"Mulheres russas serão as quartas a votarem na Europa e as sextas no mundo"

Entrevista a Eric Aunoble, investigador do período revolucionário e da Rússia soviética, ligado à Universidade de Genebra, a propósito da importância da participação feminina no processo que culminou com a vitória bolchevista de 1917.

Como nasceu o movimento revolucionário das mulheres na Rússia czarista?

O movimento revolucionário russo sempre se mostrou muito sensível à questão das mulheres. Os primeiros contestatários liam os socialistas europeus que, como Charles Fourier, consideravam que o "grau de emancipação feminina é a medida natural do grau de emancipação geral". Procuravam viver de acordo com essas ideias, tendo fundado comunas, onde todos viviam em conjunto de forma igualitária. Nestes meios progressistas, um casamento branco podia ser a forma de libertar uma jovem da sua família e o seu novo "marido" deixava-a então viver como ela queria, nomeadamente para estudar. Histórias destas são contadas em Que Fazer? (1863), de Nikola Tchernichevski, o romance favorito de Lenine, ou na autobiografia de Sophie Kovalevskaia, Uma Niilista (1892).

Qual o papel das mulheres no processo revolucionário na Rússia?
Ainda que se tenha dividido muito rapidamente em múltiplos grupos e subgrupos, o movimento revolucionário na Rússia partilha de valores comuns, dos quais a igualdade de sexo é parte integrante. Vê-se isso claramente com o envolvimento das mulheres na organização Vontade do Povo, que visa derrubar o czarismo eliminando o czar. Sofia Pérovskaïa, que passou pelos círculos de leitura e de vida colectiva, participa no atentado bem sucedido contra Alexandre II, em 1881. Foi condenada à morte e executada. Por isso, ela tornou-se um símbolo e, 25 anos depois, o seu nome reaparece durante a revolução. Os bolchevistas erguem-lhe um movimento futurista em 1919, período em que os brancos [forças antibolchevistas] qualificam os militantes comunistas, que combatem, como "Sofia Perovskaïa".

No quadro da época, em que momento e de que forma as mulheres entram nas atividades produtivas, nomeadamente na indústria. Que peso tinham enquanto mão-de-obra no momento da revolução?

É preciso ter presente que a ordem patriarcal vacilava então na sociedade russa. Nos campos, as comunidades aldeães estavam a mudar com a emancipação dos casais jovens e, sobretudo, das mulheres mais novas que já não suportavam o jugo da família. Em 1914, com a partida dos maridos para a frente de batalha, as mulheres dos soldados (as soldatki) obtêm, nas aldeias, direitos iguais aos de chefes de família masculinos. Muitas mulheres alistam-se como enfermeiras ou voluntárias para apoiar os refugiados... Para elas, está fora de questão voltarem a ser apenas domésticas. Noutro plano, a composição da classe operária russa, o êxodo rural é também uma realidade feminina. Antes de 1914, a proletarização dos camponeses força-os a uma vida de celibatários pobres, mas livres nas cidades. A guerra veio acelerar este movimento: centenas de milhares de mulheres deixam os campos para ocuparem os empregos industriais até então ocupados pelos homens que partiram para a frente. O número de operárias duplica em Petrogrado, onde chega às 130 mil pessoas, que trabalham não só na indústria têxtil como na metalurgia. As mulheres representam um terço do total da classe operária na capital em 1917.

Que papel tiveram as mulheres em 1917?

