"Metiam um foguetão no espaço e depois não conseguiam fazer um ferro de passar"

Almoço com José Milhazes, onde o jornalista conta a experiência de quatro décadas de vida em Moscovo, onde estudou, casou e criou dois filhos. Fala do fracasso da URSS e critica Putin.

O restaurante é de comida russa na Rua de São José, coração de Lisboa. Acabam de ser servidas duas saladas de arenque, chamadas schuba, escolha de José Milhazes que imito. "Chernii khleb", pede o jornalista, hoje colunista da SIC, Antena 1 e Observador, mas famoso por cá graças às reportagens na TSF nos tempos finais da União Soviética. "Disse para nos trazer pão preto, chernii khleb. É de centeio", explica com a naturalidade de alguém que viveu quatro décadas em Moscovo até voltar a Portugal no ano passado.

Confessa-se agradado com o Stanislav, um restaurante escolhido pelo DN e que não conhecia. "É comida típica russa. E de qualidade", dirá Milhazes já no final da refeição, duas horas a falar sobre a Rússia de hoje, mas sobretudo dessa União Soviética onde se formou em História, conheceu a mulher e criou dois filhos. Para acompanhar, um Adega do Monte. "Deixei de beber vodca." Não faz mal, um tinto alentejano vai muito bem com a comida russa, como se percebe pelo sucesso crescente das nossas exportações de vinho para o país de Vladimir Putin, não abrangidas pelas (contra) sanções à União Europeia.

Ainda antes de se lançar a uma solyanka (espécie de sopa da pedra, eu prefiro a borsch, de beterraba), Milhazes sintetiza a vida até sair de Portugal aos 19 anos: nasceu em 1958 na Póvoa de Varzim, numa família de pescadores. Saiu-se bem na escola, mas faltava aos pais condições para pagar mais estudos. Como militante da União dos Estudantes Comunistas foi-lhe proposto ir para a União Soviética. Aproveitou a oportunidade, mas foi a ideologia que pesou no entusiasmo de partir. "O meu controleiro era o Pina Moura", diz, a rir, referindo o dirigente do PCP que chegou a ministro do PS e a presidente da Iberdrola. Era o final dos anos 1970, de grande influência dos comunistas, prestigiados pela luta ao salazarismo.

Milhazes recorda-se na perfeição da chegada à União Soviética, "até das horas e dos minutos". E solta uma pequena gargalhada. "Foi às 19.40 do dia 10 de setembro de 1977. Foi uma chegada um tanto ou quanto paradoxal. Por um lado, estava a aterrar no paraíso terrestre e, por outro, começava a enfrentar problemas que não estavam muito conformes à entrada num paraíso. Por exemplo, o controlo de passaportes e de bagagens, que era total e absoluto. Mas, nessa altura, eu justificava esse, digamos, trabalho árduo dos guardas fronteiriços soviéticos com o facto de ser preciso estar atento às manobras da CIA", conta, admitindo que só mais tarde começaria a duvidar do sistema comunista. "Sabes, era jovem. E a juventude é um daqueles períodos em que vivemos de uma forma mais intensa", explica Milhazes, já num tutear combinado no início da conversa, o habitual entre camaradas de profissão.

Confesso que só estive uma vez em Moscovo, e já na Rússia de Putin. E pergunto a Milhazes qual a impressão, ao fim de tantos anos, que trouxe dos soviéticos, dos russos. "O primeiro contacto é sempre um bocado difícil: estrangeiros, naquela altura, não eram muitos, e a propaganda não ajudava. Um estrangeiro era um potencial espião. Mas quando se estabelecia uma relação de amizade era para durar. Tenho amigos que fiz no primeiro ano em que fui para a Rússia e que fizeram tudo o que eu precisava, em momentos difíceis para mim, sem que eu pedisse sequer. Ou seja, no fim de contas não há povos bons e maus. Dentro de cada povo há pessoas boas e pessoas más", diz, ele que se tem multiplicado agora em livros em que é notória a admiração pela Rússia mas também em artigos em que critica, e duramente, o presidente Putin.

Para prato principal, Milhazes escolhe pelmeni, almofadinhas de massa recheadas com carne. "No mínimo, três tipos de carne", explica. Por cima, smetana, natas amargas. Opto por uma velha fixação, que já experimentei em visitas à Europa de Leste: o bife tártaro. Quando pergunto ao meu convidado se há uma forma certa de misturar a carne crua picada com o ovo, os cogumelos e os vegetais, descubro que não aprecia o prato. "Nunca gostei de carne crua. Mas tem muito que ver com a Rússia, dos contactos com os tártaros. Era algo que comiam os nómadas. E os soldados." A ideia é misturar e barrar sobre chernii khleb, o tal pão preto. Resulta.

