"Morte de Ceausescu era inevitável porque até ao final foi um ditador sanguinário"

Petre Roman foi primeiro-ministro entre 1989 e 1991, emergindo como um dos rostos da Revolução Romena. Esteve em Lisboa e falou da evolução do seu país, hoje membro da UE e da NATO.

Petre Roman, hoje com 71 anos, foi o jovem político reformista escolhido pelo novo presidente Ion Iliescu para o ajudar a liderar a Roménia após o derrube de Nicolae Ceausescu em dezembro de 1989. Mais tarde, Roman chegou a ser também ministro dos Negócios Estrangeiros e por duas vezes candidato presidencial fracassado. Esteve em Portugal a convite do IPDAL, para um colóquio sobre o triângulo estratégico Europa-América Latina-África, e conversou com o DN sobre a Revolução Romena mas também sobre a Roménia de hoje, membro da UE e da NATO. A conversa foi em espanhol, pois Roman é filho de uma espanhola e de um romeno que esteve nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola. Diz que o pai surge discretamente num dos romances de Ernest Hemingway.

Faz quase 30 anos que foi uma das figuras emblemáticas das revoluções anticomunistas na Europa de Leste. Imaginava que a evolução dessa Europa então submetida a Moscovo fosse a integração completa na União Europeia e na NATO, como aconteceu com a sua Roménia?

Era o sonho da Revolução Romena reintegrar o país na Europa. E conseguimo-lo, mas com sacrifícios. Às vezes foram sacrifícios demasiado grandes, não por culpa da Europa mas sim dos políticos romenos. Foi uma reintegração também demasiado lenta. Eu, como primeiro-ministro entre 1989 e 1991, tinha uma visão estratégica e um plano de ação que contava aplicar em sete anos. Mas foram muitos mais e por isso se perdeu muito. Mas o grande resultado da Revolução Romena e da política romena pós-1989 é este mesmo: integrar a UE e a NATO.

Está satisfeito com a evolução da sociedade romena, mais rica, mas também mais plural?

Claro que sim. Primeiro que tudo, hoje em dia na Roménia há democracia, uma democracia que funciona. Há o Estado de Direito. As pessoas podem falar livremente, a sociedade civil atua, cada um pode defender os seus interesses. A pluralidade é efetiva e muito importante para o país. Mas ao mesmo tempo, no plano económico, o atraso da Roménia durante o período comunista foi tremendo. E ainda o sentimos muito, sobretudo no que diz respeito às infraestruturas. Foi uma loucura de Ceausescu, a quem não importava a infraestrutura. Não lhe interessava as estradas ou as autoestradas, nem o sistema de distribuição de água, por exemplo. E o país, em especial as aldeias, ficou muito atrasado e ainda pagamos o preço. Eu quando cheguei a primeiro-ministro sonhava com o meu plano de ação queimar etapas. Pois historicamente parece que isso não é possível. Há que fazê-lo bem, há que fazê-lo com tenacidade e perseverança, com paciência, mas isto em geral a política não o permite.

Como explica que no contexto da Guerra Fria entre entre o bloco americano e o bloco soviético a Roménia de Ceausescu, embora membro do Pacto de Varsóvia, fosse vista com certa simpatia pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental?

Porque Ceausescu dava a impressão de que de certo modo se opunha à União Soviética. Não era verdade. Pretendia manter a independência, mas era uma independência nacionalista e conservadora. Não era uma independência liberal. Claro, este papel Ceausescu desempenhou-o muito bem até queficou evidente que o regime era repressivo e sufocante e chegámos à Revolução Romena, que foi uma desordem trágica.

E a forma trágica como Ceausescu e a mulher Elena acabaram executados no dia de Natal, era inevitável?

Creio que a morte de Ceausescu era inevitável porque até ao final foi um ditador sanguinário. Começou em Timosoara, onde mataram gente, depois na barricada onde eu estava, no centro de Bucareste, a do Hotel Intercontinental. Fomos para lá no dia 21 de dezembro e ficámos umas nove horas. No final, 20 minutos antes da meia-noite, ainda éramos 81, contámos depois, e começaram a disparar com as metralhadoras. E dos 81 morreram 39. A mim deus salvou-me a vida. Isto quer dizer que o regime estava com a mente fora da razão.

E como explica que haja debate entre historiadores sobre o que se passou de facto e até processos judiciais contra as altas figuras da revolução?

Há historiadores que até dizem que isto é a vingança da Securitate [risos]. Trata-se de uma luta política, má. Quando a história se converte em forma de luta política é muito mau. E absurdo.

Falando um pouco do seu país em termos de identidade. A vossa condição de latinos de leste faz diferença, até no relacionamento com a Europa ocidental, Portugal incluído?

A Roménia, ainda que sendo um país grande, é uma ilha de latinidade num mundo eslavo. O idioma romeno é o mais próximo do latim vulgar, do latim falado popularmente, porque os romanos deixam a Roménia depois de conquistá-la e chegam os visigodos, que depois chegarão também aqui, a Portugal e Espanha. Saem da Roménia em 405 e poucos anos depois instalam-se na Península Ibérica. E curiosamente, nos tempos recentes, há relações com Portugal muito importantes de figuras como Mircea Eliade e Lucian Blaga, grandes figuras da cultura romena. Creio que há um certo tipo de afinidade entre o meu país e Portugal. Havia um embaixador português há uns anos, um homem muito interessante, que descobriu que os únicos idiomas neolatinos que têm a palavra saudade são o português e o romeno, que usa dor com o sentido de saudade. Portugal e Espanha também nos serviram de referência depois do comunismo, por causa do percurso desde o fim da ditadura até à adesão à União Europeia. Foram uma inspiração.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.