Não à paz das FARC faz voluntários gregos favoritos ao Nobel

Temporada começa hoje com Medicina. Galardão da Paz (dia 7) pode ir para habitantes das ilhas gregas que salvaram refugiados

Na próxima sexta-feira, dia 7, ficaremos a saber qual dos 376 candidatos (entre indivíduos e instituições) ao Nobel da Paz vencerá o prémio de 2016. Mas até lá é tempo de apostas e se havia uns favoritos inequívocos - o presidente Juan Manuel Santos e o líder da guerrilha marxista, Rodrigo Londono, mais conhecido pelo nome de guerra Timochenko - a vitória renhida do não no referendo ao acordo de paz assinado a 26 de setembro veio mudar tudo.

Juan Manuel Santos e Timochenko assinaram a paz na Colômbia mas referendo ao acordo foi chumbado

O acordo veio pôr fim a mais de meio século de uma guerra que deixou mais de 220 mil mortos. "Este acordo é um dos candidatos mais óbvios ao Nobel da Paz que já vi", admitia à AP o historiador norueguês Asle Sveen. Especialista em prémios Nobel, Sveen recordava ainda no site Nobeliana.com que a América Latina não consegue um Nobel da Paz desde 1992, quando venceu Rigoberta Menchu, pela sua defesa das mulheres indígenas. E pode ainda não ser desta. Ao final do dia de ontem, as apostas já davam como favoritos os habitantes das ilhas gregas, um coletivo para designar todos os voluntários que ajudaram os refugiados - sobretudo sírios, mas também iraquianos, afegãos, etc. - que nos últimos meses chegaram às costas da Grécia em busca de uma vida melhor na Europa.

Premiar os dois lados em conflito depois de terem chegado a um consenso não poderia estar mais no espírito dos prémios criados em 1895 pelo sueco Alfred Nobel. A última vez que o comité o fez foi em 1998, quando atribuiu o galardão da Paz (o único entregue na Noruega, todos os outros Nobel são entregues na Suécia) a John Hume e a David Trimble "pelos seus esforços para encontrar uma solução pacífica para o conflito na Irlanda no Norte". Mas o passado também já provou que esta pode ser uma escolha arriscada. Em 1994, na sequência dos acordos de Oslo entre israelitas e palestinianos, o recém-falecido Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat receberam o prémio. Mas passados 22 anos, com todos os protagonistas mortos, a paz no Médio Oriente ainda é uma miragem. E a Colômbia veio agora mais uma vez provar que a paz é tudo menos linear.

Neste ano, os negociadores do acordo sobre o nuclear iraniano - entre eles os chefes da diplomacia americana, John Kerry, iraniana, Mohammad Javad Zarif, e europeia, Federica Mogherini - surgem também no topo das preferências ao Nobel da Paz.

Os voluntários gregos podem ter ganho o favoritismo, mas a concorrência promete ser dura. E Kristian Berg Harpviken, líder do Instituto de Investigação para a Paz de Oslo (PRIO), tem mesmo outra aposta, colocando a ativista russa pelos direitos humanos Svetlana Gannushkina no primeiro lugar das suas apostas. Para o sociólogo norueguês, esta seria uma forma de o Comité Nobel mostrar que desaprova o comportamento do presidente Vladimir Putin em relação aos direitos humanos e à anexação da Crimeia em 2014. "Dentro de dez anos esta pode ser vista como uma das grandes omissões do Comité Nobel."

Na categoria dos ativistas, Denis Mukwege, o ginecologista congolês que já ganhou o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu por desafiar a morte para ajudar as mulheres violadas durante a guerra civil no seu país, é um eterno candidato ao Nobel. Na lista não falta outro vencedor do Sakharov, o blogger saudita Raif Badawi, detido e condenado a mil chicotadas pela sua defesa da liberdade de expressão.

Das instituições aos homens

Nos últimos anos, as instituições dominaram o Nobel da Paz, tendo arrecadado três dos últimos cinco galardões: em 2012 foi a vez da União Europeia, em 2013 da Organização para a Proibição das Armas Químicas e em 2015 do Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia. Neste ano há 148 instituições entre os nomeados e, segundo a AP, a Save the Children é uma das favoritas à vitória. Sobretudo pelo seu trabalho com as crianças nos campos de refugiados na Síria e nos países vizinhos.

Mas não seria de espantar que o Comité Nobel norueguês opte de novo por premiar um (ou mais) indivíduo. Até porque o prémio "desperta menos interesse nos media quando é entregue apenas a uma instituição", explicou à Reuters Geir Lundestad, secretário executivo do Comité Nobel entre 1990 e 2014.

A guerra da Síria, um conflito que desde 2011 já fez mais de 400 mil mortos e quase cinco milhões de refugiados, está no centro do trabalho de vários candidatos ao Nobel deste ano. Não só dos voluntários gregos, mas também dos Capacetes Brancos, antigos padeiros, professores, alfaiates ou outros profissionais que decidiram dedicar a vida a salvar as vítimas dos bombardeamentos e da guerra na Síria. Segundo o próprio site do Nobel, já terão ajudado a salvar mais de 60 mil vidas.

É a luta contra um dos intervenientes na guerra síria, o Estado Islâmico, o grupo radical sunita que além de parte do território sírio também domina parte do Iraque, que garantiu a Nadia Murad a nomeação para o Nobel. A jovem yazidi escapou depois de ter sido capturada e feita escrava sexual pelos militantes do Estado Islâmico, tornando-se uma porta-voz de todas as mulheres desta minoria étnica vítimas dos abusos dos jihadistas.

Com milhares de pessoas, inclusive todos os membros dos parlamentos nacionais, professores universitários ou antigos vencedores, a poderem nomear candidatos ao Nobel, não espanta que da lista constem nomes menos consensuais. Entre os favoritos neste ano volta a estar Edward Snowden, o ex-analista da NSA que em 2013 divulgou os programas de vigilância secreto dos EUA. Mas também Donald Trump, o candidato republicano às presidenciais de 8 de novembro nos EUA, mais conhecido por querer construir um muro na fronteira com o México ou banir os muçulmanos de entrar na América do que pelos atos a favor da paz.

O Papa Francisco e a chanceler alemã Angela Merkel também voltam à lista, já sem o favoritismo claro de outros anos.

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