Nem Canadá nem Noruega. May quer acordo com a UE feito à medida dos britânicos

Primeira-ministra britânica apresentou ontem os cinco pilares do que, em seu entender, deve ser o acordo pós-brexit

Nem Canadá nem Noruega. O tipo de parceria que existe entre estes países e a União Europeia não é modelo para o que deve ser a relação futura entre Reino Unido e UE, depois do chamado brexit. Os britânicos devem poder ter um acordo feito à sua medida, segundo os seus interesses e os da UE. E durante a negociação não pode ser posta em causa a unidade do Reino Unido (Bruxelas sugeriu esta semana que a Irlanda do Norte permanecesse no mercado único). Esta foi uma das mensagens ontem deixadas pela primeira-ministra britânica, Theresa May, num discurso em que apresentou os pilares do que deve ser o acordo entre o Reino Unido e a UE, depois de o país sair do clube em 2019.

"Vamos sair do mercado único e a vida vai ser diferente. É preciso encontrar um novo equilíbrio. Mas não aceitaremos os direitos do Canadá e as obrigações da Noruega", frisou a chefe do governo, na Mansion House de Londres (residência do Lord Mayor de Londres). O futuro acordo com a UE deve "ser desenhado segundo as necessidades da nossa economia", disse May, sublinhando que a UE tem diferentes acordos de parceria com vários países e que cada um tem as suas especificidades. Por isso também os britânicos têm direito às suas. "O acordo da UE com a Coreia do Sul contém disposições que reconhecem os requisitos de ambos para novos automóveis, enquanto que o acordo com o Canadá não", lembrou a líder conservadora. Ao mesmo tempo em que exemplificou o que não quer para o seu país, May enumerou também os pilares do que deve ser o acordo do brexit. E são cinco ao todo.

O primeiro pilar é que o acordo deve respeitar o referendo de 2016. 52% dos britânicos votaram a favor da saída do Reino Unido e esse foi "um voto para controlar o nosso dinheiro e as nossas fronteiras". O acordo deve permanecer e não se deve voltar depois atrás para negociar de novo porque as coisas não ficaram bem feitas. O acordo deve proteger os empregos das pessoas e garantir a sua segurança. Tem que definir que país vai ser o Reino Unido, inovador, mas com valores. E tem que voltar a unir os britânicos (tanto os que são a favor como os que são contra o brexit). "A paz é um legado que queremos preservar. Não queremos uma fronteira física na Irlanda do Norte", declarou, em jeito de crítica à proposta feita esta semana pela Comissão Europeia no sentido de a Irlanda do Norte ficar no mercado único europeu (tal como a República da Irlanda, mas não como Reino Unido, país ao qual pertence o território).

Insistindo na necessidade de um acordo sobre segurança e defesa, como defendeu em Munique, May reafirmou que Reino Unido e UE têm muitos interesses em comum e que, por isso, a sua futura relação não se pode resumir a uma simples parceira comercial ou acordo de cooperação. Mesmo assim especificou cinco pontos-chave do que devem ser as relações económicas no futuro: haver reciprocidade com práticas de concorrência justas e abertas, estabelecer um mecanismo de arbitragem, ter mecanismos de diálogo e de consulta permanentes a funcionar, definir um entendimento sobre a questão da proteção de dados e manter os laços entre os cidadãos britânicos e do resto da UE. A líder britânica manifestou a vontade do Reino Unido em permanecer nalgumas agências europeias, como por exemplo a do Medicamento. E frisou ainda que depois do brexit o Tribunal Europeu de Justiça deixará de ter jurisdição no Reino Unido.

"Isto é uma negociação. Ninguém conseguirá tudo o que quer. Mas acredito que é possível um acordo com um acesso justo aos mercados. Concorrência. É preciso encontrar um equilíbrio", afirmou ainda a primeira-ministra, terminando o discurso com a frase: "Vamos lá despachar isto". Em reação, o negociador da Comissão Europeia, Michel Barnier, considerou que este discurso veio trazer alguma "clareza" ao debate do brexit. Mas o líder do Labour, Jeremy Corbyn, afirmou que não mostra "clareza" nem "sentido real das prioridades". "Mais uma vez May evitou tomar decisões sérias sobre o futuro", disse o líder dos liberais-democratas Vince Cable. No passado a primeira-ministra chegou a dizer que o país sairia da UE mesmo sem acordo. Questionada pelos jornalistas sobre se mantém tal posição afirmou: "Estamos preparados para todos os desfechos."

Ler mais

Exclusivos

Premium

adoção

Técnicos e juízes receiam ataques pelas suas decisões

É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.