"O ambiente em Portugal é muito bom. Há amizade"

Muçulmanos em Portugal condenam atos terroristas em Paris e sublinham que nada têm a ver com o islão.

Domingo é um dia calmo na mesquita. E não foram os atentados de Paris que interromperam essa tranquilidade, garante quem frequenta a Mesquita Central de Lisboa e a mesquita do Martim Moniz. Com uma exceção: agentes da PSP reforçam a vigilância junto ao principal templo de oração dos muçulmanos.

"Está tudo normal. O ambiente em Portugal é muito bom, há amizade, não temos tido problemas. Temos as portas abertas como sempre, as pessoas veem fazer orações normalmente, sobretudo durante a tarde", explica ao DN o imã Sayed, que preside às orações no Martim Moniz, perto da Rua do Benformoso, para onde está prevista uma nova mesquita. É um espaço frequentado maioritariamente por muçulmanos do Bangladesh, da Índia e do Paquistão, pois fica perto de onde vivem e trabalham.

Os imigrantes oriundos daqueles três países representam 11 mil residentes no país, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, sem contar com os que, entretanto, se naturalizaram. Mas as associações representativas destas comunidades referem muitos mais. Por exemplo, serão dez mil só os naturais do Bangladesh a viver em Portugal e três mil estarão na Mouraria, diz Rana Uddin, o presidente do Centro Islâmico do Bangladesh.

Vieram nos fluxos migratórios mais recentes, sobretudo homens. Vivem em comunidade e não falam português, pelo menos é o que dizem quando interrogados pelos jornalistas. "Acredite", diz o imã Sayed, que trocou o Bangladesh por Portugal há seis anos e tem dificuldades em se expressar em português. Reside na Mouraria.

Um domingo nas ruas junto ao Martim Moniz e Intendente significa muitas lojas fechadas, grupos de homens a conversar na rua, a falar ao telemóvel e um vaivém junto à mesquita, um ou outro casal com filhos, algumas mulheres usando niqab (véu islâmico que deixa apenas os olhos descobertos). Também estão na praça central do Martim Moniz, junto a outros imigrantes, turistas e portugueses, nomeadamente idosos. Um bairro como outros, apenas com uma maior multiculturalidade.

Imagens que para Rana Uddin são a prova do bom acolhimento dos estrangeiros. "O povo português e os muçulmanos estão bem integrados. Não há problemas entre eles, desde sempre. Quem vem para Portugal pode não saber falar português, não conviver muito com os portugueses, mas sabe que é um país da tolerância e multiculturalidade." Vive cá há 24 anos e garante que esse sentimento se mantém.

A ausência de problemas entre os portugueses e os estrangeiros é um mérito tanto de uns como de outros, sublinha o presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, Abdool Vakil. Está em Portugal há mais de 50 anos, "fui o segundo muçulmano a chegar ", e frisa: "A nossa maneira de estar portuguesa é integrar quem vem de fora, ao contrário do que acontece em França, onde os imigrantes não sentem a sociedade de acolhimento como sua. Os portugueses não são xenófobos, são xenófilos [sentem-se atraídos pelos estrangeiros]. E os imigrantes aqui integram-se bem."

Os portugueses não são xenófobos, são xenófilos [sentem-se atraídos pelos estrangeiros

Mesmo assim, pediu reforço policial junto à Mesquita Central de Lisboa, que no sábado à noite foi o local escolhido para o Partido Nacional Renovador se manifestar contra "a islamização da Europa".

Vivem 60 mil muçulmanos no país, grande parte oriundos de Moçambique e da Guiné-Bissau. "Estamos tristes com o que se passou em Paris", começa por dizer Fatti Dabo, 58 anos, pedreiro, que chegou a Portugal há 25 anos. É natural da Guiné-Bissau. "Somos muçulmanos africanos, as pessoas não nos identificam com o islão. Nunca tive problemas ou fui maltratado por causa dos atentados terroristas. É tudo muito calmo."

No sábado, enquanto decorria a manifestação anti-islão, Abdool Vakil e Rana Uddin estavam na Torre de Belém, associando-se à manifestação de solidariedade pelas vítimas em Paris. E de condenação aos ataques terroristas. "O islão não tem nada a ver com atos violentos, pelo contrário, para nós Deus não ama os agressores. O autodenominado Estado Islâmico nada tem que ver com o islão, que prega a paz e harmonia entre todos os crentes, quaisquer que sejam as suas religiões ou mesmo que não tenham qualquer fé ou ainda que sejam agnósticos", escreveu em comunicado Abdool Vakil.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?