Mugabe renuncia à presidência do Zimbabué

Presidente do Zimbabué enviou carta de demissão ao parlamento

Robert Mugabe renunciou esta terça-feira à presidência do Zimbabué. O anúncio foi feito pelo presidente do parlamento do país, Jacob Mudenda, que revelou que Mugabe apresentou a demissão numa carta enviada à assembleia, dizendo que tomou a decisão voluntariamente.

Segundo a Reuters, os deputados, que debatiam uma moção para destituir Mugabe, reagiram à notícia com euforia. Também nas ruas de Harare houve aplausos e celebração.

Na carta enviada ao parlamento, Mugabe não faz menção a quem deixa na liderança do Zimbabué, indica a Reuters.

Nos últimos dias, Mugabe chegou a recusar abandonar a presidência, depois de os militares terem tomado o poder num golpe a que chamaram de "transição de poder sem sangue".

Robert Mugabe prometeu um dia festejar os seus 100 anos no poder

A atual crise política começou quando os militares tomaram o controlo do país na noite do passado dia 14 de novembro, depois de, na semana anterior, Mugabe, de 93 anos, ter destituído o seu vice-presidente e aliado de longa data, Emmerson Mnangagwa, de 75 anos, que tinha estreitas ligações com os militares.

Emmerson Mnangagwa, por sua vez, apelou hoje a Mugabe para se demitir imediatamente de modo a "preservar o seu legado" e a permitir "ao país avançar".

Numa declaração enviada à imprensa, Emmerson Mnangagwa, cuja destituição desencadeou o golpe do exército contra o regime de Mugabe, também indicou que não irá regressar ao Zimbabué enquanto não tiver certeza que a sua segurança é garantida.

"Convido o Presidente Mugabe a levar em conta os apelos lançados pelo povo para a sua demissão de modo a que o país possa avançar e preservar o legado" do chefe de Estado, declarou Emmerson Mnangagwa, na mesma nota citada pelas agências internacionais.

Mais velho presidente do mundo larga o poder

Com 93 anos, Robert Mugabe, o mais velho presidente do mundo, demitiu-se após 37 anos no poder no Zimbabué, "com efeito imediato". Ainda resistiu durante vários dias a abandonar o poder, depois de uma intervenção dos militares.

No poder no Zimbabué desde a independência do país, em 1980, Robert Mugabe prometeu um dia festejar os seus 100 anos no poder e era considera a encarnação do déspota africano pronto a fazer qualquer coisa para perpetuar o seu reinado.

Nascido perto de Harare a 21 de fevereiro de 1924, filho de um carpinteiro e de uma professora, Mugabe frequentou escolas maristas e jesuítas e tornou-se professor, tendo tirado vários cursos por correspondência.

Descobre a política na universidade de Fort Hare, a única aberta a negros na África do Sul do 'apartheid', e é seduzido pelo marxismo.

Em 1960 envolve-se na luta conta o poder na Rodésia (atual território do Zimbabué) e quatro anos mais tarde é detido, tendo passado 10 anos na prisão.

Pouco depois da libertação refugia-se no vizinho Moçambique, onde assume a liderança da luta armada, até à independência da colónia britânica e da sua chegada ao poder.

Um dos signatários dos acordos que deram origem à República do Zimbabué, em 1980, mostrou durante o percurso uma determinação sem falhas.

O herói da independência tornou-se primeiro-ministro e alguns anos depois, em 1987, afastados os opositores numa repressão brutal que terá causado cerca de 20.000 mortos, instituiu um regime presidencial.

Os anos 2000 marcam o início da sua queda, com decisões polémicas, como uma reforma agrária que levou a expropriações de quintas de proprietários brancos para distribuir a terra entre a população negra do país.

A cada nova reeleição como presidente sucedem-se as acusações de fraude e, em 2008, Mugabe perde a maioria no parlamento num escrutínio marcado pela violência, que causa centenas de mortos.

Elogiado pela sua política de reconciliação em nome da unidade do país quando tomou as rédeas do Zimbabué, Mugabe não aceita bem as críticas pelas atitudes de ditador e responsabiliza o Ocidente pelos males do país, nomeadamente a sua ruína financeira.

Sanções internacionais, hiperinflação, um desemprego superior a 90% da população não impedem a reeleição de Mugabe em 2013 com 61% dos votos.

E nem a crise nem a sua saúde frágil impediram o seu partido, a União Nacional Africana do Zimbabué -- Frente Patriótica (ZANU-PF), de o indicar como candidato às próximas presidenciais em 2018.

No entanto, crescem as suspeitas de que não resiste às tentativas da sua segunda mulher, Grace, de lutar pela sua sucessão.

Depois do afastamento da vice-presidente Joyce Mujuru em 2014, Grace conseguiu a demissão do vice-presidente Emmerson Mnangagawa há algumas semanas, o que terá levado os militares a intervirem na noite do passado dia 14.

Mugabe ainda resistiu uma semana a fazer a vontade aos que pretendiam o seu afastamento, numa demonstração da verdade das críticas que lhe faziam de sede inextinguível de poder.

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