Merkel e Macron à procura da sintonia franco-alemã

Líderes quiseram dar imagem de união nas reformas europeias, mas não conseguiram esconder que não coincidem nas prioridades. Em junho há conselho de ministros conjunto

A construção europeia foi o tema de conversa entre Angela Merkel e Emmanuel Macron num edifício em obras no centro de Berlim. Mas se a anfitriã apelou ao espírito de compromisso sobre a reforma da zona do euro, o presidente francês voltou a destacar a importância da solidariedade entre os membros da união monetária.

A escolha do local do encontro entre a chanceler alemã e o presidente francês para discutir o futuro da União Europeia não foi fruto do acaso: o Humboldt Forum, um futuro museu que vai acolher os atuais museus de etnologia e de arte asiática. O simbolismo está à vista. Ali viveram reis e imperadores no Palácio de Berlim. O edifício foi destruído em parte por bombardeamentos dos aliados na II Guerra Mundial, e demolido em 1950 pela Alemanha de Leste. E a partir de 2019 será um pólo cultural com a ambição de figurar entre os mais importantes museus do mundo.

Os dois líderes anunciaram que vão apresentar uma frente unida na reunião de junho dos líderes da UE sobre a reforma da zona euro, que "ainda não é suficientemente à prova de crise", segundo Merkel.

Macron foi convencer a chefe do governo alemão da necessidade da criação de um orçamento autónomo para apoiar o investimento e o crescimento e a criação do cargo de ministro das Finanças da união monetária. Na terça-feira, tinha apresentado as suas ideias sobre o futuro da Europa no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e mais tarde debateu-as com concidadãos na pequena cidade de Épinal.

Já a chanceler insistiu na primazia dos "esforços nacionais" por parte dos respetivos governos para realizarem poupanças orçamentais e reformas para tornar as economias mais competitivas. "Concordamos na necessidade de solidariedade na Europa, mas também que a competitividade é necessária", disse.

Se Macron descreveu a reconstrução da zona euro como o "coração" do seu projeto, Merkel mencionou o tema em último na lista de reformas necessárias na Europa. A política migratória e de asilo comum, por exemplo, estão no topo.

A união bancária é outro projeto considerado urgente por Macron para permitir a gestão conjunta de falências bancárias. Mas Angela Merkel reiterou a recusa do seu país na criação imediata de um fundo europeu de garantia de depósitos. A Alemanha não rejeita a ideia, mas "não num futuro próximo". Berlim exige que em primeiro lugar os bancos de todos os países da zona euro sejam saneados a nível nacional.

"Não nos falta trabalho e também não nos falta vontade, como devem reparar", disse Macron, que relembrou a importância de combater as forças populistas na Europa: "Vivemos num momento de aventura europeia que é verdadeiramente único. Também dentro dos nossos países há sérias dúvidas e fortes visões nacionalistas."

Emmanuel Macron e Angela Merkel vão na próxima semana a Washington encontrar-se com Donald Trump, em viagens separadas. As relações transatlânticas, os acordos de comércio e a guerra na Síria serão alguns dos temas a abordar.

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