Michel Temer já escolheu o novo patrão das polícias

Raul Jungmann, que chefiou quatro ministérios ao longo da sua carreira, vai ocupar a recém-criada pasta da Segurança Pública. Para a Defesa, entra pela primeira vez um militar.

O governo queria uma estrela à frente do recém criado Ministério da Segurança Pública, a nova menina dos olhos do presidente da República Michel Temer, que vê na nova pasta a solução para a sua crise de popularidade e, quem sabe, uma alavanca para uma eventual candidatura ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro. Pensou em Nelson Jobim, antigo ministro da Defesa e da Justiça e ex-juiz do Supremo Tribunal Federal, e em José Mariano Beltrame, que liderou com sucesso a segurança do Rio de Janeiro no início da década. Perante a recusa dos dois, esqueceu o nome de impacto, virou-se para o lado e optou pelo seu eficiente e discreto atual ministro da Defesa.

Raul Jungmann, de 65 anos, não é Jobim, nome tão consensual à esquerda e à direita que no ano passado, quando a queda de Temer esteve em cima da mesa, foi dado como solução de compromisso na presidência da República até novas eleições. Nem é Beltrame, que no seu auge ganhou o epíteto de Capitão Nascimento em alusão à personagem incorruptível dos filmes Tropa de Elite. Mas o político natural do Recife, capital de estado de Pernambuco, ganhou o respeito dos militares em pouco mais de um ano no Ministério da Defesa, tem bom trânsito no Congresso Nacional, onde foi deputado entre 2003 e 2011 e depois de 2015 até ter entrado para o governo. Além de possuir uma larga experiência ministerial.

Quadro relevante do Partido Popular Socialista, fundado em 1992 por dissidentes do Partido Comunista Brasileiro, Jungmann foi ministro de duas pastas na área da agricultura do governo de Fernando Henrique Cardoso, de 1996 ate 2002, além de ter desempenhado outros cargos no executivo do então líder do Partido da Social Democracia Brasileira e do seu antecessor, Itamar Franco. Antes fora voz ativa no "Diretas Já", movimento no início dos anos 80 que reivindicava eleições livres.

Já com Temer, ganhou preponderância durante a "Guerra da Rocinha", um conflito em outubro do ano passado entre fações da organização criminosa que controla o tráfico de droga na maior favela do Brasil. A meio da intervenção militar no local disse uma frase que motivou críticas públicas - "quando aqui chegamos havia uma guerra, agora acabou a guerra, ainda há uns tiroteios mas isso faz parte da história desta comunidade" - mas não dentro do governo, onde aumentou o seu prestígio perante o presidente da República. Foi mesmo dos principais conselheiros de Michel Temer antes da tomada de decisão de intervir militarmente no Rio e de criar o novo ministério, que acabará por dirigir.

Agora Jungmann tem como missão unir todas as polícias do país, incluindo a civil e a militar. Se for bem-sucedido na sua gestão, dizem colaboradores próximos, sonha em seguir ministro em 2019, já após a tomada de posse do sucessor de Temer. Jungmann é, entretanto, um dos políticos citados na delação da construtora Odebrecht como beneficiário de verbas não declaradas de campanha.

A transição de Jungmann para a Segurança Pública deixou vazia durante algumas horas a pasta da Defesa. Esta será ocupada por um militar, segundo anúncio na madrugada de ontem, pela primeira vez na história da sua criação, no consulado de Fernando Henrique Cardoso, em 1999. Joaquim Silva e Luna, general de 69 anos, secretário-geral do ministério durante a gestão de Jungmann, será ministro interino da Defesa. É o quarto interino do governo Temer, que conta com 29 ministérios e já fez 18 trocas de ministros em menos de dois anos de mandato. Até ao mês de abril, o presidente deve substituir mais 11 ministros - aqueles que vão concorrer a cargos nas próximas eleições e que, por lei, devem sair de funções públicas seis meses antes do sufrágio.

Horas depois de Jungmann ter sido anunciado, o general Braga Netto, que comanda a intervenção militar no Rio de Janeiro, dizia que a cidade "é um laboratório para todo o Brasil". "A nossa missão é recuperar a capacidade operativa dos órgãos de segurança pública e baixar os índices de criminalidade do estado do Rio de Janeiro", prosseguiu Netto.

Nos primeiros dias de intervenção, causaram alguma controvérsia as operações de busca coletiva em favelas, não permitidas por lei, e geraram espanto os dados sobre a estrutura de segurança do Rio, como por exemplo, o facto de haver mais sargentos (cerca de 15 mil) do que soldados (à volta de 14 mil) nas forças policiais. "Primeiro vamos manter toda a sistemática, depois logo vemos o que mudar", concluiu o general.

São Paulo

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