Nobel da Literatura não vai ser entregue este ano

A decisão surge após acusações de assédio sexual e fugas de informação que envolvem o marido de uma escritora que integrava a Academia Sueca

A Academia Sueca não vai entregar o Prémio Nobel da Literatura este ano.

A decisão, anunciada esta sexta-feira, acontece na sequência de um escândalo relacionado com acusações de assédio sexual dirigidas ao marido de uma escritora que integrava a Academia Sueca.

O prémio relativo a 2018 só será atribuído em 2019.

Concluímos que é preciso tempo para que a Academia recupere a confiança antes da escolha do próximo laureado

A decisão foi divulgada após uma reunião da academia que concluiu que os escândalos financeiros e alegados abusos sexuais envolvem membros da Academia Sueca.

"Concluímos que é preciso tempo para que a Academia recupere a confiança antes da escolha do próximo laureado", disse Anders Olsson, secretário da instituição através de um comunicado.

Olsson acrescenta que a decisão pretende respeitar os anteriores galardoados assim como os futuros vencedores do Prémio Nobel da Literatura, "assim como a Fundação Nobel e o público em geral".

Trata-se da primeira vez que, em tempo de paz, o prémio não é atribuído.

O escândalo rebentou em novembro quando o jornal Dagens Nyheter publicou a denúncia anónima de 18 mulheres, sobre abusos e agressões sexuais, contra o dramaturgo Jean-Claude Arnault, ligado à academia através do seu clube literário e marido de um dos seus membros, Katarina Frostenson

No final do passado mês de abril foi anunciado que a escritora Sara Stridsberg renunciou ao lugar de membro da Academia Sueca, adensando o clima de crise na prestigiada instituição cultural que atribui o Nobel da Literatura.

Num curto comunicado, a Academia Sueca revelou que Sara Stridsberg pediu na sexta-feira para "renunciar às suas obrigações enquanto membro" da instituição para a qual foi eleita em 2016.

Sara Stridsberg juntava-se assim a outros sete membros da Academia Sueca que também saíram da instituição na sequência de um escândalo de abusos sexuais e fugas de informação.

O escândalo rebentou em novembro quando o jornal Dagens Nyheter publicou a denúncia anónima de 18 mulheres, sobre abusos e agressões sexuais, contra o dramaturgo Jean-Claude Arnault, ligado à academia através do seu clube literário e marido de um dos seus membros, Katarina Frostenson.

A academia cortou todas as ligações a Arnault e encomendou uma auditoria independente sobre as suas relações com a instituição, mas divergências internas quanto às medidas a adotar desencadearam demissões, acusações e saídas de vários membros, entre os quais a secretária permanente em exercício, Sara Danius, e Katarina Frostenson.

O Nobel da Literatura, atualmente no valor de nove milhões de coroas suecas (863.000 euros) foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado mas nunca por outros motivos

Até agora, as renúncias são simbólicas, porque a pertença à academia é vitalícia e só são eleitos novos membros quando vaga alguma cadeira por morte do respetivo ocupante.

No passado dia 25, o presidente da Fundação Nobel, Carl-Henrik Heldin, admitiu à televisão pública sueca SVT que a Academia Sueca poderia não atribuir este ano o prémio Nobel da Literatura.

O Nobel da Literatura, atualmente no valor de nove milhões de coroas suecas (863.000 euros) foi, tal como os das restantes categorias, sete vezes não atribuído durante as guerras mundiais do século passado -- em 1914 e 1918, em 1935, e depois em 1940, 1941, 1942 e 1943 - mas nunca por outros motivos.

A Academia Sueca foi fundada em 1786 pelo rei Gustavo III e atribuiu pela primeira vez o Nobel da Literatura em 1901, ao poeta francês Sully Prudhomme.

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