Metade da direção bate com a porta, mas Sánchez não sai

Os restantes membros da comissão executiva do PSOE vão pedir que o comité federal convoque um congresso extraordinário

"Hoje em dia o PSOE é como um bom filme de ação: não se sabe o fim, mas todos sabem que algo vai acontecer e que vai haver sangue". A frase é do editor de Política do jornal ABC, Juan Fernández-Miranda, e resume o clima que por estes dias se vive entre os socialistas espanhóis.

A guerra está aberta. De um lado, o secretário-geral Pedro Sánchez e os seus acólitos. Do outro, os críticos da atual direção (ver coluna), barões do partido, aparentemente enfileirados atrás de Susana Díaz, a presidente da Andaluzia.

Ontem, a tensão no enredo cresceu exponencialmente com a demissão de 17 membros da Comissão Federal Executiva. A debandada em bloco tinha um objetivo, que era forçar a queda de Pedro Sánchez e assim evitar que o secretário-geral levasse avante a intenção de relegitimar a liderança através de diretas e de um Congresso. Aparentemente o tiro saiu pela culatra. Os estatutos do PSOE são pouco claros e Sánchez não se deu por destituído com a saída de mais de metade da direção. Em conferência de imprensa, César Luena, o número dois do partido, explicou que a Comissão Executiva reunirá hoje sem os membros demissionários e irá propor ao Comité Federal - que reúne no sábado - a convocatória de um Congresso extraordinário para a eleição de uma nova Comissão Executiva.

São muitas as questões em aberto. Pode o Comité Federal marcar o congresso apenas para depois das eventuais terceiras eleições? Será apresentada uma moção de censura que faça cair Pedro Sánchez? Nesse caso, em princípio, o Comité Federal teria que designar uma comissão gestora que ficaria à frente dos destinos do partido até ao Congresso. Pode essa comissão gestora, com um mandato do Comité Federal, abster-se numa eventual nova tentativa de investidura de Mariano Rajoy, líder do Partido Popular, e assim permitir que haja governo?

Os próximos capítulos serão decisivos para o desfecho da série. "Algo vai acontecer e vai haver sangue". Resta saber quem irá vencer o duelo e quem irá sangrar mais.

Os ex-líderes do partido também afiam as facas contra Sánchez e tomam o lugar na trincheira dos críticos. Aquele que mais tem dado o peito ao manifesto é Felipe González. As 17 demissões deram-se depois de o dia ter começado com um novo disparo do ex-chefe de governo (1982-96). Numa entrevista à Cadena Ser, González disse sentir-se "enganado" e "defraudado" por Sánchez, revelando que o secretário-geral lhe garantiu, em julho, que se absteria na segunda votação de investidura de Mariano Rajoy.

Apesar dos ataques a Sánchez, González também não é meigo quando fala do líder do Partido Popular. Diz que "Rajoy é o único animal que avança sem se mover", mas, ainda assim, entende que o PSOE, se não consegue governar, deve permitir que outros governem.

Sánchez respondeu a González primeiro em comunicado e depois numa entrevista ao eldiario.es. Garante que respeita as opiniões de todos, mas que não é seu timbre revelar conversas privadas. Ao mesmo tempo, aproveitou para apontar a mira à presidente da Andaluzia: "Felipe González está no bando da abstenção e eu estou no bando do voto contra Mariano Rajoy com o intuito de formar um governo alternativo. Gostava de saber em que bando está Susana Díaz".

No sábado, na reunião do Comité Federal, jogar-se-á muito do futuro dos socialistas. São 295 os membros que compõem o órgão máximo entre congressos. Na contagem de soldados ainda não é claro qual dos bandos está em maioria. Essa contabilidade será determinante para perceber a definição do calendário e o sucesso ou insucesso de uma eventual moção de censura.

"A situação interna no partido chegou a um tal nível de tensão que vejo muito difícil a reconciliação entre bandos", explica ao DN Cristóbal Herrera, analista da consultora política Llorente y Cuenca. O politólogo avança ainda com uma outra contabilidade: "Rajoy necessita da abstenção de 11 deputados socialistas indignados. E, na terça-feira, na reunião da bancada parlamentar, houve 11 deputados que usaram a palavra para criticar Pedro Sánchez".

No cinema, muitas vezes, há reviravoltas inesperadas no enredo e, afinal, "o PSOE é como um bom filme de ação".

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