O soldador e o bombeiro troçaram do advogado. E até houve troca de camisolas

A estreia do primeiro-ministro italiano num Conselho Europeu vai ficar para a história. A intransigência de Giuseppe Conte levou a que a reunião demorasse mais de oito horas. Os fotógrafos captaram os momentos de tensão, de descontração e de cansaço

Os assessores e diplomatas descreveram a reunião de Bruxelas aos jornalistas como "tensa e tortuosa", com os dirigentes políticos reunidos em pequenos grupos de forma a tentar lograr uma solução. Um deles, desesperado, contou a dada altura, madrugada alta, à Reuters: "É tão tóxico. Eles entram na sala, digladiam-se, saem em correria, regressam, enfrentam-se de novo. Sem nenhum fim à vista."

No início da noite, Angela Merkel e Giuseppe Conte reuniram-se e o encontro, que devia ter durado 45 minutos acabou aos 20, quando o líder italiano rejeitou as propostas da líder alemã.

A confrontação prosseguiu. O chefe do governo populista italiano, formado pelo Movimento 5 Estrelas e a Liga (extrema-direita), recusou assinar um texto sobre defesa, segurança e comércio sem que se chegasse antes a acordo quanto às questões migratórias.

Esta exigência levou a que o presidente do Conselho, Donald Tusk, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, tenham cancelado a conferência de imprensa.

A redação do texto final, baseado nas propostas de Conte e do presidente francês Emmanuel Macron, foi trabalhado por vários líderes, como o maltês Joseph Muscat e o espanhol Pedro Sánchez.

Soldador e bombeiro troçam do advogado

Conte, jurista e professor universitário sem qualquer experiência política, surpreendeu os restantes líderes europeus pela sua atitude.

A certa altura, conta o Politico, depois de Conte ter afirmado que estaria ali também como advogado para escrutinar as conclusões do Conselho, outros líderes fizeram troça dele com o seu currículo profissional. O primeiro-ministro sueco Stefan Löfven falou na sua experiência como soldador e o chefe de governo búlgaro Boyko Borisov disse que é bombeiro.

As declarações do Conselho Europeu são políticas e não têm força de lei.

Ao Politico, diplomatas comentaram que os italianos falharam a abordagem à reunião porque os objetivos não estavam tão distantes do que líderes como Angela Merkel queriam aprovar, sem ter de recorrer a um bloqueio total.

Além da reunião principal, o Conselho Europeu foi aproveitado para outros encontros bilaterais, uns mais sérios do que outros. Foi o caso do tête-à-tête entre os governantes do Reino Unido e da República da Irlanda, Theresa May e Leo Varadkar, que têm o problema da fronteira para resolver.

Ou do encontro entre May e o belga Charles Michel, que envolveu uma bem-humorada troca de camisolas dos lions e dos diables rouges.

Se o primeiro-ministro dinamarquês se despediu da reunião, que terminou depois das 4.00 de Bruxelas, com um bocejo, hoje os líderes apareceram com outra moral e visivelmente mais distendidos.

Além da questão migratória, os chefes de Estado e de governo da UE têm na agenda do Conselho Europeu o brexit, a política de defesa e segurança e a reforma do euro, entre outros temas.

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