Menores prostituem-se para atravessar fronteira entre Itália e França

Denúncia foi feita pela organização Save the Children Itália que garante que as raparigas migrantes estão desesperadas

Se não tiverem os 50 a 150 dólares que os traficantes estão a exigir para as ajudar a atravessar a fronteira entre Itália e a França, muitas das menores vindos sobretudo da África subsariana, estão a prostituir-se para conseguirem o seu objetivo. A denúncia surge num relatório da Save the Children Itália.

"Foi a minha mãe a decidir que devia partir para a Alemanha, na Europa. Eu nem sabia o que era isso da Europa", relata uma das vítimas no relatório. Sob coberto do anonimato, a rapariga conta como aceitou juntar-se à tia na Alemanha para ajudar a família a ultrapassar as dificuldades económicas.

Da Nigéria conseguiu chegar à Líbia, acompanhada por um vizinho. Mas em Sabha acabaram ambos detidos. E só passados três meses, quando a tia mandou dinheiro é que conseguiu sair. O vizinho, nunca mais o viu.

Levada para uma casa de transição, ali passou mais cinco meses, com os traficantes que levam migrantes até à Europa a sugerir-lhe que se prostituísse para arranjar o dinheiro para a levarem a ela também. Resistiu o mais que conseguiu, mas acabou por vender serviços sexuais durante oito meses até que a trouxeram para Itália.

Passou um mês em Lampedusa. Mas a tia começou a pressionar para que se juntasse a ela na Alemanha, lembrando que gastara muito dinheiro com ela. Sentiu-se "uma ingrata". E depois de uma conversa com a tia, um dos funcionários do centro de acolhimento aceitou levá-la, a ela e a duas outras raparigas, até à fronteira com a França.

Mas, sem documentos, não conseguiu apanhar o comboio para a Alemanha. O homem que a levou ali ofereceu-se para lhe dar abrigo em troca de favores sexuais. Ali passou duas semanas, antes de a tia, que vivera 15 anos em Itália, conseguir contactar uma amiga que acabou por a ajudar. Inserida numa família de acolhimento, recebeu a ajuda da Save the Children, voltando a estudar, num curso profissional. De início não gostou, mas hoje já pensa mesmo em viver sozinha.

Desespero e favores sexuais

Esta é apenas uma das histórias contadas no relatório da Save the Children Itália. Segundo a mesma, muitas destas crianças estão desesperadas e estão dispostas a trocar sexo por alimentos e abrigo e desde o início do ano garante ter registado um aumento dos casos de prostituição de menores migrantes.

"São sobretudo raparigas muito jovens e de alto risco, que se encontram entre o fluxo de migrantes que chegam a Itália sem família" e que se vão acumulando na fronteira Norte do país, tentando por todos os meios atravessar para França, afirma Raffaela Milano, a diretora da Save the Children Itália no relatório. O objetivo destas menores é reunirem-se com os familiares já se encontram nos países do Norte da Europa.

"São sobretudo raparigas muito jovens e de alto risco, que se encontram entre o fluxo de migrantes que chegam a Itália sem família"

Raffaela Milano garante que estas jovens estão "muito expostas ao risco de abusos e exploração sexual", acabando por viver em situações de "grande degradação".

A situação em Ventimiglia

A situação na cidade fronteiriça de Ventimiglia, ponto de passagem de muitos migrantes vindos da África subsariana, agravou-se após o encerramento de um campo de refugiados junto ao rio Roya em abril. Desde então, muitas crianças acabaram a viver nas ruas em situações "degradantes promíscuas e perigosas", sublinha o relatório.

A 31 de maio, as autoridades italianas perderam o rasto a 4570 menores que entretanto deixaram as estruturas de acolhimento postas à disposição dos migrantes. Na maioria trata-se de jovens eritreus, somalis, afegãos e tunisinos.

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