O "filme" dos coletes amarelos até ao dia em que deixaram Paris de pernas para o ar

As manifestações fizeram 263 feridos, quase metade na capital, e acabaram com 378 detidos. O presidente contestado deu ordens para o primeiro-ministro ouvir a oposição e os coletes amarelos. Como é que chegámos aqui?

No dia seguinte à manifestação de "uma gravidade sem precedentes" e de uma "violência extrema e inédita", como disse o chefe da polícia de Paris, Michel Delpuech, o dia foi de limpeza. A autarca Anne Hidalgo disse que a fatura vai surpreender porque os estragos "foram imensos". Só incêndios foram 250.

Emmanuel Macron regressou da Argentina e dirigiu-se para o vandalizado Arco do Triunfo, símbolo da República. Não fez declarações, mas depois de se reunir com o governo deu indicações ao primeiro-ministro para receber os líderes partidários e uma delegação de coletes amarelos a partir de segunda-feira.

Sábado foi o dia mais violento de um protesto que tem raízes no mês de outubro.

18 de outubro
Um vídeo de uma até então desconhecida francesa, Jacline Mouraud, interpela o presidente Emmanuel Macron devido à política de "caça aos automobilistas": aumento do preço de combustíveis, portagens para entrar nas grandes cidades, radares por todo o lado. "O que você faz à massa dos franceses?", questiona. O vídeo é um sucesso nas redes sociais, visto e partilhado por milhões de franceses. Aliado a uma petição online que hoje já leva mais de 1,1 milhões de assinaturas a favor da descida dos preços do gasóleo e da gasolina, cria o caldo para os apelos à ação, em particular pelo corte de estradas.

17 de novembro
O primeiro dia de mobilização nacional contra a política do governo junta uns 290 mil manifestantes de colete amarelo, uma manifestação sem precedentes tendo em conta que foi organizado sem apoio de partidos ou sindicatos.

As primeiras perturbações ocorrem na A84 e na nacional 175 entre Villedieu-les-Poëles e Avranches; na nacional 13, em Cherburgo; e na nacional 814 em Caen. Na periferia de Paris, um forte contingente policial conversa logo ao início do dia com pequenos grupos de manifestantes para evitar o bloqueio total da capital. Ao todo, são bloqueados em todo o país mais de dois mil locais.

Uma manifestante do movimento morre em ​​​​​​​Saboia, no Sudeste do país, atropelada por uma condutora em pânico.

Registam-se ainda 227 feridos, dos quais sete graves.

20 de novembro
O ministro do Interior, Christophe Castaner, denuncia a "deriva total" e a radicalização do movimento. Em quatro dias, os bloqueios de estradas e protestos fazem 530 feridos, incluindo 17 graves, e resulta numa segunda morte acidental. A onda de violência atravessa milhares de quilómetros e chega a Reunião. Na ilha situada no Índico as autoridades respondem com o recolher obrigatório durante cinco dias.

21 de novembro
O presidente francês, Emmanuel Macron, admite "medidas severas" contra "comportamentos inaceitáveis" nas manifestações dos "coletes amarelos", diz o porta-voz do Governo Benjamin Griveaux após uma reunião do conselho de ministros. "Existem sofrimentos legítimos que é preciso entender, mas também comportamentos inaceitáveis. Devemos ser intransigentes com a ordem pública. Não podemos aceitar as duas pessoas que morreram, os feridos entre os manifestantes e as forças da ordem, nem os propósitos racistas, antissemitas e homofóbicos", acrescentou, em declarações aos média. "A resposta do Estado foi firme e a severidade será aplicada como tem sido aplicada desde o primeiro dia", sublinha.

24 novembro
A segunda manifestação reúne 106 mil pessoas, das quais umas 8 mil em Paris, nos Campos Elísios. Se a maior parte das concentrações são pacíficas, na capital os manifestantes entram em confronto com a polícia. Esta recorre à força para tentar controlar os manifestantes, usando gás lacrimogéneo e canhões de água. O número de manifestantes vai, contudo, aumentando e descem a avenida para tentar chegar ao Eliseu. Há 24 feridos, cinco deles das forças da ordem, e 101 detidos.

O ministro do Interior aponta o dedo aos "sediciosos" de "ultradireita", que "responderam à chamada de Marine Le Pen". Já os partidos de oposição criticam o governo por querer reduzir o movimento à violência e não ouvir os cidadãos.

Em Toulouse e Béziers, vários jornalistas são vítimas da violência de coletes amarelos.

26 de novembro
Os coletes amarelos designam uma delegação de oito porta-vozes. Mas a ideia sofre contestação e a delegação é dissolvida.

27 de novembro
O presidente gaulês propõe a revisão do imposto sobre os combustíveis de três em três meses, consoante o preço do barril de petróleo. E diz que haverá um debate nacional sobre a denominada transição ecológica, a taxa que determina o aumento dos combustíveis, mas sem renunciar à sua estratégia sobre o ambiente e a energia nuclear. "Fim do mundo" ou "fim do mês" não são uma escolha, diz. "Vamos tratar dos dois", garante Macron.

Após uma reunião com o ministro da transição ecológica, François de Rugy, os coletes amarelos marcam uma nova manifestação para 1 de dezembro nos Campos Elísios.

O primeiro-ministro Edouard Philippe confirma o aumento do imposto sobre os combustíveis a partir de 1 de janeiro.

Um camionista português é detido em França, na zona de Toulon, por abalroar um motard que participava numa marcha lenta dos coletes amarelos.

29 de novembro
Na quinta-feira, o primeiro-ministro recebe discretamente um colete amarelo. Na sexta-feira, outros dois, mas um deles foi embora quase de imediato, ao ver que a reunião não era filmada.

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

O Mourinho dos Mourinhos

"Neste país todos querem ser Camões mas ninguém quer ser zarolho", a frase é do Raul Solnado e vem a propósito do despedimento de José Mourinho. Durante os anos de glória todos queriam ser o Mourinho de qualquer coisa, numa busca rápida encontro o "Mourinho da dança", o "Mourinho da política", o "Mourinho da ciência" e até o "Mourinho do curling". Os líderes queriam ter a sua assertividade, os homens a sexyness grisalha e muitas mulheres queriam ter o Mourinho mesmo.