Novo presidente faz apelo à pacificação e à confiança

Michel Temer e os seus ministros na tomada de posse

Já no Planalto, Michel Temer diz que "Estado não pode fazer tudo" mas garante "manutenção dos programas sociais".

Michel Temer, do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), é, desde ontem, o presidente em exercício do Brasil, em substituição de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), afastada por até 180 dias na sequência da votação no Senado na véspera. Já no Palácio do Planalto, o ex-vice falou em "pacificação" e "confiança".

Num discurso muito genérico e em que pediu água duas vezes e uma pastilha para combater a rouquidão, Temer disse que o povo deve ter "confiança nas instituições sociais e políticas". "O Estado não pode fazer tudo, são necessários empregadores e trabalhadores, ao Estado cabe saúde, educação, segurança, o resto depende da iniciativa privada, os cidadãos só terão emprego se a indústria, os comércios e os serviços caminharem bem, mas vamos manter os programas sociais, digo-o com letras garrafais, a gestão do Bolsa Família e de outros projetos devem é ser aprimorados."

Os principais desafios de Temer são de ordem económica, uma área onde se reforçou com Henrique Meirelles, respeitado presidente do Banco Central na era Lula. Temer sublinhou, portanto, a necessidade de "reformas da segurança social e laboral", descansou os mercados e prometeu combate ao desemprego e à inflação. A terminar falou em "religião". "É o que o país precisa, de se religar, ou seja, de religião."

Para tomar posse ontem, o presidente em exercício do Brasil beneficiou do resultado da votação do impeachment no Senado. Lá, dos 81 senadores, 55 optaram pela destituição de Dilma Rousseff, mais 14 do que os 41 necessários, 22 foram contra, o presidente da casa Renan Calheiros (PMDB) optou por não votar e três não participaram, dois por doença e um, Delcídio do Amaral, ex-PT, réu e delator da Lava-Jato, por ter sido afastado do cargo.

A seguir, num prazo de até 180 dias, Dilma será julgada no Senado mas em sessão dirigida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal. Para a destituição são necessários, no caso, dois terços dos votos, ou seja, 54, menos um do que os que votaram ontem.

Apesar da troca de Dilma por Temer ser considerada uma boa notícia para o mercado, ao contrário do que se esperava, o dólar operou em ligeira alta ao longo do dia (subida de 0,76%),

Entretanto, pela manhã, a presidente afastada foi recebida sob gritos "Dilma guerreira da pátria brasileira". Vestida de branco, leu um discurso emocionado. "O que está em jogo no impeachment não é o meu mandato mas o respeito às urnas, o que está em jogo são as conquistas sociais dos últimos 13 anos, os ganhos dos mais pobres e da classe média."

"Qual é a legitimidade de um governo que nasce de um golpe fraudulento, numa espécie de eleição indireta? O meu governo foi sabotado para forjar o meio ambiente propício ao golpe", continuou. Segundo Dilma, "tratam como crime um ato corriqueiro de gestão, quando uma presidente perde o mandato por um crime que não cometeu, isso não é impeachment, é golpe".

"Já sofri a dor indizível da tortura, a dor aflitiva da doença e agora sofro a dor inominável da injustiça, a maior brutalidade que pode ser cometida contra um ser humano é puni-lo por um crime que não cometeu", concluiu.

O Sol ainda mal tinha nascido no Brasil e já se reuniam centenas de pessoas na Avenida Paulista a festejar. Das janelas de casa, gritos de "fora Dilma", intervalados por foguetórios. Às 06.33, hora de Brasília (10.33 em Lisboa), Renan Calheiros (PMDB) anunciava, depois de mais de 20 horas de discursos, o resultado da votação.

O senador Blairo Maggi (PP), que tem fortuna avaliada em 960 milhões de dólares e é considerado o maior produtor individual de soja do planeta, foi o simbólico 41.º a votar pelo sim, por volta das 07.00 (hora em Lisboa). A partir daí, Dilma estava suspensa. "O Brasil desandou, perdeu o elétrico do futuro", afirmou Maggi, novo ministro da Agricultura.

Antes dele, Aécio Neves (PSDB) citou o avô Tancredo Neves no seu voto e recordou "quando, ainda menino, das galerias do Senado, o ouvia discursar". O discurso de Collor de Mello (PTB), primeiro presidente da República destituído, há 24 anos, era muito aguardado. Collor queixou-se da dualidade de tratamentos: "O rito é o mesmo, o ritmo não, fui afastado em 48 horas, ela em 23 dias, o atual relatório tem 128 páginas, o meu tinha dois parágrafos." Collor votou sim, tal como outros parlamentares destacados, como a sexóloga Marta Suplicy (PMDB), ex-vedeta do petismo, ou Romário Farias (PSB), melhor futebolista do mundo de 1994 segundo a FIFA. Dos 12 citados na Lava-Jato, dez votaram pela destituição e dois contra.

São Paulo

Relacionadas

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Mundo
Pub
Pub