"O exército nunca deixou de ter uma palavra no Egito"

Especialista em islão medieval e professora de Filosofia, Catarina Belo explica ao DN as raízes da cisão entre sunitas e xiitas, a convergência entre política e religião no islão e algumas condicionantes na origem das Primaveras Árabes.

A académica portuguesa comenta também o momento político no Egito, onde ensina, e as presidenciais marcadas para março.

Como vê a situação política no Egito?

Penso que o principal problema é o terrorismo. Por outro lado, ainda estamos a viver as repercussões da Primavera Árabe no país. Há um terceiro dado a referir, que é um elemento de continuidade, que é o peso e a importância das Forças Armadas na vida política...

Era inevitável que as Forças Armadas afastassem a Irmandade Muçulmana?

As Forças Armadas, pode considerar-se que verdadeiramente nunca deixaram de ter uma palavra sobre tudo o que estava a suceder. Não necessariamente de forma ostensiva, mas sempre presentes. Havia, por outro lado, certo descontentamento das pessoas com o modo como a Irmandade estava a atuar e é preciso lembrar que a sua vitória foi por uma pequena margem...

Como definiria a sociedade egípcia?

Nas eleições de 2012 viu-se que os movimentos laicos, ou seculares, animados pela juventude, que foram muito importantes na contestação que levou à queda de Mubarak, não conseguiram bons resultados. Para entender isto é preciso ter presente que o Egito é uma sociedade muito religiosa e o laicismo não é algo bem aceite. Uma tendência incentivada desde os tempos do presidente Sadat, que era ele próprio muito religioso, e especialmente a partir do momento em que inicia o afastamento face à URSS e a aproximação aos EUA. E isto não se aplica apenas ao islão. Há uma comunidade cristã antiquíssima e foi no Egito que nasceu a tradição monástica, o que constitui também uma referência importante. E foi uma comunidade que a Irmandade hostilizou, mesmo que não o fizesse abertamente. Há uma terceira comunidade religiosa, que é a dos sufistas, praticamente com a mesma dimensão da cristã e que também foi hostilizada pela Irmandade. É uma sociedade algo pluralista.

Qual o principal desafio para o poder político e como vê as próximas presidenciais?

Penso que o resultado das eleições é evidente. O presidente Al-Sissi vai continuar. Quanto a desafios, penso que o principal é o terrorismo, como já referi. E a instabilidade económica.

O que vai acontecer com a Irmandade?

Esta é uma organização com longa existência, criada na década de 20 do século XX. Mas a sua passagem pelo poder representou um período de grande instabilidade política e foram criadas grandes expectativas que não se concretizaram. Hoje, são considerados uma organização terrorista e, claro, estão ilegalizados. Não sei se hoje ganhariam umas eleições, mas são importantes até pela dimensão internacional que têm, por exemplo na Turquia, no Qatar e noutros países.

Como se explicam as divisões existentes no islão?

O islão tem uma história de quase 1400 anos e é quase impossível pensar que não haveria diferenças ou divergências. A principal é claramente a divisão entre sunitas e xiitas, e depois as diferenças no interior de cada uma destas correntes. É preciso ter presente que no islão não há diferença entre religião e política e isto desde o início. A divergência que existe entre xiitas e sunitas tem origem em razões políticas. Os sunitas defendiam que o califa seria o sucessor de Maomé e seria escolhido pela comunidade enquanto os xiitas achavam que devia ser alguém da família de sangue do profeta. Há, desde o início, esta dimensão política.

A divisão entre xiismo e sunismo não é de natureza teológica?

Hoje há muitas diferenças teológicas, mas na origem da divisão está a questão política.

Quais as principais diferenças?

