Necessários 40 a 50 anos para Síria e Iraque estarem livres de explosivos

A 'limpeza' das zonas reconquistadas ao grupo extremista Estado Islâmico (EI) no Iraque deve custar entre 170 e 180 milhões de dólares por ano.

A ONU estima que serão necessários entre 40 a 50 anos para retirar da Síria e do Iraque as minas, explosivos e outros dispositivos que não detonaram nos conflitos.

"Falamos de décadas de trabalho para que estes países se assemelhem à Europa pós-II Guerra Mundial, onde ainda encontramos, aqui e ali, material militar não deflagrado", disse Agnes Marcaillou, diretora do Serviço de Ação de Minas das Nações Unidas, numa conferência que assinalou o dia internacional da consciencialização sobre minas.

Marcaillou afirmou que o departamento, que também lida com IED (engenho explosivo improvisado) e dispositivos não detonados, considera que a 'limpeza' das zonas reconquistadas ao grupo extremista Estado Islâmico (EI) no Iraque deve custar entre 170 e 180 milhões de dólares por ano.

O valor inclui 50 milhões de dólares anuais apenas para retirar armas de Mossul, no norte do Iraque.

As forças iraquianas e a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos estão envolvidas numa operação de vários meses para recuperar Mossul, a segunda maior cidade do país, do controlo do Estado Islâmico.

Em janeiro, as autoridades iraquianas declararam que o leste da cidade foi "totalmente libertado". Os combates continuam para reconquistar o lado ocidental da cidade.

Marcaillou afirmou que tornar o Iraque e a Síria lugares seguros implica um esforço complexo, sofisticado, "de enorme magnitude", mas que é possível.

"Quanto mais financiamento estiver disponível, mais equipas podemos contratar, mais formação podemos dar às forças iraquianas e outras. O objetivo é capacitar o governo do Iraque para tratar do problema, como os franceses e os alemães" e os britânicos fizeram depois da Segunda Guerra Mundial.

A responsável instou a comunidade internacional a aumentar o financiamento, de modo a que seja possível os refugiados sírios e iraquianos regressarem aos seus países e viverem em segurança.

No que toca à assistência às vítimas de minas, IED e outros dispositivos, Marcaillou disse que a ONU está "muito envolvida na análise da impressão 3D de membros protéticos".

A utilização da impressão 3D pode reduzir o custo dos membros artificiais de cerca de 18 a 20 mil dólares para três a cinco mil dólares.

Ler mais

Premium

Germano Almeida

Sequelas do Prémio Camões

Aos domingos, lá pelo meio da manhã, gosto de parar na porta da Nim para dois dedos de conversa, que termina sempre na discussão das qualidades das papaias que ela me convence a comprar. A Nim tem um posto de venda no mercado da Praça Estrela onde, durante a semana, comerceia as verduras que o marido vai buscar em Santiago e no Fogo. Como aos domingos o espaço fica fechado, ela alinha os balaios com a sua mercadoria no passeio em frente da casa, e vestida de um longo avental e um rasgado sorriso, senta-se num banquinho e espera pachorrenta pelos eventuais fregueses. Mas tu nunca descansas, pergunto-lhe. Para quê, responde encolhendo os ombros, este trabalho não cansa, estou aqui sentada, vejo passar pessoas, trocamos mantenhas e novidades, e sempre vou vendendo alguma coisa, tenho três filhos no chão para criar e o planeta não está de brincadeira. Num dia de semana entrei no mercado e não a encontrei. Que é feita da Nim, perguntei a uma vendedeira vizinha. A Nim foi ao cabeleireiro, respondeu. O quê, exclamei espantado, que lhe deu para ir ao cabeleireiro, ainda por cima num dia como hoje? Ela tem um casamento amanhã, hoje podes comprar em mim. É que a Nim tomou-me como sua propriedade: Ele é meu homem, grita para as colegas, ele só compra em mim. E para garantir isso, quando não tem papaia, ela mesma sai a procurar junto das outras para mim.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

O legado de Joana Marques Vidal

Os últimos meses foram marcados pelo tema da (não) recondução da procuradora-geral da República, desde que a ministra da Justiça avançou há nove meses com a ideia de que a interpretação que fazia do texto constitucional é que se tratava de um longo e único mandato. Além da lamentável extemporaneidade destas declarações, a tantos meses do término do mandato ficou muito claro desde início que a questão subjacente à recondução de Joana Marques Vidal era de natureza política e não de carácter jurídico.

Premium

António Araújo

Ex-votos

No Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Saúde e sustentabilidade democrática 

Penso que não há ninguém que refute que uma das características indissociáveis de toda e qualquer sociedade democrática é a sua capacidade de debater, de uma forma que se quer construtiva e evolutiva, também sobre si mesma e os seus índices de desenvolvimento. Na nossa perspetiva ocidental e europeia, o conceito de democracia parece já enraizado por todos e em todos, ao ponto da quase estagnação. Mas será aconselhável estarmos, enquanto país ou até como membro integrante da união política e económica, tão descansados assim?

Premium

Adriano Moreira

A ambiguidade da política

Além do sentido académico da palavra, designando o pensamento político, "teorias políticas", "filosofia política", "ciência política", tal sentido afasta-se do exercício dos que a praticam, tendo em vista o poder de governar. Dão-se exemplos como o de Lord Butler, que a definiu como "arte do possível", cinicamente como D'Israeli, que a definiu como a arte de governar os cidadãos desiludindo-os, ou, finalmente, e cobrindo intenções menos tranquilizantes, entendendo-a com Hitler, como a arte de mobilizar uma nação para defender a sua existência. Em todo o caso, o mais corrente, entre estadistas responsáveis, é entender a política como a arte de conciliar interesses opostos.