O futuro de Bouteflika entre a incerteza e a sombra do irmão

Estado de saúde do presidente e a sua idade abriram caminho a especulações sobre sucessor. Irmão mais novo é dado como possível candidato - se tiver luz verde dos militares

O silêncio permanente e as raras aparições públicas do presidente Abdelaziz Bouteflika estão a transformar a cena política argelina num campo de batalha onde as escaramuças são cada vez mais violentas, o clima de conspiração permanente e onde reina (pelo menos, na aparência) a mais absoluta incerteza e a mais total opacidade.

Há cada vez mais vozes a pronunciarem-se contra um eventual quinto mandato do presidente, devido à sua idade, 80 anos, e principalmente à sua condição física. Bouteflika, cujo mandato termina em 2019, tem visto a saúde deteriorar-se na última década, sofreu mais de um acidente vascular cerebral, esteve hospitalizado várias vezes em França, sendo divulgadas poucas notícias sobre as razões dessas hospitalizações; mal se consegue movimentar e tem dificuldade em expressar-se, como foi possível constatar na recente presença pública, a 23 de novembro, quando não conseguiu falar propriamente. No primeiro de novembro, por ocasião do 63.º aniversário do início da luta pela independência, a presidência divulgou uma mensagem sua - escrita.

Neste quadro, muito se especula sobre o papel do irmão mais novo do presidente, Said Bouteflika, de 59 anos, e também da restante família. Especulações que ganham maior dimensão com alguns a pressuporem que Said tem ambições para além das suas funções atuais: conselheiro especial do irmão.

O secretário-geral da Frente de Libertação Nacional (FLN), principal partido da maioria presidencial, Ould Abbes, afirmava em julho que se Said "quiser ser candidato em 2019, ele tem todo o direito de o ser, como qualquer outro argelino". Recentemente, na campanha para as eleições locais de 23 de novembro, Ould Abbes foi ao ponto de dizer que "o próximo presidente da Argélia, Alá sabe quem é e nós também o conhecemos". O que foi interpretado por alguns como uma espécie de balão de ensaio para a candidatura de Said. Antes das presidenciais de 2014, Said teria pensado em suceder ao irmão, mas a contestação de 2011 nos países árabes, teria travado essa ambição, lia-se a 12 de março de 2014 na Mondeafrique. E se hoje este ex-professor de informática, com importantes ligações ao mundo empresarial, está sempre ao lado do irmão e tem a sua atenção e certo poder real, ao ponto de ser conhecido como "o regente" e "senhor sombra", como notava no início do mês um texto do correspondente do Le Monde em Argel - tem também anticorpos. A começar na própria família. E nas forças armadas, sem as quais muito pouco sucede no plano das decisões políticas determinantes. Um dos fundadores do RCD, oposição de base laica e berbere, Mokrane Aït Larbi, ouvido pelo diário argelino Le Matin, a 23 de outubro, sublinhava isso mesmo: "Não vejo qualquer motivo para que as forças armadas não observem essa regra em 2019". Tanto mais que "o poder [político] não tem candidato natural e cada clã do sistema vai querer impor" um nome para a presidência.

É ainda Aït Larbi a notar que, perante as divisões reinantes na oposição, os círculos do poder terão a via facilitada para impor uma candidatura que poderia ser a do irmão mais novo do presidente. Se houver luz verde das forças armadas. Mas, como acima referido, as ambições de Said encontram resistência no círculo da família presidencial, tanto mais que ele não é o único a ter acesso direto a Abdelaziz. Uma das irmãs do presidente, Zhor Bouteflika, parteira de formação, é hoje enfermeira permanente do presidente, no que uma recente reportagem da revista Jeune Afrique classificava como o "bunker medicalizado" de Zéralda, onde Bouteflika passa os seus dias. E antes do início do seu quarto mandato, em 2014, foram surgindo notícias nos media argelinos e franceses relatando discussões entre Zhor e Said, com a primeira a discordar do segundo na questão de manterem o irmão mais velho naquele cargo público. E nos últimos tempos, novas notícias apontam para o recrudescimento de tensões entre os dois, com Zhor a opor-se ao cenário de uma candidatura de Said.

Além de Zhor e Said, um outro irmão de Bouteflika, Nasser, é elemento de ligação com o governo e as chefias militares. E se não lhe são atribuídas ambições próprias, nada lhe proíbe que não queira torpedear as do irmão, nem que seja com o objetivo de impedir a criação de uma "dinastia Bouteflika". O que seria uma forma de proteger o próprio futuro da família a acreditar nas declarações de um ex-presidente da petrolífera estatal, Sonatrach, ao Le Monde. Para Hocine Malti, "as chefias militares nunca aceitarão uma dinastia Bouteflika".

Tudo isto sucede tendo como pano de fundo uma série crise económica, com o Banco Mundial a prever o crescimento de 1% do PIB para 2018 e de 1,5% em 2019. O que resulta da queda do preço do petróleo, que forçou a redução do investimento público, e uma profunda tensão social decorrente da primeira mas também relacionada com o clima de incerteza política.

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