Morreu o homem que evitou uma guerra nuclear

Ex-tenente-coronel Petrov tinha tudo para começar um ataque nuclear da União Soviética contra os Estados Unidos

O ex-soldado soviético responsável por ter impedido que o mundo entrasse numa guerra nuclear em 1983, durante a Guerra Fria, morreu aos 77 anos. Stanislav Petrov morreu em Moscovo a 19 de maio, mas apenas agora a sua morte foi anunciada.

Petrov estava destacado no posto de comando soviético Serpukhov 15 a 26 de setembro de 1983 quando os monitores e painéis mostraram que os Estados Unidos acabavam de realizar um lançamento de mísseis. Na altura o tenente-coronel com 44 anos tomou a decisão de ignorar o alerta do sistema, que acabou por revelar-se um erro dos computadores.

O ex-militar tinha todos os motivos para alertar os superiores sobre o ataque, o que faria com que a União Soviética retaliasse, lançando também mísseis. Isto poderia ter sido o início de uma guerra nuclear.

Contudo, cinco minutos depois do primeiro alerta, Petrov decidiu ignorar os avisos. O que motivou a decisão do tenente-coronel? O instinto.

"Tinha um pressentimento estranho", contou o ex-militar numa entrevista dada ao Washington Post em 1999. "Não queria cometer um erro, então tomei uma decisão. E foi isso".

O alerta surgiu semanas depois da União Soviética ter abatido um avião sul coreano com passageiros a bordo, no pico da Guerra Fria.

Os monitores mostravam que Washington acabava de lançar cinco mísseis em direção à União Soviética. "Durante 15 segundos ficámos em choque. Precisávamos de perceber o que aconteceria a seguir", contou.

O momento foi muito tenso - os monitores piscavam e todos contavam com Petrov, que tentava ainda perceber o que se passava. Os outros militares questionavam o tenente-coronel, enquanto ele falava ao telefone e no interfone com outros colegas noutros postos.

Anos mais tarde, Petrov admitiu que a sua decisão também foi baseada num palpite. Ele sabia que um ataque nuclear seria devastador para a União Soviética e assumiu que, se os Estados Unidos quisessem destruir a nação, lançariam um ataque maior.

"Quando as pessoas começam uma guerra, não começam lançando só cinco mísseis. Cinco mísseis provocam poucos danos", disse Petrov.

Se tivesse agido de forma diferente, Petrov teria ajudado a destruir dois países. "Com mísseis a serem lançados em todas as direções, o país que atacasse primeiro iria ser destruído em 27 minutos porque assim que o outro país descobrisse iria retaliar com mísseis", disse o ex-militar, numa entrevista ao Sputnik.

Além disso, Petrov sabia que o sistema tinha algumas falhas e outras unidades de radar não deteteram o lançamento. Contudo, o militar sabia que os radares sempre demoram mais do que o sistema para captar qualquer míssil.

"Não sei o que teria acontecido" se estivesse errado, disse Petrov ao Sputnik. "Apenas sei o que aconteceu na realidade".

A decisão de Petrov foi louvada mas apenas após muitos anos. Na altura, o militar foi interrogado pelos superiores, que não gostaram de facto de Petrov não ter cumprido a sua obrigação e ter desobedecido ao protocolo. Houve ainda quem tentasse culpar Petrov pela falha no sistema.

No final, o militar não foi elogiado nem sancionado. Percebeu-se depois que satélites confundiram a luz solar refletida pelas nuvens com mísseis e ativaram o sistema e o caso quase foi esquecido.

Anos mais tarde, a história de Petrov foi contada pelo realizador de cinema alemão Karl Schumacher e o ex-tenente-coronel ganhou o Prémio Internacional da Paz Dresden e foi distinguido internacionalmente.

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