No Palácio da Alvorada, à espera de que algo aconteça

Dilma Rousseff está restrita à residência oficial, na proa de Brasília, uma cidade em forma de avião. O tempo passa devagar enquanto a presidente afastada espera o veredicto que pode mudar a sua vida

Numa cidade chamada de "avião", por lembrar, vista de cima, uma aeronave, com duas asas e um eixo central, o Palácio do Planalto, local de trabalho dos presidentes do Brasil, fica no lugar equivalente ao cockpit, por decisão do urbanista Lúcio Costa que projetou Brasília nos anos 50 do século passado ao detalhe. E foi dali que Dilma Rousseff pilotou o país, de 2011 até maio, quando, afastada temporariamente em virtude do processo de impeachment, foi restringida ao Palácio da Alvorada, uma espécie de refúgio do comandante do avião, onde espera a decisão definitiva do Senado.

Minutos antes de se chegar ao local, há uma seta - ironicamente à direita - a indicar "Palácio do Jaburu", a residência oficial do presidente interino Michel Temer, homem a quem Dilma teve de ceder o Planalto. Em redor do Alvorada, à exceção de turistas - "this is the brazilian White House, daddy?" ("Esta é a Casa Branca brasileira, papá?"), pergunta ao pai uma menina com sotaque do Sul dos EUA, "a "presidenta" está lá mesmo, de verdade?", quer saber um outro adolescente vindo do estado do Pará - e de uma ínfima parte dos quase mil funcionários do local, não se vê ninguém. Aliás, em Brasília, cidade movida a gasolina, é raro encontrar um pedestre. Mais raro ainda encontrar um candango, ou seja, um natural de Brasília, cidade construída por migrantes.

Dilma vive no cenário ideal para quem está à espera, no meio do horizonte, coberta pelo céu tropical, cujas nuvens são tão baixas que parecem bater-nos na cabeça, sem uma brisa. Há bichos a voar, pardais, beija-flores, quero-quero, outros a cantar, cigarras e bem-te-vi, até há emas, primas direitas do avestruz, a circular pelos relvados do Alvorada, a poucos metros dos aposentos da presidente. E um dragão. Um Dragão da Independência, é claro. Os Dragões da Independência, guarda de honra criada pelo pombalino rei Dom José I para defender o chefe de Estado, usam penachos no capacete e não podem mover um músculo. As palmeiras e os ipês em redor do imóvel dragão, como se estivessem solidários, também não movem uma folha porque em Brasília, já se sabe, não há vento.

Melhor usar gravata

No país simultaneamente mais solene e mais informal do mundo, o porteiro do Alvorada avisa "lá dentro é melhor usar gravata, viu?", no instante anterior a apontar com o queixo para uma turista de blusa transparente e sussurrar "que coisa mais linda". A solenidade versus informalidade tem novo capítulo quando um segurança alerta para os horários rigorosos do Alvorada: "Ainda bem que chegou cedo, aqui é tudo ao segundo...". Minutos depois, o próprio, distraído pelos golos de Griezmann frente à Alemanha que passam na TV, exclama "xiii, já devia estar no plantão da portaria de cima".

Dentro dos muros do palácio, os pilares de mármore, as cortinas de vidro e o espelho de água, imagens de marca do Alvorada, de Brasília e da obra de Oscar Niemeyer, impressionam qualquer um. Menos as tais emas que olham para o ícone da arquitetura com indolência.

No Salão de Estado, Dilma parece confirmar as palavras do segurança e chega à hora exata, entre um almoço com o governador do Maranhão, Flávio Dino, dilmista empedernido, e uma reunião com o presidente nacional do PT, Rui Falcão, entre outros. "Um beijo só? Ah, você vem de São Paulo, não é?", diz a presidente. No Brasil, o número de beijos não distingue pedigrees bacocos mas denuncia proveniências geográficas. "Em Brasília damos dois, há lugares no Nordeste onde se dá três, sabia?, quanto mais efusivo o brasileiro mais beijos dá." Uma tapeçaria de Kennedy Bahia enche o salão de cor. Numa das maravilhas da arquitetura moderna, os livros são quase todos de urbanismo - The Endless City, Acropolis, Islamic Art, Gazzette des Beaux-Arts.

De encarnado e preto, Dilma passa uma hora em rápidas transições da defesa - Lula, opções económicas do seu governo - para o ataque - Temer, Eduardo Cunha . Só descontrai no fim com lembranças de Lisboa, da Feira da Ladra, das personagens de Eça. "São tão atuais, não são?". E saiu para outro compromisso para não desesperar enquanto espera pelo futuro.

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