Uma é a questão da liderança. Os sunitas são, em princípio, uma só corrente, enquanto os xiitas estão divididos em diferentes correntes, em especial na questão do número de imãs que cada uma destas correntes reconhece. Também relevante é a importância que xiitas e sunitas concedem às fontes, com os primeiros a privilegiar mais o Alcorão, não tanto a tradição. No xiismo, a ligação entre religião e política é mais estreita, o líder supremo no Irão é simultaneamente uma figura política e religiosa, o que não sucede noutros países muçulmanos em que há especialistas em direito islâmico ou pessoas como o presidente da Universidade de Al-Azhar, a maior autoridade no islão sunita, mas que não é um político. E veja-se o caso do presidente Al-Sissi, que detém o poder político mas não é uma autoridade religiosa. O xiismo foi, de alguma forma, influenciado pela filosofia grega, o que não sucedeu no sunismo. O próprio ayatollah Khomeini baseou o modelo da República Islâmica no modelo de A República de Platão.

O islão teve relevo na Primavera Árabe?

Há aqui várias questões. Primeiro, a longa permanência no poder de vários líderes; segundo, e isto é muito importante, a impressão é de que estas repúblicas se estavam a transformar em regimes hereditários, com os filhos a sucederem aos pais. Terceiro, havia um forte desejo de mudança. Quarto, o nacionalismo árabe não parecia estar à altura dos desafios, não ter resposta para os problemas e é aqui que o fator islão ganha relevo: há vários movimentos islâmicos que se assumem claramente como alternativa ao nacionalismo árabe.

A alternativa ao nacionalismo árabe tinha de ser, forçosamente, aquilo que se chama o islão político? Não era possível conceber uma outra alternativa?

O problema é que uma outra alternativa surgiria sempre conotada com o Ocidente, em especial projetos laicos, que acabam por ser associados à corrupção moral. O que torna muito difícil a sua legitimação. Um projeto político tem de contemplar a vertente islão, claro que com variantes, ainda que neste momento predominem as tendências conservadoras. Curiosamente, estas começam a surgir já a história do islão conta alguns séculos. Mas isto não quer dizer que todos os muçulmanos pensem desta maneira, mesmo nas sociedades árabes.

Que fundamentos existem no Alcorão e no pensamento islâmico para justificar projetos como a Al-Qaeda? O islão contém em si mesmo um elemento de violência?

Há alguns fundamentos teológicos para estes grupos ligados a uma maneira muito seletiva de ler o Alcorão. O Alcorão tem múltiplas dimensões: há passagens mais espirituais e de apelo à paz, partes históricas, partes jurídicas, outras referentes à tradição cristã e passagens sobre conflitos e violência. Os extremistas favorecem estas últimas, muitas vezes esquecendo o contexto histórico. E o Alcorão pode ser lido de muitas maneiras.

Referiu a referência à tradição cristã no Alcorão, além da do judaísmo. Qual é a relevância destas contribuições no Alcorão?

Há a presença de figuras bíblicas, como Abraão, e um outro aspeto relevante: é concedido especial respeito aos judeus e cristãos. Isto porque o islão se vê como o culminar do cristianismo e do judaísmo, integrando ambos. Para o islão a mensagem de Deus é sempre a mesma: é uma mensagem monoteísta, mas que foi corrompida pelos judeus e cristãos.

Mas os judeus e cristãos são apresentados como infiéis...

Essa é uma ambiguidade do Alcorão.

A maioria das sociedades islâmicas são também regimes de ditadura. Pode depreender-se que o Islão justifica, nos seus princípios, formas de autoritarismo, como o chamado "ditador justo", que existe alguma forma de incompatibilidade entre o Islão e a democracia ou a natureza destes regimes resulta de outros fatores?

O ditador ou o califa justo. Numa sociedade islâmica, o poder vem de cima mas, e isto desde os tempos do islão medieval, o governante tem de ser justo, religioso e sábio. O conceito de democracia é totalmente secular e, nesse sentido, julgo que sim, pode dizer-se que há alguma forma de incompatibilidade entre o islão e a democracia. Há pluralismo, mas enquadrado num modelo islâmico.

Muitos cenários apontam para a multiplicação da população muçulmana na Europa. No plano religioso e cultural, que impacto é que este facto demográfico pode ter?

Os muçulmanos desejam realmente o reforço do elemento islâmico na Europa e nos EUA. Isto não significa que todos vão ser radicais. Muitos muçulmanos na Europa têm uma visão própria do islão, estão recetivos a elementos da civilização ocidental, muitos estão assimilados, outros não, é verdade, mas penso que o islão na Europa tende a ser diferente.

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