Três meses depois, Aquarius pede à Europa para desembarcar 141 migrantes

Migrantes foram resgatados na sexta-feira em duas operações em águas internacionais. Itália e Malta não autorizaram o desembarque no início de junho

Os responsáveis pelo navio Aquarius, o primeiro que ficou num limbo quando Itália e Malta encerraram os seus portos a Organizações Não Governamentais (ONG) no início de junho, pediram este domingo aos governos dos países europeus para disponibilizarem "um porto seguro e o mais próximo possível como dita a legislação marítima internacional", para assegurar o desembarque de 141 migrantes salvos esta sexta-feira em águas internacionais.

As autoridades líbias, que coordenam as operações de resgate na sua costa, informaram o navio de que "não pode oferecer-lhe um lugar seguro e recomendou-o a solicitar outro centro de coordenação de resgates", segundo informou as ONG Médicos sem Fronteiras e SOS Mediterrâneo, citada pelo El País.

As 141 pessoas viajavam desde a Líbia ruma a Itália em dois frágeis barcos. Cerca de metade, 67, declararam ser menores que viajavam sem a companhia de adultos, e outras seis crianças viajam com pelo menos um progenitor. Mais de dois terço dos migrantes a bordo são provenientes da Eritreia, país do nordeste de África banhado pelo Mar Vermelho de onde muitos jovens fogem para evitar trabalhos forçados, e da Somália, considerado um dos países mais pobres do mundo.

O Aquarius é o único barco de uma ONG que está na zona onde se concentram os barcos que saem da Líbia rumo à Europa, tendo substituído o Open Arms, que esteve lá durante as últimas semanas. Todas as pessoas do Open Arms desembarcaram em Espanha, tal como as do 630 Aquarius, tendo as últimas 87 chegado na quinta-feira no porto de Algeciras. Os desembarques anteriores aceites pelo governo de Espanha foram feitos em Barcelona, Maiorca e Valência.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.