Na Arábia Saudita que o rei Salman e o filho estão a reinventar

Uma conferência sobre assistência humanitária deu oportunidade ao DN para visitar Riade e ver como o país dos Saud, tão famoso pela abundância de petróleo como pelo islão conservador, é mais aberto do que se pensa e está a mudar a velocidade surpreendente. Há, afinal, mais a acontecer do que as mulheres finalmente poderem conduzir

Instalado no Hotel Intercontinental de Riade, o centro de congressos está sujeito desde manhã a rigorosas medidas de segurança. De repente, começam a tomar posição soldados de farda negra e boina verde armados com metralhadora. Mais discretos, homens com a tradicional veste branca e keffiyeh de xadrez vermelho mas de pistola a tiracolo espalham-se pelos cantos, procurando passar despercebidos q.b. entre os participantes do Fórum Humanitário Internacional de Riade. Anunciada à última hora num programa refeito, a chegada do rei Salman está iminente. Nos voluntários que ajudam nos trabalhos, jovens rapazes e raparigas recrutados nas universidades, nota-se entusiasmo. "É o nosso rei. Claro que estar perto dele é uma honra", diz uma estudante de Contabilidade da Universidade Princesa Nourah, a maior do mundo para mulheres. Tem o rosto descoberto, mas veste uma abaya negra, nestes dias com um colete bege por cima para a identificar como voluntária do Centro Humanitário Rei Salman (KSrelief).

Todos de pé. O rei entra, caminha devagar (tem 82 anos) e senta-se. É dado sinal para a assistência se sentar também. E começa a ser lida, diria até cantada, uma citação do Alcorão. Depois fala Abdullah Al Rabeeah, diretor do KSrelief, e também o secretário-geral da ONU, António Guterres, neste caso por videoconferência. O português elogia a a iniciativa, agradece a tradição doadora do país, fala da necessidade urgente de maior ajuda humanitária a nível mundial e, embora discurse em inglês, acaba com um shukran, "obrigado" em árabe. Depois o rei Salman levanta-se para agradecer com um cumprimento aos grandes doadores do KSrelief, por si fundado meses depois de assumir o trono em 2015. País do G20, dono das maiores reservas petrolíferas, guardião das cidades santas de Meca e Medina, a Arábia Saudita quer fazer justiça à tradição islâmica de zakat e ser reconhecida como um grande doador para o esforço humanitário. "Ainda há dias foi prometido um pacote de ajuda de 1,5 mil milhões de dólares para o Iémen", relembrou numa das sessões o russo Rashid Khalikov, secretário-geral adjunto da ONU para as Parcerias Humanitárias no Médio Oriente.

O vizinho do Sul tem absorvido muitas das energias do reino, que apoia Abd Rabbuh Mansur Hadi como legítimo presidente do Iémen e participa da coligação internacional (Emirados, Egito, Koweit, etc.) que combate os rebeldes houthis. "No caso da Guerra Irão-Iraque dos anos 1980 foram os sauditas que se foram lá meter, mas no Iémen agora tiveram mesmo de reagir aos iranianos", comenta um jornalista paquistanês, conhecedor dos assuntos militares sauditas. Visto como mais uma das guerras por procuração do Irão xiita e da Arábia Saudita sunita, o Iémen é hoje, mais ainda do que a Síria, uma dor de cabeça para um monarca que já mostrou ter como prioridade a frente interna, com medidas económicas destinadas a reduzir a dependência do petróleo (cerca de 50% do PIB) e outras leis destinadas a fazer evoluir a sociedade, como a que autorizará as sauditas a conduzir já no próximo verão.

Seja no Intercontinental seja nos cartazes na rua, além do rei Salman, surge sempre a imagem do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que a imprensa internacional refere como MbS mas aqui tem direito ao nome por completo. "É uma questão de respeito", diz Bayan B. Barry, que trabalha para a Cisco. Com 30 anos, e dois períodos de vida no Ocidente, não cobre o rosto mas percebe quem o faz, pois "é um hábito cultural e não religioso". Mas conhece muitas sauditas que, usem niqab ou não, estão entusiasmadas com a ideia de conduzir. "Claro que quero conduzir, apesar de até agora tudo correr bem com a Uber e outra aplicação saudita semelhante, a Careem."

Samareh, que trabalha em comunicação e também não usa niqab, diz que se vai ficar pela Uber "até ver", mas que apoia "com todo o coração" o esforço modernizador do rei e do filho, que tem apenas 32 anos e será o primeiro a reinar dos netos de Abdulaziz bin Saud (outra fotografia constante nos locais públicos). O fundador do reino morreu em 1953 e seis dos filhos sucederam-se no trono desde então, com Salman a ser o primeiro a ter nascido já depois da unificação do Najd e do Hejaz em 1932.

Situado junto ao antigo palácio de Murabba, o Museu Nacional conta a história saudita desde os tempos mais antigos. E dois nomes sobressaem desta narrativa de milhares de anos: o profeta Maomé, cuja emigração de Meca para Medina em 622 dá início ao calendário lunar islâmico (vão em 1439), e o rei Abdulaziz, que com as suas conquistas no início do século XX garante para a sua dinastia a guarda das duas cidades santas e cria o Estado moderno saudita, cujos 2,2 milhões de quilómetros quadrados abrangem quatro quintos da Península Arábica. É a descoberta de petróleo que vai selar uma aliança estratégica com os Estados Unidos, que dura até hoje e que Donald Trump, que visitou o reino em maio do ano passado, quer virada contra o Irão. "Foi um sinal importante a Arábia Saudita ter sido o primeiro país visitado pelo novo presidente, mas a aliança entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos está acima das personalidades. Vem muito de trás e é bastante sólida", afirma Adil A. Al-Qusadi, presidente do Gulf Think Tank. Contratos de fornecimento de armas foram então assinados e o orçamento de Defesa saudita estará só atrás do americano e do chinês.

