"Não podemos chegar às terceiras eleições"

Cansaço, desilusão, indiferença, ironia. Os madrilenos encolhem os ombros ante o novo impasse e apontam responsabilidade. O Podemos e sobretudo o líder Pablo Iglesias são alvos privilegiados da irritação

"Estava a votar e pensei: não vai servir de nada. Estiveram seis meses sem conseguir chegar a um acordo, é agora que vai resultar? Deu-me um cansaço..." O calor acabrunhante que sufoca Madrid no segundo dia pós-eleições alia-se à tristeza para fazer do rosto de Julia Gallardo, 48 anos, psicóloga, a expressão do desalento. A contrastar com o tom exaltado do início da conversa, quando se dizia "muito indignada com o resultado." E porquê? "Votei Podemos, agora e em dezembro. E tinha a esperança de que ganhassem. Quer dizer, que ficassem em segundo lugar, como as sondagens diziam, e pudesse haver um governo de esquerda. Mas acho que Pablo Iglesias fez uma campanha muito má e deixou a direita ir de volta e ganhar vantagem. Estou muto desiludida com ele, com a sua atitude, com o seu discurso. Acho-o prepotente, só ralado com ele, com declarações contraditórias. Falta-lhe humildade. Não gostei nada do que vi."

Ao lado de Julia, a amiga María Jesús, 47 anos, desempregada há dois (antes trabalhava como "administrativa" numa firma de decoração), faz uma careta de mofa. "Nem tu nem um milhão e duzentas mil pessoas, que lhe tiraram o voto [eleitores perdidos pela coligação Unidos Podemos, constituída pelo Podemos e pela Esquerda Unida, em relação a dezembro de 2015, quando os dois partidos foram às urnas separados]. E vá-se saber para onde foi, porque o voto Podemos não vai direto para o PP." Afiançando nunca ter votado Podemos, María Jesús, que na voz grave e rouca e na postura tremendista preenche o cliché da andaluza de pelo na venta, desmonta um dos argumentos mais comuns: "Não me venham dizer que foi o medo que levou as pessoas a não votar Podemos. Porque há seis meses votaram sem medo." O que se passa, prossegue, é que as pessoas perceberam que o Podemos não é o que elas pensavam. "Foi uma boa ideia que começou bem mas que se está a revelar outra coisa. Por exemplo, as pessoas que escolhem para encabeçar as listas não são as melhores nem as que os locais querem: são impostos pela cúpula. Há falta de democracia neste movimento que era suposto vir trazer mais democracia."

Imanol Ranero, basco de 36 anos, comercial de uma marca de jeans, a viver em Madrid desde criança, tende a concordar, apesar de ter votado Podemos. "Pablo está a ter uma atitude que é: ou fazem o que quero ou nada. E acho que os votos perdidos eram do Podemos, porque a Esquerda Unida [os comunistas com os quais o Podemos fez coligação] tem votantes muito fiéis. Embora ache que também se pode ter dado o caso de gente da Esquerda Unida não ter votado na coligação por não gostar da atitude de Iglesias." Ele próprio, confessa, esteve vai não vai. "Mas ia votar em quem?" PSOE está, assegura, fora de questão. "O partido está morto. Votei sempre PSOE até 2015. Mas acho que está esgotado. E há uma coisa muito cansativa nos partidos que até agora nos governaram, que é estarem sempre a desculpar-se com o que governou antes. É exasperante, já não se aguenta esse discurso: na oposição dizem mal do que está no poder e que vão fazer isto e aquilo, mas uma vez lá argumentam que não podem fazer por causa da herança, dos problemas que vêm de trás." Certo: mas as pessoas parecem ter recompensado o PP apesar desse discurso. "Sim. Tenho amigos que votam PP e pergunto como é que o fazem se não têm nada, se são trabalhadores... E eles dizem que do ponto de vista económico é o melhor. Mas acho que também é uma forma de autoilusão. Ao votar à direita convencem-se de que são classe média." Em todo o caso, frisa Imanol, se fosse o PP a estar no poder no momento da crise financeira o argumento de que "é melhor para a economia" não existiria: "Fosse quem fosse que estivesse no poder naquela altura seria igual. E há que dizer que o PSOE levou com a herança da bolha imobiliária que veio do tempo do PP e também do governo de Felipe González [PSOE]."

"Não volto a apostar nos grandes"

Seja como for, o cansaço com os velhos partidos, que fez nascer, há dois anos, o Podemos (e de certa forma também o Ciudadanos, em 2006), parece ter poupado mais o PP. A mãe de Julia, por exemplo, com 75 anos e desde sempre votante do PSOE, desta vez não votou. "Quando uma pessoa como a minha mãe, tão politicamente comprometida e interessada, diz que está cansada e que não vai votar, é caso para concluir que o caso é grave. Ela é de uma família de políticos, o meu bisavô era o braço direito de um outro Pablo Iglesias, o fundador do PSOE e da UGT (União Geral de Trabalhadores espanhola). E disse-me: "Filha, estou farta."" E a própria Julia já não se sente lá muito bem. Se houvesse terceira eleição - que não vai haver, porque não pode ser, é de mais -, não voto Podemos. Voto nos Verdes ou no partido dos animais... num desses. Não volto a apostar num dos grandes." María Jesús, que, em contraste, há muito não votava e desta vez votou (mas não diz em quê), faz que sim: "Temos de pensar se isto que sucedeu não foi também um voto de castigo."

Castigo de quê? Por a esquerda não se ter entendido? Por não ter conseguido derrotar o PP? Imanol suspira. "Se eu votaria de novo Podemos? Depende do que se passar nos próximos meses. Um verdadeiro político é alguém que quando quer algo e não pode ir em linha reta vai de volta; não é como o Pablo Iglesias, que se porta como uma criança. Não quer ser número dois, quer ser presidente do governo... Mas dá-se o caso de não ser tão importante como acredita. O Podemos não começou com ele, começou com o movimento 15-M [movimento iniciado a 15 de maio de 2011 na ocupação da praça da Puerta del Sol, na sequência da manifestação portuguesa de 11 de março e precursor do movimento americano Occupy Wall Street]. Ele ao princípio dizia que queria mudar o PP e o PSOE, a velha política... E agora o Podemos cresceu tanto que já parece um velho partido."

Criticar Pablo Iglesias por querer tudo ou nada não é um pouco contraditório com a nostalgia do 15-M, das assembleias populares românticas e dos movimentos sem cúpula que desprezam os velhos partidos dos consensos e das alianças para chegar ao poder "a todo o custo"? E pode criticar-se o Podemos por ter crescido e ter a ambição de ser um partido de governo e não um pequeno partido de protesto, se cresceu porque votaram nele?

No beco sem saída da cena política espanhola, os eleitores de esquerda, por tradicionalmente mais sonhadores e idealistas, parecem completamente perdidos. Alguns, como Julia, já só querem que "eles se entendam e formem governo. Isto não pode continuar. Que façam aquilo para que lhes pagamos. Não podemos chegar às terceiras eleições". Como quem diz tanto faz.

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