O "enfermeiro" das FARC que fez centenas de abortos forçados

Héctor Arbodela Buitrago, de 41 anos, foi detido em Madrid em dezembro de 2015. Agora, o governo espanhol assinou a extradição pedida pelas autoridades colombianas

Foram cerca de 500 as guerrilheiras das FARC que passaram pelas mãos de Héctor Albeidis Arboleda Buitrago, preso preventivamente em Espanha e que será extraditado em breve para a Colômbia. Conhecido como o "enfermeiro das FARC", este homem de 41 anos, realizava abortos forçados para pôr fim a gravidezes na sua esmagadora maioria resultado de violações protagonizadas por guerrilheiros das FARC.

De acordo com a investigação, a maior partes destes abortos forçados terão ocorrido entre 1998 e 2000, altura em que uma diretiva da liderança das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia permitia o fuzilamento das guerrilheiras que não permitissem serem submetidas a um aborto. Mas também há relatos de intervenções até 2004. Existe contra Héctor um mandado de captura da Interpol, pedido pela Colômbia, por crimes de "tortura agravada e aborto sem consentimento e conspiração".

"Vi que saiu de mim um bebé, estava bem formado, tinha as suas mãos, senti que o seu coração batia", contou às autoridades uma das suas vítimas, de acordo com a estação de televisão colombiana Notícias Caracol. Um relato que confirma a suspeita de que foram feitos abortos em mulheres que já iam no seu sétimo ou oitavo mês de gestação. "Nunca tinha tido relações com um homem, era virgem, e depois de oito meses de estar lá um comandante disse-me que se eu o deixasse ter relações com ele me deixava ir para casa, Pensei que era verdade e violou-me. Um mês depois dei conta de que estava grávida", recordou a mesma mulher, recrutada pelas FARC ainda menina.

Com os testemunhos de mais de 50 vítimas, as autoridades ficaram a saber que entre as guerrilheiras abusadas havia cerca de meia centena de meninas indígenas, recrutadas à força para se juntarem ao grupo. Os abortos eram feitos "em condições insalubres, em quartos de hotel amarradas em macas, no chão em cima de plásticos que cobriam folhas de samambaia e erva seca, umas a seguir às outras sem limpar o sangue das que haviam abortado", escreveu o El Mundo, citando um auto do tribunal. Mais: Héctor não usava "medicamentos para prevenir infeções, o que algumas vezes o levou a repetir o procedimento já com infeções em curso, causando dores enormes e odores fétidos, abortos incompletos".

"Algumas delas morreram pouco depois por não receberem os tratamentos adequados", refere a investigação, adiantando que Buitrago era contactado por diversos líderes guerrilheiros das FARC para realizar abortos em várias zonas do país.

Na Colômbia, Buitrago é comparado a Josef Mengele, oficial no campo de concentração de Auschwitz e um dos responsáveis por escolher quem iria para as câmaras de gás. E tal como o médico nazi usava os cadáveres das guerrilheiras mortas por se recusarem a abortar. "Para algumas práticas médicas, Héctor desmembrava as combatentes das FARC fuziladas para dar aulas de anatomia", refere a investigação, citadas pelos media colombianos.

Existem documentos que o dão como um médico formado na Universidade Interamericana de Saúde de Havana, mas nas FARC era conhecido como o "enfermeiro".

Segundo o El Espectador, Luciano Marín Arango - um dos líderes das FARC e um elementos que negociou o acordo de paz com o presidente Juan Manuel Santos - já negou várias vezes que o chamado enfermeiro tenha pertencido ao grupo guerrilheiro, negando também conhecê-lo. Aliás, em dezembro de 2015, pouco depois de anunciado um acordo de paz inicial, Arango veio dizer que a ligação feita pelo Ministério Público colombiano entre o enfermeiro e as FARC era uma "montagem" que pretendia pôr em risco a "reconciliação na Colômbia".

Na altura da sua detenção, a 14 de dezembro de 2015, Héctor Arboleda Buitrago, que também tem nacionalidade espanhola, vivia em Madrid, cidade à qual havia chegado dois anos antes, referiu a Notícias Caracol. Foi libertado um dia mais tarde por um juiz da Audiência Nacional de Espanha, alegando que os crimes de que era suspeito poderiam já ter prescrito e por sofrer de uma doença degenerativa grave. Ficou com a obrigatoriedade de apresentações semanais às autoridades e foi-lhe confiscado o passaporte. A Colômbia pediu de imediato a sua extradição.

Em novembro no ano passado, uma juíza da Audiência Nacional decidiu que Espanha iria entregar Héctor Arboleda Buitrago à Colômbia, entretanto preso preventivamente. Uma medida que foi aprovada esta sexta-feira em Conselho de Ministros pelo governo de Mariano Rajoy.

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