A frente militar (incluindo a complicada intervenção no Iémen) é só uma das muitas que foram assumidas desde o primeiro momento por MbS, que começou por ser o segundo na linha de sucessão, mas que desde o afastamento do primo Mohammed bin Nayef em junho de 2017 passou a ser o príncipe herdeiro. Contando com a confiança evidente do pai, é ministro da Defesa - e ainda há dias mudou as chefias militares -, mas também o homem que lidera o programa que quer revolucionar a economia saudita, tornando-a menos dependente do petróleo. Para angariar fundos e reequilibrar o orçamento são várias as soluções, desde a venda em bolsa de 5% da Saudi Aramco, até uma redução dos generosos subsídios que o Estado dá aos 22 milhões de sauditas (dois terços da população, o resto são estrangeiros, que predominam em várias profissões). Também a luta contra a corrupção e a fraude fiscal está a ser incrementada e ficou famoso o episódio dos magnatas, muitos deles príncipes, retidos no Ritz de Riade até aceitarem entregar parte da fortuna como pagamento de impostos atrasados. "No estrangeiro houve críticas, mas a maioria dos sauditas aplaudiu, em especial os jovens", garante um jornalista saudita, que pediu para não ser nomeado.

No Kingdom Tower, um dos vários arranha-céus de Riade, são muitos os jovens sentados na zona dos restaurantes, onde estão marcas conhecidas como o McDonald"s, o KFC ou o Dunkin" Donuts. Elas de abaya negra, eles de vestes brancas e o keffiyeh mas também de ganga e T-shirt, aproveitam a hora de almoço mas sem grandes misturas entre os sexos, exceto se se tratar de uma família. É verdade que cada vez mais mulheres estudam (mais de metade dos universitários) e trabalham, mas o objetivo de constituírem um terço da mão-de-obra ainda está longe. Contudo, parece ser a condição feminina o centro da mudança de costumes que tem vindo a ser promovida por MbS, não só a possibilidade finalmente de conduzir, como o acesso aos estádios, a novidade da admissão nas forças armadas e até a nomeação há dias de uma vice-ministra do Trabalho.

"Já não vivemos no tempo do extremismo religioso, em que tudo era um não-não. Estamos a voltar ao islão moderado", diz Bayan A. Barry. Apesar de a ascensão da dinastia dos Saud dever muito à aliança com o wahabismo, uma versão ultraconservadora do islão, o príncipe herdeiro tem dito em público que é preciso olhar para o sinal dos tempos. Facebook, Instagram, Twitter, tudo funciona no reino e é fácil ver como o vício dos smartphones está já enraizado. Através da internet, e por viajarem também, os sauditas conhecem o mundo e por isso anseiam por experiências. O jornal Arab News fala do primeiro festival de jazz, da construção de um Teatro de Ópera, de uma maratona feminina. E há também o projeto NEOM, a construção de uma nova cidade com um investimento de 500 mil milhões de dólares que funcionará 100% com energia renovável.

Numa mercearia de rua cruzo-me com um cliente que me pergunta de onde sou. Depois ri-se. Estamos junto às caixas com laranjas importadas do Egito e percebo o que se passa: é que burtuqaal é laranja em árabe e daí a piada. O fraco inglês dele não permite grande conversa. Queria saber se a quebra do preço do petróleo se faz sentir tanto no quotidiano da população como nas contas públicas, que têm recorrido às reservas milionárias de divisas. Quem me dá uma ajuda é Pervez, taxista paquistanês. Oriundo de Peshawar, fica surpreendido quando digo que conheço a cidade e falo do bazar. Está há vários anos na Arábia Saudita e diz que "2012, 2013 e 2014 foram bons, mas 2015, 2016, 2017 e 2018 estão a ser maus". É uma análise económica empírica que bate certo com a evolução do preço do barril de petróleo, que ainda em 2014 andava perto dos cem dólares mas que logo em 2015 baixou para a casa dos 50 e agora ronda os 60.

O impacto na Arábia Saudita foi fortíssimo, até porque coincidiu com a entrada do petróleo de xisto no mercado, com os Estados Unidos a intrometerem-se na velha disputa entre sauditas e russos para ver quem é o primeiro produtor mundial. Mas o desafio financeiro forneceu pretexto ao rei Salman, que tinha fama de pragmático, para lançar com o filho o Visão 2030, que idealiza um país com grandes projetos económicos, desde os virados para as energias alternativas até aos do turismo, passando mesmo pela criação de uma indústria do entretenimento. E não esquecer que o trunfo do petróleo se mantém. "O nosso petróleo é muito menos custoso de extrair do que o americano", nota Adil A. Al-Qusadi.

Visito o festival Al Janadriyah, que todos os anos, por esta altura, celebra durante 15 dias a cultura saudita. Tem uma parte de feira, mas também espetáculos de dança e música tradicionais. De repente, uma cena prende-me. Há gente à espera pela oportunidade para experimentar uns óculos de realidade virtual. Um adolescente usa e depois passa ao seguinte na fila: é uma mulher, com abaya negra e niqab. Coloca os óculos e o resultado é uma mistura entre a tradição conservadora e o expoente da tecnologia. Uma boa metáfora para a própria Arábia Saudita, mesmo que ainda seja cedo para se ter certeza de até onde pode ir a vaga de modernização lançada pelo rei e o filho.

* em Riade.
O DN viajou a convite do King Salman Relief Center

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