"O francês é uma alternativa à globalização à americana"

Em Lisboa para apresentar o livro Et Le Monde Parlera Français (E o Mundo Falará Francês) no Institut Français du Portugal no âmbito da Festa da Francofonia, Marie-Laure Poletti explicou ao DN que "hoje estamos a deixar a ideia de que o francês está a lutar contra o inglês".

Instalada na Casa de São Mamede, Marie-Laure Poletti defendeu o francês como "mais-valia", a acrescentar à língua materna e ao inglês. Quanto a África, explica que "se o ensino não acompanhar, não vai haver 700 milhões de francófonos" naquele continente.

Os franceses são muitas vezes suspeitos de não querer falar outra língua. É uma forma de protegerem a vossa?

Acho que não. Os franceses são visceralmente monolingues. Temos uma ligação muito particular com a nossa língua. O árabe é a segunda língua em França em termos de número de falantes mas quase não há ensino do árabe língua viva no sistema de ensino francês. Aprendemos línguas estrangeiras, mas estamos mal classificados nos rankings. Felizmente é cada vez menos assim nas novas gerações porque tem havido oportunidades de mobilidade, como o Erasmus.

O seu livro chama-se E o Mundo falará Francês. A língua francesa tem hipótese de quebrar a hegemonia do inglês?

Hoje estamos a deixar a ideia de que o francês está a lutar contra o inglês. Atualmente em termos de pessoas que falam inglês - ou globish, como se diz - claro que não podemos fazer concorrência. Mas o objetivo não é esse. O que acho interessante para França é a aposta no plurilinguismo - e Emmanuel Macron foi o primeiro presidente a transmitir essa mensagem, no discurso de terça-feira em que anunciou um plano para a promoção da língua francesa. Os franceses não são plurilingues. França é praticamente o único país francófono em que o francês não está em contacto com outras línguas. O próprio conceito de francofonia está a ser redefinido mesmo se Macron na verdade não usa a palavra. Ele considera que a língua francesa tem lugar na defesa do plurilinguismo. De certa forma o francês é uma alternativa à globalização à americana.

O francês seria mais uma alternativa do que um contrapoder então?

Depende das nossas convicções. Eu pessoalmente penso que pode ser um contrapoder. Mas para o presidente talvez não seja tanto um contrapoder como uma forma de voltar a colocar a França no palco internacional. Com um peso que tinha perdido.

Estão a caminho de ultrapassar a indiferença, de que fala no livro, da elite francesa à luta pela francofonia?

A luta em França ainda não está ganha. Antes dos anúncios feitos pelo presidente foram consultados peritos, muita gente fez propostas, fossem organismos ligados à língua, partidos, sindicatos, associações, quem quisesse. O objetivo era ter em conta essas ideias que iam no sentido do respeito pelo plurilinguismo e da descentralização da francofonia. Que França deixe de ser o centro da francofonia, até porque em termos demográficos já não o é. E que deixe de o ser em termos políticos. O que não significa que França não tenha um papel importante - a língua francesa nasceu lá - mas deixa de haver centro e periferia. Essa ideia está clara para quem fez propostas, está clara nos outros países francófonos mas ainda não está clara para as elites francesas. E depois há Bruxelas. Não podemos iludir-nos: não é porque os ingleses se vão embora que o inglês vai desaparecer. É verdade que os anglófonos que ficam - Irlanda e Malta - representam o gaélico e o maltês. No limite já não há anglófonos em Bruxelas. Jean Quatremer, o correspondente do Libération em Bruxelas, por exemplo, que é um acérrimo defensor do francês garante até que o euroceticismo nasceu porque fazemos a Europa em inglês.

Mas com a saída do Reino Unido, haverá uma oportunidade para o francês se impor mais em Bruxelas?

É uma oportunidade para o francês, para o espanhol, para o alemão, etc... Não vamos dizer que o francês vai ocupar o lugar do inglês mas vamos dizer que há outras línguas com muitos falantes - e aqui podemos juntar o português.

França tem pela primeira vez um presidente que não hesita em falar inglês, é uma mudança de geração, de mentalidade ou uma afirmação de quem tem tanta confiança na sua língua que não tem problemas em falar inglês?

