Metade do país dá luz verde a Erdogan para mudar Turquia

O "sim" às alterações constitucionais que reforçam os poderes do presidente venceu com 51,4% dos votos. Os dois principais partidos da oposição querem recontagem

A Turquia vai mudar. O país aprovou as alterações constitucionais defendidas pelo líder Recep Tayyp Erdogan. O "sim" venceu o "não" com 51,4% contra 48,6%. "Estou tão feliz que tenho lágrimas nos olhos", dizia ontem um apoiante do presidente turco junto à sede do AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) em Ancara. Com esta votação, a partir de 2019 o país deixará de ser uma república parlamentar e passará a regime presidencialista. O cargo de primeiro-ministro será abolido e o presidente acumulará as funções de chefe de Estado e de governo. Fazendo as contas, Erdogan pode agora, assim ele queira e os turcos também, permanecer no cargo até 2029 com poderes reforçados.

"A mais importante mudança na história da Turquia", resumiu ontem o presidente turco, em conferência de imprensa, agradecendo a votação do povo. Minutos antes de Erdogan falar à nação, tinha sido o primeiro-ministro, Binali Yildirim, desde a varanda da sede do AKP, a dirigir-se aos apoiantes. "Demos hoje a melhor resposta possível", afirmou, em alusão à tentativa falhada de golpe de Estado do passado mês de julho. "Com esta votação, a democracia turca está mais forte e mais madura. Ninguém perdeu. A Turquia ganhou", acrescentou ainda o chefe do governo.

O "sim" conseguiu mais 1,3 milhões de votos do que o "não". Em termos percentuais, entre os turcos residentes no exterior a diferença percentual foi mais expressiva do que nos votos domésticos: 58,7% contra 41,3%. A oposição, porém, contesta estes resultados e promete não baixar os braços tão cedo. "Até que as nossas objeções sejam respondidas na totalidade este não é um resultado final", garantiam ontem, no Twitter, os pró-curdos do HDP. A principal força opositora de Erdogan, o CHP (Partido Republicano do Povo) anunciou, perto das 21.00 em Ancara, que irá pedir a recontagem dos votos. Em causa, dizem, estão muitos boletins que terão alegadamente sido colocados nas urnas sem estarem devidamente carimbados.

Apesar dos cânticos de vitória do lado do "sim", alguns responsáveis do AKP estavam à espera de uma margem mais folgada. "Houve menos sins do que estávamos à espera", disse aos jornalistas o vice-primeiro-ministro Veysi Kaynak quando a contagem já caminhava para o final.

Ainda que nos dois casos a percentagem tenha sido a mesma (na casa dos 51%), comparando os resultados de ontem com o das eleições de 2014, houve mais cinco milhões de "sins" do que votos em Erdogan nas presidenciais desse ano. Isto justifica-se pelo facto de a afluência às urnas - que ontem ficou acima dos 85% - ter sido maior do que em 2014 (74,1%).

A radicalização e a personalização do discurso na campanha transformou a votação de ontem num referendo à figura do presidente. Os resultados parecem corroborar essa leitura. Votou "sim" quem está com Erdogan. E votou "não" quem está contra ele. O "sim" ganhou onde Erdogan costuma vencer e perdeu nas zonas em que Erdogan é mais fraco. O mapa que mostra a divisão do país entre "sim" e "não" é quase decalcado do mapa com os resultados das presidenciais de 2014. As urnas, mais uma vez, mostraram a coexistência de três Turquias. De um lado - a dizer "não" no referendo - está a Turquia laica, urbana e litoral, que mora de cara voltada para os mares Mediterrâneo e Egeu. Do outro lado - também a rejeitar as mudanças -, está o Curdistão, a fazer fronteira com a Síria, com o Iraque e com o Irão. No resto do país, a votar que "sim" com entusiasmo, está a Turquia de Erdogan: conservadora, rural, religiosa. Os três principais centros urbanos do país disseram que "não" às intenções do presidente: Istambul (51,3%), Ancara (51,1%) e Izmir (68,8%). Nesta primeira cidade, noticiava a agência Reuters ontem à noite, em vários bairros os habitantes protestaram, à janela de suas casas, batendo em tachos e panelas quando Erdogan reclamou vitória.

Com este resultado, a Turquia trocará um regime parlamentar (mais próximo do português) por um presidencialista (semelhante ao norte-americano). O presidente terá poderes para fazer leis, elaborar o Orçamento e nomear ministros. Ao mesmo tempo será também responsável pela escolha de quatro dos 13 juízes do Supremo. As eleições presidenciais e parlamentares passam a ser disputadas no mesmo dia, de cinco em cinco anos.

No entender de Erdogan e dos seus, estas mudanças são fundamentais para o futuro da Turquia, que precisa de um Estado forte e de estabilidade política para responder aos desafios e combater o terrorismo. Para os críticos, alarga-se ainda mais a passadeira vermelha para que Erdogan possa exercer o poder de forma autocrática.

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