Messi da política belga quer chegar ao poder

Líder do partido de esquerda PTB, que teve uma subida meteórica nas sondagens, promete, para chegar ao governo, uma rutura com "a política enferrujada do passado"

Na Bélgica há um partido à esquerda da esquerda que quer chegar ao poder. O Partido dos Trabalhadores (PTB) assume-se como uma força "alternativa" e quer pôr um ponto final na "política enferrujada" do passado. Não para de subir nas sondagens.

"O nosso objetivo é chegar ao poder", diz ao DN Raoul Hedebouw, a mais recente estrela do partido. Com 39 anos, chamam-lhe o Lionel Messi da política belga e dizem que é o principal responsável pela ascensão meteórica do PTB. Ele aprecia a metáfora futebolística, mas diz que os bons resultados se devem, na realidade, ao "trabalho de equipa".

Há dois anos, o PTB elegeu dois deputados para o parlamento da Valónia, a região francófona da Bélgica. Inédito. Desde aí, ganhou folgo. Fechou 2016 com 18,3% das intenções de voto, próximo dos 23,1% do partido Liberal do líder do governo Federal, Charles Michel, e não muito longe dos 25,4% dos Socialistas que governam a região sul do país.

Numa autoanálise, Hedebouw considera que a "melhoria na comunicação do partido e a concretização de um programa próprio" explicam a ascensão. A nova "estratégia de comunicação" passa por um discurso "moderno" e polido. Sem referências a Estaline, Mao Tsé-tung e sem expressarem o apoio à Coreia do Norte, como na "mensagem enferrujada" do passado.

Dave Sinardet, professor de Ciência Política da Universidade Livre de Bruxelas, entende que a "comunicação, nas redes sociais", explica apenas uma parte e que "a explicação mais relevante para o sucesso do PTB" é a perda de confiança dos eleitores nos partidos tradicionais.

Hedebouw também pensa que "a crise da social-democracia europeia deixou mais gente de esquerda à procura de uma alternativa. E na Bélgica encontram no PTB".

De partido esquecido, o PTB passou a ser temido pela própria esquerda. O socialista Paul Magnette, líder do governo regional da Valónia, acusa-os de ser "um partido do contra", com o qual é impossível aprovar o que quer que seja.

Chegar ao governo

Hedebouw sabe, porém, justificar as opções do PTB, que tornam difícil qualquer entendimento com os partidos tradicionais, pois foram eles "os arquitetos da austeridade". Por isso "esqueçam" alianças com o PTB. Mesmo num país em que o consenso político é "uma obri-gação" para quem ambiciona o poder.

Hedebouw admite que o PTB estaria disponível para "discutir" a entrada num governo. "O problema é: com quem? Nós temos dito sempre que não subiremos ao poder com partidos que são os arquitetos do tratado europeu da austeridade. Se não encontrarmos outro partido, jogaremos o nosso papel na oposição", assume Hedebouw, sublinhando, porém, que "se os partidos da social-democracia reverem as suas políticas de austeridade, poderemos sempre discutir. Isso é claro".

Poder na oposição

Muito recentemente, o Partido dos Trabalhadores da Bélgica forçou o governo da Valónia, liderado pelo socialista Paul Magnette, a assumir uma posição nada consensual no mainstream europeu, que quase levou à rotura do acordo de comércio com o Canadá (CETA), que estava praticamente fechado.

"Esse é um exemplo de que nós já conseguimos executar as nossas políticas, a partir da oposição, obrigando o Partido Socialista a assumir responsabilidades", afirma Hedebouw, classificando como "vergonhosa" a mudança de posição dos socialistas da Valónia, que se alinharam com o resto da Europa, "ao fim de três dias".

O politólogo Dave Sinardet entende que a postura "populista" do PTB, perante eleitores "descontentes com os partidos tradicionais", moldou Magnette e levou-o a adotar algumas posições mais controversas, durante as negociações do CETA, para "dizer que os socialistas ainda são um partido de esquerda".

Janis A. Emmanouilidis, diretor de investigação do Centro de Estudos Europeus, nota que "o problema que os partidos tradicionais estão a enfrentar" prendem-se com a "dificuldade em apresentarem uma contranarrativa ao populismo" limitando-se a "copiar a mensagem ou o modelo, dos populistas".

Isto "conduzirá à fragmentação do cenário político" na Europa "com um número crescente de novos partidos, com papéis fortes, nos parlamentos nacionais", aponta, considerando que há "o perigo" de a capacidade política da União Euro- peia para conseguir compromissos" ser afetada.

Populismo

"Não somos populistas. Somos marxistas. Não dizemos que o problema é uma elite. Dizemos que há um problema numa camada social", expressa Raoul Hedebouw, preferindo o epíteto "popular", já que "ser popular é estar perto do povo. A política deve ser bem-humorada, fresca, descolada de uma mensagem já muito ferrugenta", defende, referindo-se ao passado do partido.

Hedebouw tem dado a cara pelo partido. Reconhece que "o gosto por falar e por se dirigir às pessoas e o gosto pelo debate político" têm sido os seus contributos, embora rejeite ser a causa principal de tanto sucesso, nem quando lhe chamam o Lionel Messi da política belga. "Se não houvesse os outros jogadores, também não haveria Messi. O jogo é com 11, para que o Messi possa jogar", ironiza.

Mas, dentro do próprio partido, há quem o veja numa ascensão até à liderança, considerando-o a nouvelle etoile da política belga. Hedebouw aparece consecutivamente nos media nacionais, em debates políticos. Com "humildade", Hedebouw rejeita novamente o petit nom, dizendo que "na Bélgica há 11 milhões de estrelas, que são todos estes trabalhadores que produzem a nossa riqueza e permanecem no seu canto".

Em Bruxelas

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