Mugabe surpreende todos ao não anunciar demissão

Partido vai avançar com processo de destituição da presidência do país. Opositor fala em discurso desligado da realidade

A população do Zimbabué e o resto do mundo seguiram no domingo atentamente a comunicação televisiva que Robert Mugabe fez ao país. Tudo indicava que este iria anunciar o seu afastamento da presidência do país, como lhe tinha sido exigido horas antes pelo ZANU-PF, que liderava desde 1975 e que tinha decidido que essa era tinha acabado domingo. Mas não: Mugabe afirmou que irá presidir a um congresso do partido no próximo mês e sobre a sua demissão nem uma palavra.

Falando a partir da sua residência oficial, tendo ao seu lado uma fileira de generais, um Mugabe de voz frágil e hesitante reconheceu as críticas que lhe têm sido feitas pelo partido, militares e população.

Não deu porém sinais de que estivesse a ponderar afastar-se da presidência. "A operação à qual escapei não questionou a minha autoridade como chefe de Estado e comandante em chefe do exército", afirmou Mugabe, de 93 anos e há 37 no poder. "Sejam quais forem os prós e os contras da operação militar, eu, como comandante em chefe, reconheço os problemas que foram levantados", prosseguiu, criticando "as mensagens contraditórias do governo e do partido ".

"Tudo isso deve parar, à medida que adotamos uma nova cultura de trabalho", referiu ainda Mugabe. No final, os militares presentes na sala não conseguiram esconder o seu espanto, mas, após alguma hesitação, acabaram por timidamente aplaudir a intervenção de Mugabe.

Horas antes, tinha sido afastado da liderança do ZANU-PF, partido que dirigia desde 1975, tendo-lhe sido dado um prazo de menos de 24 horas para decidir se abandona a presidência do país ou se prefere enfrentar um processo de destituição.

O novo líder do partido é Emmerson Mnangagwa, o vice-presidente que Mugabe tinha afastado no início do mês, ato que levou à intervenção dos militares há menos de uma semana. O "crocodilo" foi ainda designado candidato do ZANU-PF às presidenciais do próximo ano.

O anúncio da mudança de liderança foi recebido com aplausos e manifestações de alegria pelos cerca de 200 delegados que encheram no domingo a sede do ZANU-PF em Harare. A Mugabe foi ainda dado um prazo, até às 10.00 (hora de Lisboa) para que se demita da presidência do Zimbabué ou enfrente um processo de destituição.

Grace Mugabe, a polémica primeira-dama que tinha aspirações a suceder ao marido à frente do partido e do país, foi expulsa do ZANU-PF, tendo o mesmo acontecido a pelo menos três ministros que faziam parte do núcleo duro do chamado G40, a fação apoiante da mulher de Mugabe.

Após a intervenção de Mugabe, Chris Mutsvangwa, líder dos veteranos de guerra e opositor do regime, disse à AFP que este tinha sido um discurso "totalmente desligado da realidade" e garantiu que iriam apoiar "todo o processo de destituição, apelando também a manifestações na quarta-feira".

O ZANU-PF não foi também brando na sua reação. "Tudo o que o velho precisava de fazer era seguir o guião. Agora temos de removê-lo", numa alusão ao processo de destituição. "Nós demos a Mugabe todas as hipóteses de uma saída digna. Mas ele é louco", escreveu também o partido no Twitter.

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