Nobel para "esforço de paz" fortalece Santos diante de rivais

Depois dos colombianos dizerem "não" ao acordo com as FARC, presidente voltará a negociar com o aval do Comité Nobel

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, começou a semana com uma derrota que não esperava e acabou com uma vitória que tinha deixado de esperar. No domingo, o acordo que assinou com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para pôr fim a 52 anos de guerra foi recusado num referendo, quando as sondagens davam a vitória ao "sim". O sonho de ganhar o Nobel da Paz (era apontado como favorito e acusado pelos críticos de ter marcado o voto a pensar no prémio) caiu por terra. Pior, o processo ficou em risco. O anúncio do Comité Nobel norueguês veio dar a Santos um novo poder, longe das intrigas políticas internas, para renegociar o acordo e salvar a paz.

Santos é o vencedor do Nobel da Paz de 2016 "pelos seus decididos esforços de levar até ao fim mais de 50 anos de guerra civil no país", anunciou o Comité Nobel, alertando para o "risco verdadeiro" de o processo de paz ficar "num impasse" e poder reacender a guerra civil. Para o Comité, apesar de os colombianos terem dito que "não" ao acordo não significa que o processo de paz esteja morto. E foi nesse sentido que muitos líderes internacionais reagiram ontem, considerando que o prémio deverá servir de motivação para continuar o diálogo.

O presidente aceitou "com grande humildade" o reconhecimento, dizendo que o vê "como um mandato para continuar a trabalhar sem descanso pela paz para todos os colombianos". E deixou claro: "Vou dedicar todos os meus esforços a esta causa para o resto dos meus dias." Em relação ao prémio, diz que o recebe "não em nome próprio, mas de todos os colombianos, em especial das vítimas" do conflito. Em 52 anos, foram mais de 220 mil mortos.

FARC

Santos não esqueceu também "todas aquelas pessoas que contribuíram" para que a Colômbia esteja prestes a conseguir "essa paz tão desejada", desde os "negociadores de ambas as partes" às pessoas e instituições que apoiaram o processo. Ao contrário do que previam as apostas (até ao "não" no referendo), o comité norueguês não distingui também o líder das FARC, Rodrigo Londoño, mais conhecido como Timoleón Jiménez ou Timochenko.

Este reagiu no Twitter ao anúncio do Nobel: "O único prémio a que aspiramos é o da Paz com Justiça Social para a Colômbia, sem paramilitarismo, sem retaliação nem mentiras." As FARC e o governo colombiano comprometeram-se ontem a manter o cessar-fogo "bilateral e definitivo" e a promover "ajustamentos" ao acordo de paz após a negativa dos colombianos.

Já o principal negociador das FARC, Iván Márquez, usou a mesma rede social para uma crítica velada: "Sem outra parte não há Nobel da Paz; por isso a nossa satisfação de ter contribuído com um grãozinho de areia ao alcançar de tão alta distinção". Mesmo aquela que foi uma das mais famosas reféns da guerrilha, Ingrid Betancourt, admitiu que esta também deveria ter sido distinguida com o prémio.

Divisões internas

Um dos principais adversários do acordo de paz, principalmente do facto de permitir a participação política das FARC e imunidade aos líderes guerrilheiros, é o ex-presidente Álvaro Uribe. Depois de ter faltado a uma primeira reunião de todos os partidos políticos com Santos, no rescaldo do referendo, esteve na quarta-feira na Casa de Nariño disposto a negociar com o presidente e chegar a acordo em relação ao processo de paz. "Felicito o Nobel para o presidente Santos, desejo que permita mudar os acordos daninhos para a democracia", escreveu ontem no Twitter.

Agora, segundo os analistas, o prémio dá uma nova força a Santos no meio da disputa com Uribe. "O Nobel recorda-nos que o mundo olha esperançado para os esforços pela paz e que um novo acordo não pode depender do regatear entre políticos", escreveu no Twitter César Rodriguez Garavito, diretor do Dejusticia , centro de estudos de Direito, Justiça e Sociedade. "O prémio não vai romper a polarização, nem vai convencer os adversários do acordo de paz sobre as suas virtudes. Mas pode ajudar a ampliar a base política de apoio (...) e permite que uma grande parte do país que se absteve de ir votar se sensibilize para a necessidade de apoiar o processo de paz nos próximos meses", escreveu o jornal La Semana .

De falcão a pomba

O Nobel da Paz será entregue a 10 de dezembro a um homem que, há menos de uma década, combatia a guerrilha - daí que a BBC tenha usado a imagem do falcão que se transformou numa pomba. Juan Manuel Santos, de 65 anos, foi ministro da Defesa de Uribe e deve a sua eleição ao sucesso da política militar do ex-presidente contra as FARC.

Eleito em 2010 com a promessa de continuar com mão de ferro contra a guerrilha, acabaria contudo por optar pelo diálogo (daí o corte de relações com Uribe). Foi reeleito em 2014, após perder na primeira volta para o candidato apoiado pelo ex-presidente, já com a promessa de negociar com as FARC.

Economista de formação, Santos pertence a uma das famílias mais ricas e influentes da Colômbia. O seu tio-avô Eduardo Santos Montejo foi presidente entre 1938 e 1942, tendo comprado o jornal El Tiempo - do qual Santos viria a ser subdiretor antes de entrar para o governo. Foi ministro do Comércio Externo, antes de passar pelas Finanças e pela Defesa. Agora, torna-se no segundo colombiano a vencer um Nobel, depois de Gabriel García Márquez ter ganho o da Literatura em 1982.

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