O arquiteto que é amigo dos índios e contra o muro de Trump

Andrew Rodrigues, de 65 anos, é filho de madeirenses. Arquiteto em San Diego, Califórnia do Sul, tem entre os seus melhores clientes tribos de índios nativos americanos como os Pechanga

No imaginário de muita gente, os índios americanos são pessoas de pele escura, cabelo preto, que usam penas na cabeça e pulam à volta de fogueiras. Na realidade atual dos EUA, "muitos são loiros, de olhos azuis, têm grandes empreendimentos nas suas reservas, com hotéis, casinos, campos de golfe", diz ao DN Andrew Rodrigues, arquiteto lusodescendente de San Diego, que há mais de duas décadas faz projetos para tribos de nativos americanos. Os Pechanga, de Temecula, Califórnia, são a tribo com quem mais trabalha.

"Tudo começou assim: um dia, um amigo ligou-me e disse-me que tinha um cliente novo que queria fazer um casino em Temecula. Pedi mais informações, fiz o projeto, reuni-me com um intermediário que levou o projeto à tribo para eles verem. Mas disse que não podia fazer a coisa como eles queriam porque era contra os regulamentos de construção. Eles insistiram. Eu insisti que não podia ser. Então quiseram falar comigo diretamente", conta o descendente de emigrantes de Paul do Mar na Madeira. "Entrei numa sala do hotel e expliquei as minhas razões. Eles olharam para mim e perguntaram: "não o farás de outra forma?". Eu disse: "Não". E eles: "Estás convicto?". E eu: "Sim". Eles agradeceram e disseram que se precisassem de mais informações diziam. Quando cheguei a San Diego recebi uma chamada de um dos índios a dizer: "Queremos contratar-te". Desde então, tem sido uma relação excelente. Os Pechanga têm o maior casino índio a oeste do Mississippi. É grande. Por causa desse projeto conseguimos trabalho que vem de outras tribos", nota o arquiteto de 65 anos.

"Temos feito muitos casinos em reservas índias. A terra dos americanos nativos, nos Estados Unidos, é tratada quase como um país dentro de outro. É como o Vaticano e Itália. Agora estamos a fazer a expansão do Pechanga Resort & Casino no valor de 285 milhões de dólares. Está pronta no fim do ano. No condado de San Diego é onde há mais casinos. É um grande negócio. Só os Pechanga têm mais de quatro mil empregados", refere Andrew Rodrigues, diretor do estúdio Delawie, cujos negócios podem ir de construções de dois milhões de dólares até aos 300 milhões. "Fazemos arquitetura corporate, hotéis, casinos, edifícios de escritórios, de farmacêuticas, de empresas de novas tecnologias... Já fizemos trabalhos para todo o mundo, países como Itália, Rússia, Índia, Alemanha, Reino Unido, etc... Acabámos há pouco, no Arizona, o Andaz Scottsdale Resort & Spa Arizona, é um resort de luxo que a Condé Naste classificou como um dos do Top 100 do mundo. Desses cem, 22 são nos EUA, esse é um deles".

E como é a relação com as tribos? "Eles pedem-me propostas. Já não preciso de ir a entrevistas. Eles dizem-me o que querem fazer, perguntam quanto é que pode custar e pronto. 80% do meu trabalho já é para clientes que conheço. Não faço já muita publicidade", explica o lusodescendente que começou a vender participações na empresa, como preparação para a reforma. Casado com Janice, de 65 anos, tem dois filhos, uma enteada e vários netos. A mulher atualmente não trabalha. "Costumo dizer que ela é a minha CFO: Chief Financial Officer", diz, rindo. Mas nem tudo foram facilidades e para conseguir o que tem hoje, Andrew teve que estudar e batalhar muito. "Eu sempre trabalhei desde os 12 anos. Mesmo quando estava a estudar. Os meus filhos nunca precisaram disso. Felizmente. Têm os seus empregos. As suas respetivas famílias".

Andrew Rodrigues soube que queria ser arquiteto com 13 anos. "Tive a minha primeira aula de desenho. Não sabia muito bem o que era ser arquiteto, mas sabia que queria desenhar para sempre. Tive aulas no liceu. Participei em vários concursos e ganhei. Candidatei-me à faculdade e entrei. Licenciei-me em Arquitetura no Arizona. Os meus pais pagavam uma parte, outra parte era com empréstimos. Nós poupávamos muito, não saíamos, não íamos jantar fora, não íamos de férias, ir ao cinema ver um filme já era um verdadeiro acontecimento. Nunca passámos fome, nem falta de roupa, mas tínhamos pouco dinheiro".

