O estranho caso da morte encenada de Arkady Babchenko

A BBC descobriu e entrevistou o "assassino" do jornalista russo que apareceu, em maio, deitado numa poça de sangue em Kiev, mas estava vivíssimo. Os serviços secretos da Ucrânia dizem que encenaram a morte para a prevenir

Oleksiy Tsymbaliuk é um sorridente ex-padre ortodoxo, com uma barba loura. Apresena-se assim: "Eu sou o assassino de Arkady Babchenko",com uma gargalhada.

No final de maio, a notícia deste feito peculiar não foi recebida sequer com sorrisos. O caso chegou, em horas, ao Conselho de Segurança da ONU.

Babchenko é um dos mais vocais críticos do presidente russo, Vladimir Putin. Por isso, a sua morte, fotografada, numa poça de sangue, em Kiev, na Ucrânia, foi apontada como uma retaliação russa às críticas do jornalista.

A tentativa de assassinato, por envenenamento, de Sergei e Yulia Skripal, no Reino Unido, tinha lançado uma vigorosa campanha diplomática de alguns países da União Europeia.

Mas este era um caso bastante diferente... Vinte horas após as notícias sobre a morte de Babchenko, o próprio apareceu, numa conferência de imprensa. Foi então revelado que o caso foi montado pelos serviços secretos da Ucrânia, o SBU, como forma de denunciar os assassinatos políticos que - garante o SBU - são encomendados pela Rússia

Os programas Panorama e Our World , da BBC, juntaram as peças soltas deste incrível boato que espantou o mundo.

Oleksiy Tsymbaliuk, o "assassino" é uma das peças mais perturbantes da história. No Facebook, ele aparece, ora vestido de sacerdote ortodoxo, ora de membro de milícias de extrema-direita no leste da Ucrânia.

No início de abril, Tsymbaliuk recebeu um contacto dos tempos da guerra: Borys Herman, um fabricante de armas. "Herman pediu-me para matar algumas pessoas, sobretudo russos."

Mas, de facto, o pedido estava a ser seguido pelos espiões do SBU, assume à BBC Vasyl Hrytsak o chefe dos serviços secretos. Tsymbaliuk passou a fazer de agente duplo. Gravou todos os encontros com Borys.

Por isso, o SBu decidiu avançar com a morte encenada de um dos alvos, Babchenko. "Era a única forma de acedermos à restante lista de alvos."

Toda a restante encenação é digna de filme: com maquilhadoras, papéis secundários...

Babchenko conta: "Foram as duas ou três horas mais estranhas da minha vida. Eu estava sentado na morgue, enrolado num lençol como Gandhi. Estava a fumar enquanto ia vendo notícias na TV sobre o tipo maravilhoso que eu era. Ao lado, um patologista estava a serrar um crânio, a fazer uma autópsia."

Borys, o mandante, foi preso. Mas toda a gente que participou nesta história viveu um epílogo. Felizmente, Babchenko sobreviveu a tudo - à morte noticiada e à sua encenação.

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