"Adiamento não é cancelamento". Milhares nas ruas de Hong Kong numa marcha negra

Dezenas de milhar de pessoas protestam em Hong Kong este domingo, apesar de a líder do Executivo ter anunciado a suspensão da lei da extradição.

"Adiamento não é cancelamento." E é por isso que este domingo, em Hong Kong, dezenas de milhares de pessoas estão de novo na rua a manifestar-se "pela liberdade" e contra a lei da extradição, cuja aprovação foi adiada "indefinidamente" mas não totalmente posta de parte pelo governo. "Estamos a lutar pela nossa liberdade", disse uma manifestante de 18 anos ao jornal The Guardian. "Suspender a lei mas não cancelá-la é como segurar uma faca sobre a cabeça de alguém e dizer-lhe: eu não te vou matar. Mas pode fazê-lo a qualquer momento."

Ainda de madrugada, os manifestantes começaram a reunir-se em Victoria Park. As ruas estão cheias. São sobretudo jovens, vestidos de preto, muitos deles com o símbolo da paz preso às blusas, empunhando cartazes que clamam "Parem de nos matar" e flores em memória de um manifestante que na manhã de sábado caiu de um prédio depois de afixar uma lona de protesto, de acordo com a Civil Human Rights Front (CHRF), a organização não-governamental que se tem assumido como a principal organizadora dos protestos. A marcha negra irá terminar de novo no complexo do Conselho Legislativo (LegCo).

O anúncio de sábado da chefe do Governo de suspender as emendas à lei que permitiriam a extradição para países sem acordo prévio, como é o caso da China continental, não desmobilizou os opositores, que continuam a pedir um recuo total das propostas e a demissão da própria Carrie Lam. Em conferência de imprensa, os ativistas sustentaram que a suspensão do debate sobre a lei da extradição é apenas uma tática política motivada pela pressão pública e sublinharam que a população de Hong Hong não quer viver sob o medo de que seja semeado o terror com detenções - a acusação da participação em motim pode dar direito a uma pena de até dez anos de prisão.

Este é o terceiro protesto numa semana, depois de no último domingo, segundo os organizadores, mais de um milhão se ter manifestado, e após um protesto na quarta-feira que cercou o quartel-general do Governo no qual se registou mais de uma centena de feridos e a detenção de onze pessoas. As forças de segurança confirmaram também a utilização de gás lacrimogéneo, gás pimenta e armas antimotim para dispersar os manifestantes, bem como ferimentos em 22 polícias.

Pelo menos 80 pessoas foram obrigadas a receber tratamento hospitalar, segundo a imprensa local que cita números fornecidos pelas unidades de saúde. Algumas das detenções efetuadas pela polícia aconteceram nas instalações das unidades de saúde, uma situação que mereceu críticas tanto de responsáveis hospitalares como da CHRF.

Wong Yik Mo, do CHRF, explica: "Não exigimos apenas o fim da lei. Queremos também que sejam retiradas todas as acusações contra os manifestantes e que a polícia seja responsabilizada pelos seus atos. E fazem uma última exigência: Carrie Lam começou tudo isto, então exigimos a sua demissão."

O que diz a polémica lei

Apresentadas em fevereiro e com uma votação final prevista para antes do final de julho, as alterações propostas à lei da extradição permitiriam que a chefe do Executivo e os tribunais de Hong Kong processassem pedidos de extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

Os defensores da lei argumentam que, caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China, tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais".

Os manifestantes dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos. Uso da tortura, detenções arbitrárias e confissões forçadas são frequentemente relatados por prisioneiros na China.

A transferência de Hong Kong e Macau para a República Popular da China, em 1997 e 1999, respetivamente, decorreu sob o princípio "um país, dois sistemas", precisamente o que os opositores às alterações da lei garantem estar agora em causa. Para as duas regiões administrativas especiais da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, sendo o Governo central chinês responsável pelas relações externas e defesa.

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