Voltamos às memórias da vida na União Soviética. "Tive a felicidade de encontrar pessoas muito boas, de fazer grandes amigos - não só russos mas também judeus, ucranianos, estónios, até porque a minha mulher é da Estónia. Criou-se uma imagem, que é da Guerra Fria, de que os russos são muito frios, fechados. Isso não corresponde à verdade. Os russos são, depois de nos aceitarem, de uma hospitalidade única", conta.

O choque com a realidade soviética acentuou-se com o nascimento dos filhos, ela hoje com 32, ele com 30. Depois de ter feito o curso de História, e casado com uma estudante de Filosofia, Milhazes começou a trabalhar como tradutor. Entre as encomendas estavam alguns clássicos, mas também livros de propaganda. No apartamento que lhe cedeu a empresa de traduções enfrentou desafios tão básicos como comprar fraldas, que só havia de pano. "Não era só a questão das fraldas, que tinham de se lavar, desinfetar. Era a alimentação das crianças. Ou, por exemplo, tinha de se andar com um fio no bolso das calças para comprar papel higiénico, porque, quando aparecia, a gente comprava logo 10 ou 20 rolos, metia num fio e depois levava à volta do pescoço, como uma condecoração. Pronto, este tipo de coisas..."

Pergunto-lhe se hoje se ri disso. "Claro que me rio, mas naquela altura via-se que o sistema não estava criado para as pessoas. Faziam comida para astronautas mas comida para crianças, enlatada, era uma desgraça." E prossegue: "Metiam um foguetão no espaço e depois não conseguiam fazer um ferro de passar que funcionasse."

Milhazes ficou surpreendido com o ritmo da perestroika de Mikhail Gorbachev. E sobretudo com o fim súbito da União Soviética em 1991. "Costumo dizer", sublinha o homem que em jovem chegou a pensar ser padre, "que era preciso acreditar em Nossa Senhora de Fátima para esperar uma queda tão brusca da União Soviética. Demorou seis anos, foi uma coisa vertiginosa. Havia problemas. Inicialmente, eu pensava que fossem pontuais. Depois começa-se a sentir que não. Eram estruturais."

O jornalismo aparece em 1989. De visita a Lisboa, é apresentado a Emídio Rangel. O fundador da TSF quer um correspondente em Moscovo, adivinhando que o mais surpreendente está por vir. E Milhazes descobre uma vocação. Pergunto--lhe sobre o golpe de agosto de 1991 contra Gorbachev, por parte da velha guarda, e de como o presidente russo, Boris Ieltsin, subiu a um tanque em desafio aos golpistas. "No dia 19, aquando da entrada dos tanques em Moscovo, estava numa das praças principais, para ver se os tanques iam passar por cima dos manifestantes ou não. E quando não passaram..."

Depois da TSF vem a colaboração com o Público. E o choque com o PCP. "Os atritos começam a ser cada vez maiores. Por ser jornalista e por algumas ideias com que não estão de acordo e "porque é que escreveste isto?" e "po-po-po", o costume. E chegas a determinado ponto em que chega. Chega! E eu cheguei à reunião do PC e disse: "Olhem, a partir de agora, deixo de ser militante do PC"." Aconteceu, recorda-se Milhazes, em maio de 1991.

Saltamos a sobremesa, apesar de haver blinis, crepes recheados com ginja e cobertos por natas e farripas de chocolate. O café vem para a mesa. Vai mais um? Milhazes aceita, enquanto conta como foi pensada a decisão de vir para Portugal, em 2015, e como as colaborações jornalísticas têm de ser somadas a traduções para ganhar a vida. Fala com orgulho dos livros que tem publicados, um sobre as relações entre Portugal e a Rússia, outro intitulado O Favorito Português de Pedro o Grande e agora o Rússia e Europa, que faz parte da coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Defende, aliás, que "há mais em comum entre um português e um russo do que com um alemão". Doutorado em História, diz que gostava de dar aulas, mas que as portas recusam-se a abrir. "A minha especialidade é História da Rússia . E aqui parece que a História da Rússia não é suficientemente importante para que eu possa lecionar numa universidade..."

Atende o telemóvel. Fala em russo. "Era a minha mulher", justifica. A conversa não pode terminar sem se falar de Putin. "É o coveiro da Rússia. Putin vai conduzir a Rússia à desintegração, a continuar a política e ele a continuar à frente da Rússia com este tipo de política. Não tem meios para a ambição. E isso é o fundamental. E mesmo que continue por muitos anos a conduzir a Rússia, não cumpriu uma promessa que era fundamental, a modernização do país."

Volta a falar ao telefone. Siiri está a chegar de carro. Milhazes despede-se do pessoal do restaurante em russo. Percebo spaciba, "obrigado".

Stanislav Avenida

2 saladas schuba

1 sopa solyanka

1 sopa borsch

1 pelmeni

1 tártaro de vitela

2 pães escuros

1 Adega do Monte

4 cafés

2 águas

Total: 81 euros

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