Governo de Macron com mais sociedade civil e menos MoDem

São cinco os ministérios que passam a ter novas caras depois da remodelação anunciada ontem. Ex-ministro da Justiça rejeita acusações de "empregos fictícios" no partido

O presidente Emmanuel Macron estava reunido no Eliseu com o seu homólogo colombiano, Juan Manuel Santos. Lá fora os jornalistas esperavam pelo anúncio da composição do novo Governo, após a tradicional remodelação na sequência das legislativas, que seria feito por Alexis Kohler, secretário-geral do Eliseu. A comunicação atrasou-se e o compasso de espera foi preenchido pela orquestra colombiana que ia atuando no exterior do palácio. Uma das composições interpretadas pelos músicos foi o tema do genérico de A Guerra dos Tronos. Talvez uma ironia para quem esperava pelas notícias da dança de pastas.

São cinco os novos ministros (ver coluna ao lado) neste take 2 da governação do primeiro-ministro Édouard Philippe. Um ajuste governamental que em grande parte fica a dever-se às demissões que marcaram os últimos dias na política francesa. O Movimento Democrático (MoDem) - partido de François Bayrou que concorreu às legislativas coligado com o La République en Marche! (LREM) - fica sem qualquer ministério depois da queda de Bayrou, mas garante dois lugares no Executivo. Geneviève Darrieussecq é a nova secretária de Estado adjunta das Forças Armadas e Jacqueline Gourault fica como ministra-adjunta do Interior. À direita do espetro político Philippe foi buscar dois novos recrutas. Sébastien Lecornu, próximo do ministro das Finanças Bruno le Maire, foi escolhido para a secretaria de Estada da Transição Ecológica. E Jean-Baptiste Lemoyne, ex-senador d"Os Republicanos, fica na secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. Com 20 ministros e dez secretários de Estado, Phillipe manteve a paridade: 15 homens e 15 mulheres. Também são 15 aqueles que vêm da sociedade civil. Os restantes 15 chegam vindos de vários quadrantes políticos: seis socialistas, dois do Partido Radical de Esquerda, cinco d"Os Republicanos e dois do MoDem.

"Vinte anos para regressar e um mês para cair". Era assim que o Le Figaro titulava ontem o artigo sobre a saída de François Bayrou do governo. Entre 1993 e 1997, Bayrou foi ministro da Educação de Édouard Balladur e de Alain Juppé. Seriam precisas duas décadas para voltar ao governo, desta vez como ministro da Justiça. Mas o homem que em 2007 fundou o Movimento Democrático (MoDem) a partir dos escombros da antiga UDF (União pela Democracia Francesa) só resistiu um mês e ontem anunciou que não continuaria em funções.

O agora ex-governante, que durante o mês em que esteve em funções elaborou uma proposta de lei para a moralização da vida pública, garantiu ontem em conferência de imprensa que "no MoDem nunca houve empregos fictícios". O inquérito que agora abala o partido de Bayrou prende-se com a suspeita de que assistentes de 19 eurodeputados, com conhecimento e aceitação destes, eram pagos pela União Europeia para, na realidade, trabalharem para o partido centrista.

"Não aceito viver sem a liberdade da palavra. Não aceito ser reduzido ao silêncio", afirmou ontem Bayrou, justificando assim a decisão de abandonar o Executivo. Isto porque, como titular da pasta da Justiça, estaria muito limitado nas declarações que poderia fazer em sua defesa. Não expor nem o governo nem Macron à polémica foi outra razão invocada para a saída.

Marielle de Sarnez, velha aliada de Bayrou e visada no referido inquérito preliminar, também deixou o executivo. A até agora secretária de Estado dos Assuntos Europeus passará, ao que tudo indica, a liderar os 42 parlamentares que compõem a equipa do MoDem na Assembleia da República francesa.

As saídas de Bayrou e de Sarnez juntaram-se às de Richard Ferrand, até agora ministro da Coesão dos Territórios, e de Sylvie Goulard, que tinha a seu cargo a pasta das Forças Armadas. A queda de Ferrand começou no início de junho, quando a Justiça francesa anunciou a abertura de um inquérito preliminar sobre um caso relacionado com o mercado imobiliário, que remonta a 2011, e que envolve ainda a sua companheira e também a ex-mulher. Ferrand irá agora disputar a presidência do grupo parlamentar do LREM. Sylvie Goulard deixa o ministério das Forças Armadas para "demonstrar, em liberdade, a sua boa fé" no inquérito parlamentar que visa o MoDem. Concluída a guerra dos tronos no governo francês, o novo conselho de ministros reúne-se amanhã pela primeira vez.