Quando terminou a faculdade, teve a hipótese de ir com os pais pela primeira vez conhecer a Madeira, mas não quis. Ficou a trabalhar. "Fiz pequenos trabalhos até conseguir emprego na área da arquitetura. Este é o meu terceiro emprego. O primeiro durou um ano. Não gostei muito. Fui para outra empresa. Fiquei dois anos. Depois fui trabalhar para um homem que fundou a sua própria empresa. Muitos portugueses que trabalhavam na pesca do atum queriam construir as suas casas e ele disse-me que se arranjasse clientes dava-me parte do lucro. Trabalhei com ele durante três anos e, depois, com 30 e poucos anos tornei-me sócio. E agora detenho 30% da empresa e somos 60 empregados ao todo. Há outros donos, porque quero abrandar agora".

Ao contrário do que aconteceu com a maior parte da família, Andrew não foi para a pesca do atum. "O meu pai era membro da tripulação dos atuneiros", explica o arquiteto, apontando para uma das fotografias que tem na parede da sua sala no ateliê e que mostra um atum gigante a ser pescado com recurso a caniços. "Muitos iam para o mar jovens e, por causa do dinheiro, não queriam acabar os estudos". Os pais, Manuel e Maria, não quiseram que ele ganhasse gosto ao mar. "Queriam que fosse para a escola". O pai de Andrew ia pescar durante largos períodos, até à Samoa Americana, estando muito tempo ausente de casa. "Num ano, via-o quatro ou cinco vezes, às vezes só durante duas semanas. Não conheci bem o meu pai. Só quando ele se reformou, aos 50 anos, porque sofreu um ferimento. A minha mãe era a figura forte, que nos criou, mas penso que isso aconteceu com toda a gente que tinha os pais na pesca do atum".

Mas não é por causa de não ter ido trabalhar como pescador que a pesca deixa de ser uma paixão. "Um dos meus passatempos é gostar de pescar. Mas por prazer. Já pesquei no México, na América do Sul, Costa Rica, Alasca. Muitas vezes no Alasca. Noutras partes dos EUA. Água salgada, água doce. Pescamos, atum, albacora, salmão, etc... Não pesco nada que não possa comer", conta entre risos. "Mas mesmo que não pesque nada gosto de estar no mar, não enjoo, posso estar muito tempo no mar. Os meus filhos, por outro lado, um adora o mar, outro não. Têm 34 e 32 anos. Chamam-se Jessie e Andrew".

Quando finalmente foi a Portugal, era o ano de 2000. "Eu disse à minha mulher que queria ir, ela foi comigo, tirámos três semanas de férias: fomos a Portugal, Lisboa e Madeira, Espanha e também Reino Unido". E na Madeira encontrou familiares? "Não sabia quem estava lá ou não. Só havia um hotel. Apanhámos o táxi do aeroporto para lá. Não conhecíamos nada. Fizemos o check-in e fomos dar uma volta a pé. Subitamente, um carro para, um homem dá meia volta e pergunta: "Não é o Andrew Rodrigues, filho da Faneca (que é a alcunha da minha mãe)?" Eu disse: "Sim". E ele disse: "Entre". E a minha mulher disse: "Não entramos no carro de pessoas que não conhecemos". Mas entrámos e começámos a falar. E ele disse que os meus primos do Equador estavam lá e queriam ver-me. Depois tudo o que fizemos durante dois dias foi andar a comer na casa de uns e de outros e a conhecer todos estes familiares perdidos. Uns viviam lá e eu não sabia. Eram todos mais velhos do que eu. Foi divertido. Foi bom ver de onde venho e digo aos meus colegas todos que devem fazer o mesmo e ir ver de onde os pais deles vieram".

Trabalhando na área da construção, Andrew Rodrigues sentiu bem o impacto da crise do subprime nos EUA. "No meu negócio, dependemos das pessoas e, quem não é super-rico, tem que pedir empréstimos. E os bancos não davam empréstimos. Não estávamos a crescer, mas também não estávamos a dispensar trabalhadores. Quando a crise começou, em 2008, tinha 84 empregados. Depois, em três anos, passámos para 46. A seguir começámos a recuperar", conta, notando que, atualmente, em San Diego, as casas são mais baratas do que em Los Angeles e San Francisco e, por isso, muita gente quer ir viver para ali. E quanto ao muro que Donald Trump quer construir entre o México e os EUA? A Delawie poderia fazer o projeto? "Podíamos. Mas não o faremos. Para começar não acredito nesse projeto. Mas é uma coisa mais de engenharia. Não acredito no muro e acho que o dinheiro pode ser gasto noutras coisas. Foi só algo que Donald Trump prometeu durante a campanha, para chamar a atenção das pessoas", conclui, confessando: "Olhe, eu sou republicano e não votei nele".

Em San Diego - A jornalista viajou no âmbito da parceria DN/FLAD

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