Militares de Abril em Cuba e Fidel em Matosinhos

Otelo foi uma das primeiras figuras da esquerda portuguesa a visitar Cuba, durante o período revolucionário. Muitos anos depois, Fidel viria a Portugal. E faria em Matosinhos "o mais longo discurso político" em território nacional

Durante o período revolucionário, figuras da esquerda portuguesa trocaram ideias com o presidente Fidel Castro, em Cuba. Otelo Saraiva de Carvalho foi dos primeiros a visitar a ilha. No regresso, cheio de fervor revolucionário, avisava que, sendo necessário, meteria os contrarrevolucionários na Praça de Touros do Campo Pequeno. Cuba, por essa altura, preparava o envio de tropas para Angola, apoio que seria fundamental para as forças do MPLA manterem o poder. Otelo, destacada figura da Revolução de Abril, chega a Havana em 1975 e é recebido como um herói. O militar português sobe a palco e discursa, no 26 de julho, nas comemorações oficiais do assalto ao quartel de Moncada - data que assinala o início da revolta contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

De volta a Portugal, o comandante do Copcon (Comando Operacional do Continente), além do aviso aos contrarrevolucionários, é portador de uma mensagem do comandante Fidel endereçada ao general Costa Gomes, presidente da República. Uma mensagem decisiva para os destinos de Angola: Cuba anunciava a intervenção em solo angolano. Os contrarrevolucionários deram a resposta em abril de 1976: a explosão de uma bomba na Embaixada de Cuba em Lisboa vitimava dois diplomatas do regime de Fidel. O almirante Rosa Coutinho, alto-comissário em Angola, também iria a Havana, em 1975, encontrar-se com antigo guerrilheiro da Sierra Maestra. Dois anos volvidos, é a vez de o general Costa Gomes ser recebido pelo líder cubano. As visitas a Portugal de El Comandante ocorreram muitos anos depois, numa altura em que os três militares de Abril se achavam afastados da cena política portuguesa. O homem que terminava com "pátria ou morte, venceremos!" os pausados discursos às massas veio a Portugal, pela primeira vez, em 1998. Foi durante a VIII Cimeira Ibero-Americana, realizada no Porto, e rapidamente se tornaria a personagem central do encontro. E fora dele. Em Matosinhos, num comício-festa de solidariedade com o povo cubano, Fidel terá feito "o mais longo discurso político algumas vez proferido" em terras portuguesas: foi um improviso que durou duas horas e meia. E ouviu de José Saramago, que acabava de ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, as seguintes palavras: "Cuba dá-nos todos os dias uma lição de coragem. Cuba vive mais firme do que uma rocha, porque uma rocha desgasta-se, mas, até agora, a vontade do povo cubano não se desgastou."

A presença de Fidel no Porto daria mais força ao protesto de rua contra o bloqueio norte-americano à ilha, num dos dias da cimeira. À frente da manifestação seguiam, entre outros, Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho e Mário Tomé. "É a maior manifestação de apoio a Cuba que vi em todas as cimeiras", afirmava Pedro Vilanueva, jornalista da agência noticiosa latino-americana Prensa Latina. Em maio de 2001, o presidente cubano voltou a Portugal, mas a visita resume-se a uma passagem discreta por Lisboa. Trinta anos antes, Portugal proporcionava um exílio de luxo ao homem que Fidel Castro e outros guerrilheiros da Sierra Maestra ajudaram a afastar do poder. Fulgêncio Batista viveu na ilha da Madeira, mais tarde no Estoril, seguindo para Espanha, onde morreu em 1973.

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