"Não acho que Putin seja o líder perfeito, mas para já não há alternativa"

Oleg Chumakov nasceu em 1960 e está em Portugal desde 1999, primeiro no Porto, depois em Lisboa. Dá aulas de Russo na Oxford School e no Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A música é uma parte importante da vida de Oleg Chumakov, sendo autor e cantor das suas músicas, tendo atuado duas vezes na Festa do Avante! e até no Coliseu de Lisboa. O professor defende que a anexação da Crimeia, não tão distante da sua terra natal, não foi uma ocupação mas sim um regresso a casa. Admite que na Rússia ainda há muito para melhorar, mas quando compara com a presidência de Boris Ieltsin garante que a diferença "não é grande, é brutal". Sobre Putin, diz que não é "o líder perfeito", mas vê nele uma sinceridade que não encontra nos outros candidatos às presidenciais de hoje.

Vai com frequência à Rússia?

Não muito. Primeiro não é barato e eu sou do Sul da Rússia, da região de Krasnodar, a minha terra fica entre Krasnodar e o mar Negro, a cerca de uma hora de carro do mar Negro. A região de Krasnodar é onde fica Sochi e muito perto da entrada para a Crimeia.

Qual é o ambiente que se vive lá, tão perto da Crimeia?

Nunca tivemos dificuldade nem com a Crimeia nem com as pessoas que vieram da Crimeia. Aqui, as pessoas falam muito disso, mas muita gente não sabe o que se passa na verdade e a reação, por norma, é negativa. Na televisão russa vi euforia, vi muita alegria nas pessoas, com cartazes na rua a dizer "finalmente regressámos a casa". Aqui não se disse nada disso e por vezes as pessoas não sabem a verdade. Não sabem que a Crimeia foi parte da Rússia e que, por uma grande injustiça e se calhar por uma estupidez do nosso líder, Kruschev, foi oferecida à Ucrânia. Para a nação russa e para as pessoas da Crimeia (quase 70% são russos) foi uma grande tragédia. Nunca aceitaram fazer parte da Ucrânia, lutaram pelo direito de falar russo. Esta luta deu resultados, foram considerados uma região com direitos especiais que lhes permite ter um programa escolar diferente, estar à vontade para falar em russo. A Ucrânia está dividida em duas, 50/50, a guerra civil que aconteceu agora é uma guerra que não teria fim, porque na parte do Leste há muita coisa - cultura, mentalidade, modo de pensar, valores - mais semelhante aos russos. A outra parte, hoje no poder, sempre esteve contra os russos e nós, eu e os meus compatriotas, achamos que quem está no poder na Ucrânia são verdadeiros fascistas que apoiam aquela política nacionalista e chauvinista que proíbe as pessoas de exprimir a sua opinião... Claro que não é por acaso que a outra parte do Leste, quando viu que não havia margem para conversa, resolveu dizer "desculpem lá, nós não queremos saber da política de Kiev". Ninguém os quis ouvir, apesar de serem praticamente 50% dos ucranianos.

A Rússia não é só a Crimeia... Acha que Vladimir Putin é a pessoa certa para estar à frente da Rússia?

Quando cheguei a Portugal comecei a perceber o que se dava nas notícias, às vezes ficava revoltado porque sentia que era uma propaganda muito pró-americana, com muitas mentiras cínicas em relação à Chechénia, por exemplo. Em relação a Putin, também sinto que no mundo dominado pelos Estados Unidos continua a guerra de informações. A Guerra Fria terminou mas continua nesta área. Não quero dizer que Putin é o ideal, mas fui testemunha de outros tempos, antes da chegada do Putin, e não é por acaso que saí da Rússia na época do Ieltsin, considerado um grande amigo dos Estados Unidos, mas que na verdade estava a destruir tudo o que os comunistas construíram. Eu não sou pró-comunista, mas vamos ser justos, a época comunista, apesar de todos os defeitos, era muito construtiva.

Está a dizer que Putin conseguiu endireitar o país?

Estou a comparar. Sei que na Rússia ainda há muito para melhorar, mas tento comparar e vejo que a diferença não é grande, é brutal. Já aumentaram três ou quatro vezes o nível salarial mínimo, três ou quatro vezes aumentaram o valor da reforma mínima. Se calhar, as pessoas hoje vivem um bocado pior do que há dois anos por causa destas, perdoe-me a expressão, estúpidas sanções que não fazem bem a ninguém, nem à Rússia nem à Europa. O esforço de Putin foi chamar as pessoas a trabalhar. Quando vou à Rússia, vejo melhorias. E tal como fui testemunha de tudo o que aconteceu na época do Gorbachev, do desastre político, económico, social e humano na época do Ieltsin, agora vejo que realmente este governo faz alguma coisa para melhorar o estado do país, a situação do povo.

Do que diz pode concluir-se que acha que Putin não é perfeito mas melhorou a situação da Rússia...

Sim. Temos vários candidatos, mas só sinto uma certa sinceridade por parte do presidente. Os outros acho que só pensam nas suas carreiras, no que poderão desfrutar naquele cargo, são pessoas muito ricas. Putin também é rico, super-rico, mas nunca escondeu isso. Não acho que o Putin seja o líder perfeito, mas entre todos os que vejo acho que, nesta altura, não vejo alternativa. É um líder que consegue criar comando e condições para que este comando seja obrigado a trabalhar em prol do país, em prol da economia. No nosso país, na época do Ieltsin, falava-se muito em democracia. Mas hoje vejo uma verdadeira luta contra a corrupção. Hoje vejo uma verdadeira luta contra o crime. É muito mais seguro passear pelas ruas de uma grande cidade na Rússia do que pelas ruas de Lisboa.

E em relação à questão de a Rússia ser ou não uma democracia?

Voltando à questão da democracia, o próprio Putin assiste a concertos em que os humoristas fazem críticas ao presidente e ele ri-se. Nem na época comunista nem com o Ieltsin tivemos um nível tão alto de democracia como o que temos agora. É um nível que não é perfeito, mas nunca foi tão alto, tenho o direito de dizer isto porque nasci em 1960 e passei por estas épocas todas, como o que temos agora. O nosso líder, os nossos líderes, estão contra paradas dos gays nas ruas, mas isso não quer dizer que somos antidemocráticos. Porque é que estamos contra as paradas de gays nas ruas? É uma coisa que está na subconsciência da nossa cultura, ou seja, a política do governo é apenas um reflexo do que está na nossa subconsciência.

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