NATO treina para guerra invisível no ciberespaço

NATO tem 29 Estados membros regista por dia mais de 200 milhões de incidentes cibernéticos, tendo os ciberataques propriamente ditos aumentado em 60% entre 2015 e 2016

O 10.º exercício Cyber Coalition da NATO decorreu na Estónia e teve 900 participantes de 25 países. Entre eles Portugal. Testa-se a capacidade defensiva e a partilha de informações em caso de ciberataque. Face à ameaça da Rússia, governo estónio já fala, sem complexos, em passar da defensiva à ofensiva

À partida nada de mais se passa no edifício onde funciona a Cyber Range, uma plataforma para exercícios e treinos da NATO localizada em Tartu, cidade famosa pela vida universitária que fica a cerca de duas horas de carro de Tallinn, a capital da Estónia. No interior, o aspeto é o de um escritório normal. Sentados em frente aos computadores, militares fardados ou especialistas à civil. Em cada divisória está afixada uma folha A4 com a bandeira de cada um dos países que participam no Cyber Coalition 2017, exercício anual de defesa cibernética da Aliança Atlântica. Mas dentro dos computadores há uma guerra em curso, "com cenários fictícios baseados em ameaças reais", explica aos jornalistas o diretor do exercício, o tenente-coronel estónio Anders Kuusk.

Este é o décimo ano que o exercício se realiza e conta com a participação de 900 pessoas de 25 países. Portugal é um deles e há observadores como a Coreia do Sul ou o Japão. Mas também há ausências notadas, como é a da Turquia, que tem o segundo maior exército da NATO e cujo presidente, Recep Tayyip Erdogan, ultimamente tem-se aproximado do russo, Vladimir Putin. O regime deste, por sua vez, é acusado de interferência nas eleições americanas ou de estar na origem de ataques cibernéticos como o que em 2007 quase paralisou a Estónia.

Numa altura em que a Aliança Atlântica regista mais de 200 milhões de incidentes cibernéticos por dia (com os ciberataques a terem aumentado em 60% de 2015 para 2016), o ciberespaço é, cada vez mais, palco de uma guerra invisível e silenciosa cujas fronteiras são muito difíceis de identificar. A maioria dos ataques são promovidos por atores estatais, mas a sua atribuição é difícil, uma vez que os servidores podem estar alojados em locais muito diferentes. Os militares fazem questão de estar preparados e estão bastante conscientes dessa guerra, ao contrário do que parece acontecer com parte da sociedade civil. Apesar de esta ser a era em que muitas pessoas depositam quase todos os aspetos da sua vida nos smartphones.

"Há países da NATO que não querem participar, mas nós não perguntamos as razões. Nós só treinamos os países. Eles decidem como querem fazer, se investigam um incidente ou não, se e como partilham a informação com outros. Este é um exercício defensivo, não é uma maratona de pirataria informática", afirma Anders Kuusk, enquanto explica aos jornalistas os seis cenários com que as equipas nacionais se deparam neste exercício de uma semana (de 27 de novembro a 1 de dezembro). Num dos cenários, participantes de uma cimeira da NATO parecem ter os seus telemóveis comprometidos. Alguns receberam e-mails de phishing. Há ameaças de boicote da reunião, mas a organização quer levar adiante a realização do evento. Noutro cenário, drones largaram durante a noite caixas de plástico suspeitas que funcionam com wi-fi e capacidade 3G. Aparelhos que captam frequências e enquanto a bateria durar podem enviar tudo o que registam para algum lugar.

A equipa portuguesa, coordenada pelo tenente-coronel Paulo Branco, diretor do Centro de Ciberdefesa (que funciona no Estado-Maior-General das Forças Armadas), escolheu treinar os seis cenários do Cyber Coalition 2017. "Nós fizemos todos. Aqui, eu e um oficial da Marinha estamos a controlar a execução do exercício pela equipa portuguesa. São injetados incidentes. Eles têm de descobrir e promover a capacidade de defesa coletiva. Existe disponibilidade de partilha de informações" no caso de um país resolver um desafio primeiro do que os outros, sublinha o responsável militar português. Portugal participa neste exercício desde 2011 e, desta vez, com 25 membros dos três ramos das Forças Armadas por parte do Centro de Ciberdefesa e com mais três pessoas do Centro Nacional de Cibersegurança (que funciona no âmbito do Gabinete Nacional de Segurança). Tal como sucede com os outros países, os líderes da equipa estão em Tartu, mas os restantes elementos encontram-se em Lisboa.

No próximo ano, espera-se que seja inaugurada, em Oeiras, a Escola de Comunicações e Sistemas de Informação da Aliança Atlântica. "É algo importante para Portugal, para a liderança na área da ciberdefesa", diz o tenente-coronel Paulo Branco. Admitindo que "as Forças Armadas estão mais preparadas, conscientes e protegidas" em relação às ameaças que surgem no ciberespaço, comparativamente à sociedade civil, o responsável militar considera que "em Portugal há cada vez mais consciência deste tipo de ameaças". Não chegará, porém, ao nível da Estónia, país que atualmente está na presidência rotativa da União Europeia.

Após o ciberataque de 2007, que sofreu por parte dos russos em retaliação pela retirada da estátua de bronze do soldado soviético no centro da cidade de Tallinn, a sociedade transformou-se a ponto de o país ser apelidado de e-Estónia. Há organizações de voluntários que fazem simulações de treino militar, despistam propaganda falsa na internet. No âmbito do serviço militar obrigatório, há os cibersoldados (especialistas em novas tecnologias que cumprem o serviço militar de forma orientada para essas capacidades). Haverá, em 2018, um cibercomando com 300 pessoas, operacional a partir de 2020. "Não estabelecemos isto de forma imatura. Queremos passar da defensiva à ofensiva", diz aos jornalistas, em Tallinn, o vice-secretário de Estado da Defesa dos Assuntos Administrativos e Legais estónio, Erki Kodar. A Rússia, sobretudo após a anexação da Crimeia, em 2014, é o inimigo sempre em mente, algo que para os portugueses pode ser visto como distante. Mas como manda o artigo 5.º da NATO, o ataque a um é um ataque a todos. E isso também é válido, desde o ano passado, em caso de ciberataque grave a um Estado membro. Pelo menos em teoria. Falta ver como seria na realidade.

Em Tallinn e Tartu
A jornalista viajou a convite da NATO

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