a escuridão, a desigualdade social, a falta de planeamento urbano... faltava lá mais polícia, só isso". O ministro da defesa do governo provisório liderado por Michel Temer garante segurança nos Jogos. "A segurança do evento estará dentro dos melhores padrões internacionais, mantemos contato com órgãos de inteligência de mais de 100 países", disse Raul Jungmann.

A polícia ainda procura os envolvidos no resgate e, claro, "Fat Family". Para tal, 18 batalhões da polícia cercam 28 favelas cariocas da região onde o traficante opera.

Na terça-feira da semana passada, houve um arrastão numa escola pública, na quarta-feira, cinco polícias foram baleados por criminosos, na quinta-feira um casal teve o carro metralhado por entrar por engano numa favela e na segunda-feira uma mulher e um rapaz de 19 anos morreram atingidos por balas perdidas no Complexo do Alemão.

A cada hora há 21 roubos no Rio e a cada dia 14 assassinatos. O crime em 2016 subiu 15 por cento em relação a 2015. "A crença no sucesso das UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) ficaram no passado, há um descrédito total na cidade", comenta a socióloga Julita Lemgruber.

Entretanto, causou comoção internacional o caso da atleta paralímpica australiana assaltada por homens armados no domingo. Depois de dizer aos criminosos que não tinha dinheiro, os assaltantes levaram a bicicleta em que Liesl Tesch circulava. Tesch já participou em seis paralimpíadas e foi medalha de ouro em canoagem nos Jogos de Londres, em 2012.

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