Temos o primeiro presidente a falar inglês corretamente [risos]! É também uma questão geracional, claro. Ele tem 40 anos. E tem um percurso profissional em que trabalhou na economia, na banca, onde o inglês era a língua de trabalho. Mas com ele estamos no fio da navalha. Acho que há situações em que ele tem razão de falar em inglês. Quando Trump sai da cimeira sobre o ambiente, o inglês justifica-se. O slogan [Make the Planet Great Again - Fazer o Planeta Grande Outra Vez] ser em inglês faz sentido. Quando o slogan é sobre a Torre Eiffel, incomoda-me que se ponha primeiro em inglês. É interessante como no Forum Económico de Davos o discurso de Macron em francês não teve nada a ver com o discurso que fez em inglês. Quando se fala de duas visões da globalização, em inglês ele falou de economia e finança, em francês falou do desenvolvimento, solidariedade, de valores, de coesão, de partilha. Acho que na cabeça dele não foi inocente, representava duas formas de ver as coisas e de falar da realidade, do mundo. Ele tem uma forma subtil de usar o inglês. E fez progressos. Durante a campanha criticaram-no por falar inglês. Explicaram-lhe que não estava correto e agora ele começa a encontrar um bom equilíbrio entre o uso do inglês que em certas instâncias se justifica e a afirmação do francês quando é útil.

Portugal tem um problema semelhante ao da França - uma língua falada por milhões de pessoas que queremos que continue a ter a sua influência, sobretudo em África. Qual é a melhor estratégia para promover a língua - seja francesa ou portuguesa?

Acho que o português está mais avançado do que o francês neste aspeto. Têm menos espírito de país que é o centro da lusofonia. É um problema que nós temos em França. E dizermos que respeitamos o plurilinguismo significa também uma política linguística que aposta nas parcerias. Temos de abandonar a ideia de França ser o centro da língua francesa. Há, por exemplo, a Organização Internacional da Francofonia que é complexo. Mas não vai ser fácil gerir países tão diferentes com opiniões diferentes. Depois há parcerias com os outros países francófonos. Nós defendemos que em alguns países as Alianças Francesas sejam alianças francófonas. Essa é uma das 33 propostas do presidente. Em África por exemplo já havia parcerias com os governos e as universidades locais. É importante conseguirmos isto. E acho que pode acontecer por uma razão muito simples é que ninguém tem dinheiro. Todas as estruturas, institutos franceses, etc., estão à procura de parcerias . Por exemplo, a China lançou com França e alguns países francófonos africanos vários programas em África de formação de técnicos. Aos chineses, África interessa, é claro. Mas sabem que não podem trabalhar em chinês. E ainda vai demorar até os africanos aprenderem mandarim. Por isso fazem uma parceria com França e também com o país africano de destino. Fazem-se programas tripartidos, com uma parte linguística para que haja uma língua de trabalho comum que será o francês. Acontece o mesmo com alguns países anglófonos de África. Que são dos mais avançados em termos de desenvolvimento, mas que como estão rodeados de países francófonos, como é o caso da Nigéria, têm tendência para desenvolver o ensino do francês para fazer comércio. O inglês tem o seu lugar, mas para a China em África o francês interessa mais porque ela quer ir para os países francófonos.

Em África a demografia vai ajudar o francês?

Temos de ter muito cuidado. Em termos de projeção demográfica, é verdade que temos mil milhões de africanos hoje e que em 2100 poderão ser quatro mil milhões. Mas não quer dizer que isso vá criar francófonos. Se olharmos para o Senegal, que tem fama de ser o país mais francófono de África, há 13% de pessoas que falam francês. O wolof ganhou uma importância enorme e agora há um trabalho para ser a língua da administração apesar de o francês ser a língua oficial. Verdade é que o Senegal não tem dezenas de línguas nacionais. Há países que têm 200. E aí o francês serve de ligação. E serve de ligação também entre os países de África francófonos. Isso é certo, nas implica que os sistemas de ensino funcionem e sabemos que em muitos países africanos há ainda um problema com a formação de professores. Alguns têm uma insegurança linguística que os impede de ensinar corretamente disciplinas não linguísticas como a matemática ou outras em francês. Portanto se o ensino não acompanhar, não vale a pensa sonhar, não vai haver 700 milhões de francófonos.

Em Portugal as gerações mais novas não aprenderam francês, há um investimento para atrair estes jovens?

Muita gente acha que o francês não serve para nada. Na Europa há um recuo do francês, não é só em Portugal. O único argumento possível é mostrar aos jovens que hoje a língua materna e o inglês é a base, mas é preciso uma mais-valia, uma terceira língua. Em Portugal por razões históricas e com uma diáspora importante em França faz sentido essa língua ser o francês. Em França ainda não estamos lá. Mas é o futuro. Temos a língua materna, o inglês que é obrigatório, mas é preciso outra língua. Porquê o francês e não outra? Depende da área linguística de que estávamos próximos. Mas o francês tem argumentos: é falado nos cinco continentes, abre portas nos negócios, está ligado a uma cultura, não só francesa mas francófona. Ao contrário do inglês que se aprender e que não está ligado a uma cultura. É o inglês de aeroporto, para comunicar. Não tem essa dimensão cultural que o francês, felizmente, mantém.

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