Como qualquer revolução realmente profunda e prolongada, a russa permite o acesso à palavra e à ação dos grupos sociais mais oprimidos: as populações não russas do império (entre as quais, os judeus), os mais pobres e as mulheres. Estas últimas obtém o direito generalizado de voto após a queda do czar. Serão as quartas a votarem na Europa e as sextas no mundo. As francesas terão de esperar 30 anos e as portuguesas quase seis décadas. Existia, aliás, na Rússia um movimento feminista que exigia desde há vários anos o direito de votos para as mulheres. Essa Liga dos Direitos Iguais apresentou candidatas às eleições para a Assembleia Constituinte, organizadas em dezembro de 1917. Todavia, a ação das mulheres manifesta-se, em definitivo, mais como um envolvimento nas várias correntes políticas que se afirmam publicamente naquele ano e menos como um movimento específico. Dois nomes a reter: além da "avó da revolução russa", Brechko-Brechkovskaïa, dirigente socialista-revolucionária muito popular em 1917, refira-se evidentemente Alexandra Kollantai, bolchevista e defensora de novas relações entre homens e mulheres, na sociedade e no próprio casal.

Há algum momento particular em que as mulheres tiveram um papel central no período da revolução?

Com a guerra, a economia russa vai conhecer uma crise aguda que se traduz pela escassez de alimento nas cidades. Tendo a cargo a alimentação da família e, por isso, fazer as compras, as mulheres são as primeiras a aperceberem-se do que sucede. As filas junto dos estabelecimentos tornam-se ponto de encontro e de expressão do descontentamento, cada vez maior. É assim que nascem as manifestações contra a fome, como a sucedida na cidade industrial de Orekhovo, nos arredores de Moscovo, logo em 1915. Quando chega o 8 de março de 1917, o descontentamento é enorme em Petrogrado, devido a semanas consecutivas sem nada para comprar nas lojas. O 8 de março tem ainda um outro significado. No quadro da II Internacional, o dia impusera-se, antes do início da guerra, como o "dia da operária". E em Petrogrado vão ser as mulheres dos operários e dos soldados (as soldatki) a manifestarem-se, mais do que os operários. O sucesso da manifestação demonstra que os meios operários adotaram as ideias da igualdade de sexo e da luta de classes propagadas pelo movimento socialista. E como as feministas "burguesas", da Liga dos Direitos Iguais, também tinham apelado à participação nas manifestações, houve a convergência de três tipos de contestação: a económica, a feminista e a política, pois vir para as ruas da capital em plena guerra é, sem dúvida, um gesto político radical da oposição ao poder czarista.

A vitória da revolução era um facto inelutável, tendo presente a conjuntura em 1917?

Aquilo que é certo é que o czarismo estava condenado antes ainda do início da revolução. Por isso, ninguém o defendeu, mesmo no aparelho de Estado ou nas chefias do exército. Note-se que os oficiais na origem do movimento branco contra os bolchevistas reivindicam-se, maioritariamente, como defensores de uma república, se necessário ditatorial, mas sem czar. Deve-se sublinhar o paradoxo que a revolução tenha eclodido num país que, apesar das aparências de uma descolagem económica, estava mal em termos estruturais desde há muito tempo. E a revolução pode parecer condenar à partida. É o que consideram os homens do governo provisório, desde logo o próprio Alexandre Kerensky [o chefe do governo]. Chegados ao poder sem o terem previsto, era suposto resolverem os problemas de fundo que atormentavam a Rússia desde há mais de 50 anos, ao mesmo tempo que tinham de travar uma guerra de tipo novo, que exigia a mobilização total das pessoas, dos espíritos, da riqueza nacional: missão impossível.

A perspectiva dos bolchevistas era distinta?

Não colocavam os problemas da mesma forma. Eles cavalgavam uma vaga de contestação popular que recusa a guerra, mete em causa as hierarquias sociais e cria as suas próprias organizações (os sovietes ou conselhos de operários, soldados e camponeses; os comités de fábrica, de edifício, de bairro...). O vulcão que explodiu na Rússia após fevereiro de 1917, vai ecoar em toda a Europa, com um surto de greves na Grã-Bretanha, na Alemanha e em França. Aumenta a desobediência nas fileiras, que se transforma em motins declarados no exército francês. Perante este quadro, o exemplo russo inspira e a revolução parece plausível na Europa.

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