Guaidó vai percorrer a Venezuela para preparar "a grande conquista de Caracas"

Ao protesto convocado por Juan Guaidó após o apagão que começou na quinta-feira, Nicolás Maduro respondeu com a sua própria manifestação. Balanço da oposição aponta para pelo menos 17 mortos nos hospitais devido à falta de luz. Presidente culpa os EUA.

O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou este sábado que vai percorrer os 23 estados do país com os deputados da Assembleia Nacional, com o objetivo de preparar "a grande conquista de Caracas". Guaidó, que é reconhecido por mais de 50 países, não revelou ainda datas para os próximos passos do caminho que tem como objetivo afastar o presidente Nicolás Maduro do poder.

Caracas voltou este sábado a ser palco de protestos rivais, com demonstrações de força da parte do presidente venezuelano, em resposta à manifestação convocada pelo líder da Assembleia Nacional, que assumiu a presidência interina da Venezuela. Os protestos decorrem mais de 24 horas depois do apagão que deixou o país às escuras a partir de quinta-feira, com zonas onde a luz ainda não voltou e falhas elétricas esporádicas na capital.

A marcha opositora, que reuniu milhares de pessoas, começou na praça Altamira, tendo como destino a avenida Victoria. Guaidó discursou diante dos manifestantes, em cima de um carro por não ter sido autorizado a montar um palco, dizendo que continuará mobilizado até conseguir alcançar o objetivo de acabar com a usurpação do poder, conseguir que haja um governo interino e a convocação de eleições.

"Temos que ir à conquista dos espaços de maneira pacífica, temos que nos unir para logo virmos todos juntos, para que toda a Venezuela venha a Caracas porque precisamos de todos unidos", afirmou o presidente da Assembleia Nacional, que anunciou uma marcha que vai percorrer o país junto a cada deputado da Assembleia Nacional para "trazer toda a Venezuela para Caracas", numa grande conquista da capital.

Guaidó não revela datas para não ficar "preso" nas estradas. "Após o final desta viagem anunciaremos a data em que todos juntos caminharemos em Caracas", explicou o líder da oposição.

Guaidó disse ainda que a tragédia que se vive no país tem um nome e apelido: "Nicolás Maduro." Para o presidente encarregado, "é difícil dizer que vamos bem quando morrem crianças nos hospitais. Sabemos a crise em que estamos, por culpa do regime", indicou.

Segundo um balanço do deputado opositor e médico Jose Manuel Olivares, pelo menos 17 pessoas terão morrido nos hospitais do país devido à falta de eletricidade - 13 delas no hospital Manuel Núñez Tovar, que está sem luz e não tem gerador.

Ainda antes do início dos protestos, a polícia lançou gás lacrimogéneo contra um grupo de manifestantes da oposição que tentou caminhar pelo meio de uma das avenidas de Caracas, sendo forçado pelos agentes com equipamento antimotim a andar pelo passeio. Isso levou alguns manifestantes a gritarem e a empurrarem os escudos dos agentes, tendo pelo menos uma mulher sido atingida com gás lacrimogéneo.

O protesto da oposição foi convocado por Juan Guaidó, como resposta ao apagão que deixou todo o país às escuras na quinta-feira. "Convoco todo o povo venezuelano a expressar-se massivamente nas ruas contra o regime usurpador, a corrupção e a incapacidade que pôs em perigo o nosso país", escreveu no Twitter.

"Acreditam que vão meter-nos medo hoje, mas vão ter uma surpresa do povo e das ruas. Pretendem jogar com o desgaste, mas já não têm forma de conter um povo que está decidido a concretizar o fim da usurpação. E hoje vamos demonstrá-lo nas ruas. Atentos", tinha escrito antes do protesto.

Marcha a favor de Maduro

O presidente também convocou os seus apoiantes para as ruas e milhares vestiram-se de vermelho. A marcha começou junto da sede da CANTV (serviço de telefone e internet estatal), na avenida Libertador, e acabou no Palácio de Miraflores.

Maduro atribuiu a culpa do apagão elétrico aos EUA, indicando que vai fornecer provas às Nações Unidas dentro de dias.

"Esta é a maior agressão do imperialismo contra a Venezuela. Temos vindo a conter e a derrotar, dia a dia, semana a semana, todas as agressões desde 5 de janeiro", disse Maduro aos seus apoiantes. "A 23 de fevereiro tentaram violar a nossa soberania e derrotámo-los. Não passaram, nem passarão", acrescentou Maduro.

O presidente, cuja reeleição em maio não foi reconhecida por parte da comunidade internacional que considerou que as eleições não foram livres, disse ainda que as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas recorreram ao seu grito de guerra neste momento de necessidade. "Leais sempre, traidores nunca", lembrou Maduro, reiterando que os venezuelanos vão derrotar todo o tipo de agressões.

Maduro diz que o país está "encaminhado no caminho da paz, estamos encaminhados na recuperação económica, no fortalecimento de todos os setores para a prosperidade do país".

Segundo o presidente, os ataques contra a rede elétrica "foram feitos com alta tecnologia que gerou interrupções no processo de transmissão". E que os responsáveis serão encontrados e julgados. Indicou ainda que os serviços já tinham recuperado 70% do fornecimento elétrico no país quando sofreram outro ataque.

O presidente boliviano, Evo Morales, aliado de Maduro, denunciou no Twitter um "cobarde atentado terrorista", num contexto de "sanções de ingerência" dos EUA. "Reiteramos que os povos da América Latina só desejamos viver livres de qualquer ameaça", escreveu.

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