Merkel disposta a acelerar entrada da Turquia na UE

Discurso da chanceler em Istambul foi diferente do habitual, numa tentativa de garantir apoio de Ancara para travar refugiados

"Sempre fui contra a entrada da Turquia na União Europeia, o presidente [Recep Tayyip] Erdogan sabe disto, e continuo a ser." A frase é da chanceler alemã, Angela Merkel, e foi proferida há menos de duas semanas. Mas ontem em Istambul, à medida que aumenta a pressão em Berlim por causa da crise dos refugiados, o seu discurso foi diferente. A chanceler mostrou-se disposta a acelerar o processo de forma "mais dinâmica", dizendo que a adesão da Turquia é uma "questão em aberto".

"A Alemanha está preparada para abrir neste ano o capítulo 17 [política económica e monetária] e iniciar preparações para os capítulos 23 [sistema judiciário e direitos fundamentais] e 24 [justiça, liberdade e segurança]. Podemos falar sobre os detalhes", afirmou Merkel, que ontem efetuou uma visita de um dia a Istambul, tendo-se reunido com o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu e com o presidente Erdogan. A visita surge em plena campanha eleitoral para as legislativas, que se realizam a 1 de novembro, tendo sido criticada pela oposição turca.

Erdogan indicou que pediu também à França, ao Reino Unido e à Espanha o apoio para acelerar as negociações para a entrada na União Europeia (UE). Merkel ofereceu ainda ajuda financeira - não foram ditos valores, mas a UE terá oferecido três mil milhões de euros - e o acelerar do processo de liberalização dos vistos para os turcos em troca do apoio do país para travar o fluxo de refugiados que tenta entrar na Europa. A chanceler espera que Ancara consiga manter na Turquia os dois milhões de refugiados sírios que atualmente aí vivem e aceite acolher os refugiados cujo pedido de asilo tenha sido rejeitado na UE.

"Penso que usámos a crise que estamos a passar por causa de um movimento desordenado e descontrolado de refugiados para voltar a alcançar uma cooperação mais próxima em vários temas entre a União Europeia e a Turquia e entre a Alemanha e a Turquia", afirmou Merkel na conferência de imprensa conjunta com Davutoglu. "A nossa prioridade é prevenir a imigração ilegal e reduzir o número de pessoas que atravessam as nossas fronteiras. Nesse sentido, tivemos negociações muito frutuosas com a UE recentemente", indicou o primeiro-ministro turco.

Merkel esteve também reunida com o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu

Davutoglu alertou ainda para o risco de uma nova vaga de refugiados, com o aproximar dos combates da cidade síria de Aleppo, voltando a defender a criação de uma zona-tampão no Norte da Síria para evitar a sua entrada na Turquia.

Problemas em casa

O apoio à União Cristã Democrata (CDU) e à aliada da Baviera (CSU) atingiu o valor mais baixo em mais de dois anos, com os alemães a questionarem a capacidade do governo de Merkel de fazer face à crise dos refugiados. As autoridades alemãs esperam a entrada, neste ano, de 800 mil a um milhão de refugiados no país e a chanceler está a ser pressionada, incluindo pela CSU, a adotar uma posição mais firme contra as novas entradas. Os conservadores têm 37% de apoio segundo uma sondagem da Emnid. Há um mês tinham 41%. Pelo contrário, a Alternativa para a Alemanha (extrema-direita) subiu um ponto percentual numa semana, para os 7%.

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