Merkel apoia May: artigo 50 não deve ser invocado à pressa

Chefes de governo britânica e alemã reuniram-se em Berlim. Antes, no parlamento em Londres, Margaret Thatcher desceu sobre Theresa May

Há quase 11 anos, em novembro de 2005, a recém-eleita chanceler da Alemanha, Angela Merkel, desembarcou no Reino Unido para reunir-se com Tony Blair, o então primeiro-ministro britânico. Rapidamente foi apelidada de Margaret Thatcher germânica. Ontem, Theresa May aterrou em Berlim e dela já se disse que é a Merkel britânica. É a primeira vez que Reino Unido e Alemanha são liderados ao mesmo tempo por mulheres. As duas líderes encontraram-se ontem na capital alemã, naquela que foi a primeira visita oficial de May como chefe do governo britânico.

Depois das formalidades habituais, May e Merkel apareceram lado a lado para uma conferência de imprensa conjunta, antes de se recolherem para conversar durante um jantar de trabalho.

A primeira-ministra britânica, perante os jornalistas, voltou a reafirmar que "brexit significa brexit", mas que o Reino Unido não irá ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa antes do final do ano, uma vez que o governo precisa de tempo para se preparar para as negociações.

Apesar de noutras ocasiões Merkel ter manifestado que a saída deve acontecer o mais rápido possível, desta vez mostrou-se compreensiva. "Ninguém quer fazer as coisas de forma leviana. Penso que é absolutamente necessário que haja um tempo de preparação", sublinhou a chanceler alemã.

Quando uma jornalista germânica quis saber o porquê de Boris Johnson ter sido escolhido para ministro dos Negócios Estrangeiros - tendo em conta o longo historial de insultos com que o ex-mayor de Londres já brindou muitos dos atuais líderes mundiais - May fugiu à questão e limitou-se a dizer que o executivo é composto "por uma equipa de ministros que irá levar por diante as opções do governo".

Merkel, por seu turno, disse estar confiante que o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros cooperará com os outros governantes.

As líderes fizeram questão de sublinhar os "fortes laços" que unem os dois países e referiram que iriam conversar sobre outros temas que marcam a atualidade: refugiados, terrorismo, Turquia, conflito entre a Rússia e a Ucrânia e a cimeira do G20, na China, nos dias 4 e 5 de setembro, onde ambas estarão presentes.

May e Merkel concordaram que são parecidas. A primeira disse que ambas são mulheres que querem "trabalhar e levar as coisas para a frente". A segunda anuiu. Curiosa é a alcunha que alguma imprensa germânica usou para referir-se a Theresa May: "senhora das ruínas", o nome que era dado às mulheres que ajudavam a limpar os destroços nas cidades bombardeadas durante a Segunda Guerra Mundial.

De manhã, antes de viajar para Berlim, May estreou-se no parlamento como primeira-ministra, respondendo às perguntas da oposição. A generalidade dos observadores não tem dúvidas de que saiu vencedora, por larga margem, do confronto com Jeremy Corbyn. "Muito eficaz a exibição de Theresa May, desfazendo todos ataques. Parece que já faz isto há anos", escreveu no Twitter Faisal Islam, o editor de política da Sky News.

A líder britânica na sua primeira sessão parlamentar de resposta a perguntas da oposição

Mas o que marcou a sessão foi o momento fantasmagórico. Nos sites dos jornais britânicos e nas redes sociais, sucederam-se as manifestações de espanto perante a forma como May encarnou de repente a personagem de Margaret Thatcher.

Jeremy Corbyn tinha acabado de falar da necessidade de defender os direitos dos trabalhadores perante os patrões pouco escrupulosos. May não perdeu tempo: "Suspeito que há muitos deputados na bancada da oposição que estão familiarizados com um chefe pouco escrupuloso. Um chefe que não ouve os trabalhadores. Um chefe que duplica a cargo de trabalho de alguns dos seus funcionários. Talvez até um chefe que explora as regras para prolongar a sua carreira".

May não é conhecida pelo sentido de humor nem pelo talento para as anedotas, mas desta vez tinha conseguido o registo certo. Com ironia tinha acabado de caracterizar a crise do Partido Trabalhista - a maioria dos deputados do Labour está contra o chefe. Mas ainda faltava o golpe final. May debruçou-se sobre a bancada e alterou o tom: "Isto lembra-vos alguém?".

Parecia que Thatcher estava de novo ali. "A frieza imperial, a voz mais profunda, o sarcasmo seco. Foi arrepiante. Senti que tinha acabado de ouvir um fantasma", escreveu o repórter parlamentar Michael Deacon no The Telegraph.

Durante o resto do debate, Theresa May reafirmou a intenção de reduzir o fluxo migratório para o Reino Unido, mas preferiu não estabelecer datas para a concretização do objetivo. "A votação [no referendo] enviou uma mensagem muito clara sobre a imigração. Os britânicos não querem a livre circulação de pessoas e é isso que vamos fazer", sublinhou a primeira-ministra.

Numa outra resposta a Jeremy Corbyn, May teve oportunidade de definir o seu pensamento em matéria económica: "Para ele é austeridade. Para mim é viver com os meios que temos".

Tal como era esperado, ontem ficou também a saber-se que o Reino Unido não irá assumir a presidência rotativa da União Europeia, no segundo semestre do próximo ano, tal como estava previsto. Foi isso mesmo que Theresa May transmitiu a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, durante uma chamada telefónica na terça-feira à noite.

Será a Estónia a ocupar o lugar deixado vago pelo Reino Unido. De acordo com o calendário anterior, o país báltico deveria suceder aos britânicos no início de 2018, mas vê assim antecipadas essas funções. A primeira hipótese em cima da mesa era a Bélgica, mas, de acordo com o Financial Times, essa opção foi bloqueada por países do Leste europeu. Atualmente a presidência da UE está nas mãos da Eslováquia.