Miss Israel e Miss Iraque tiram selfie e a árabe acaba a receber ameaças de morte

Adar Gandelsman e Sarah Idan surgem em foto no Instagram com um apelo à paz. Mas o resultado foram mensagens de ódio e a família da iraquiana forçada a sair do país. Ela manteve a imagem na rede social e diz não ter medo.

A última vez que uma iraquiana entrou num concurso de Miss Universo foi em 1972, ainda Saddam Hussein não tinha chegado ao poder. Talvez por isso, Sarah Idan estivesse tão entusiasmada por poder representar o seu país no evento deste ano, organizado em finais de novembro em Las Vegas: "É uma honra ser a primeira mulher em mais de 40 anos a representar o meu país na Miss Universo. Estou muito, muito entusiasmada", escrevia no Facebook a modelo de 27 anos. Ora, foi outra rede social, o Instagram, na qual publicou uma fotografia com a miss Israel, que a colocaria no centro da ira dos radicais muçulmanos, tornando-a alvo de ameaças de morte e obrigando a sua família a deixar o Iraque.

"Paz e amor da miss Iraque e miss Israel", escreveu Idan a acompanhar a sua foto com Adar Gandelsman. Uma mensagem acompanhada de dois corações. Mas a imagem não foi recebida com paz nem com amor. "Acordei com chamadas da minha família e da Organização da Miss Iraque. Estavam a enlouquecer. As ameaças de morte que recebi online eram muito assustadoras", contou mais tarde à CNN. Idan já antes causara controvérsia junto dos setores mais conservadores da sociedade iraquiana ao desfilar de biquíni no concurso.

Nascida e criada em Bagdad, Idan é uma cantora e letrista, que se refugia na música para escapar à violência que tem minado o seu país desde a invasão americana em 2003, que levou à queda de Saddam. E em 2009, com apenas 19 anos, juntou-se à coligação internacional liderada pelos EUA, tendo trabalhado como tradutora na estabilização da capital iraquiana. Mais tarde, mudou-se para os EUA, onde se formou em Performance pelo Musicians Institute de Los Angeles. "Digo sempre o que penso. Não tenho medo. Servi ambos os países, Iraque e EUA. Fez-me crescer e tornar-me melhor pessoa. Sinto-me honrada por ter tido esta oportunidade", explicou Idan numa entrevista ao International Business Times.

Foi este lado destemido que a levou a ignorar os avisos da Organização da Miss Iraque e a manter a fotografia no Instagram. Mesmo se numa segunda mensagem na mesma rede social esclareceu que não apoia o governo de Israel e pediu desculpas a "todos os que acharam que se tratou de um ataque à causa palestiniana".

Assustada com a escala das ameaças, Idan pediu à família para sair do Iraque e, em declarações à CNN, criticou o silêncio do governo de Bagdad durante todo este caso. "O governo tem estado assustadoramente calado. E, quando estão assim tão calados, não se sabe o que nos espera em casa", explicou. A própria Idan, que vive nos EUA, precisava de voltar ao Iraque para renovar o bilhete de identidade e o passaporte. Mas garante não ter medo. E, por entre mensagens de ódio e ameaças de morte, Idan também recebeu o apoio de muitos nas suas contas nas redes sociais.

A foto, essa, continua no Instagram. E Idan não tem hesitado em usá-la para promover a paz. Além disso, tem mantido contacto com Adar Gandelsman. "Saudades tuas, miúda. Avisa-me se vieres à Califórnia", escreveu a iraquiana. Em declarações ao The Times of Israel, a miss israelita, de 20 anos, explicou que a colega iraquiana publicou a fotografia "para que o povo perceba que é possível vivermos juntos".

Publicada em finais de novembro, a imagem tornou-se ainda mais polémica depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter reconhecido, a 6 de dezembro, Jerusalém como capital de Israel, provocando protestos em vários países árabes e muçulmanos. O Iraque não foi exceção. Isto apesar de em 1948, ano da fundação de Israel e do início da perseguição aos judeus, o Iraque ter uma comunidade judaica de mais de 150 mil.

Mas esta está longe de ser a única vez que um gesto de simpatia entre um nacional de um país árabe ou muçulmano e um israelita gera tensões e protestos.

Em 2005, o funeral do papa João Paulo II foi palco de um aperto de mão entre o então presidente israelita Moshe Katzav e o líder supremo iraniano, Mohammad Khatami. Nascido em Yazd, no Irão, Katzav mudou-se com a família para Israel quando tinha 6 anos, o que explica os relatos sobre os dois homens terem trocado umas palavras em farsi. Diante da chuva de críticas de ambos os lados - por terem cumprimentado o líder de um país inimigo -, ambos vieram negar o aperto de mão. Mas Katzav acabaria por garantir ao Channel 2 da televisão que se tratou apenas de um gesto de boa educação que não tinha qualquer implicação política.

Se na política estes momentos de contacto são especialmente sensíveis, no que se refere à tensão entre árabes ou muçulmanos e israelitas a questão coloca-se a vários níveis. Até no desporto. Em outubro passado, por exemplo, a organização do campeonato mundial de judo que decorria nos Emirados Árabes Unidos recusou içar a bandeira e tocar o hino de Israel quando um atleta daquele país ganhou uma medalha de ouro. E na mesma modalidade, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o judoca egípcio Islam El Shehaby provocara uma onda de críticas ao recusar apertar a mão ao adversário israelita, Or Sasson.

Mais radicais foram as consequências para Mushir Salem Jawher, um corredor de fundo nascido Leonard Mucheru Maina no Quénia e que em 2003 se mudou para o Bahrein, adquirindo a nacionalidade daquele emirado do Golfo, mudando de nome e passando a competir sob as suas cores. Ora, foi o que fez em janeiro de 2007 quando correu e ganhou a maratona de Tiberíades, em Israel, tendo-lhe logo sido retirada a nacionalidade do Bahrein. Foi de novo como queniano que em 2008 voltou à maratona de Tiberíades, repetindo a vitória.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?