May pressionada a resolver guerras políticas em casa para ter acordo sobre o brexit

Primeira-ministra britânica regressa a Londres sem acordo com a UE a quase cinco meses do brexit. Presidente francês, Emmanuel Macron, resumiu assim o tom da cimeira de líderes europeus: "Já não é uma questão técnica. Todos os cenários técnicos foram vistos e revistos. Trata-se de uma questão de capacidade política britânica para construir um acordo apresentável. É isto"

A primeira-ministra britânica, Theresa May, regressa esta sexta-feira a Londres pressionada a resolver internamente o "problema político" que impede um acordo sobre o brexit.

Mas convencer os eurocéticos, incluindo dentro seu próprio Partido Conservador, não será a mais fácil das tarefas, podendo mesmo afastar a possibilidade um acordo ser alcançado brevemente.

"No curto prazo será uma impossibilidade política para a primeira-ministra britânica", afirmou ao DN, em Bruxelas, o influente líder do UKIP, Nigel Farage, vincando que Theresa May não vai libertar-se facilmente da "oposição generalizada" que experienciou durante o fim de semana.

"Não tenho qualquer dúvida de que ela voltará [à Câmara dos Comuns] em poucas semanas, para tentar conseguir um acordo semelhante", admitiu Farage, convicto de que "o brexit, como está, simplesmente não passará na Câmara dos Comuns".

Uma das opções admitida, é a possibilidade da extensão do período de transição, por mais um ano. Ninguém se assume como autor da proposta. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, admitiu "estudá-la", da mesma forma que se fez quando foi solicitado pela primeira vez um período de transição. May não afastou a ideia. Mas ela dificilmente será aceite.

"Como "leaver" [favorável à saída], qualquer tentativa para nos manter na união aduaneira, nos próximos anos é o oposto daquilo para que votámos [no referendo de 2016]", frisou Nigel Farage, sugerindo que "um não-acordo [com a UE] é melhor do que um mau acordo".

"O passo lógico é avançar para um acordo ao estilo do acordo de comércio livre o com o Canadá", sugere, reconhecendo porém que isso desencadeará "preocupações sobre a Irlanda do Norte. Mas todas podem ser resolvidas. Devemos simplesmente avançar para um acordo de comércio livre e não esta relação próxima, que é francamente impossível", disse.

Esta quinta-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron foi, provavelmente, o líder que resumiu com maior clareza as instruções dadas ao negociador chefe da União Europeia para o brexit, Michel Barnier. "Não podemos aceitar um acordo que ponha em causa a integridade do mercado único (...) nem o bloco constituído pelas quatro liberdades, (...) ou que seja prejudicial à Irlanda".

"Cabe ao Reino Unido encontrar e propor-nos uma solução que permita um plano de contingência, que permita articular a integridade do Reino Unido, o respeito da integridade do mercado único e do resto da União Europeia na Irlanda, de forma pragmática", disse Macron, considerando que, neste momento tudo depende da política interna.

"Já não é uma questão técnica. Todos os cenários técnicos foram vistos e revistos. Trata-se de uma questão de capacidade política britânica para construir um acordo apresentável"

"Já não é uma questão técnica. Todos os cenários técnicos foram vistos e revistos. Trata-se de uma questão de capacidade política britânica para construir um acordo apresentável. É isto. Não compete à União Europeia fazer concessões para tratar uma questão de política interna britânica", defendeu.

"Da mesma forma que a primeira-ministra May se implicou nestes últimos meses para alcançar um acordo, sei que ela terá a vontade de encontrar um bom compromisso político para avançar e apresentar ao negociador europeu", afirmou Emmanuel Macron.

Bom caminho

O primeiro-ministro português, António Costa, considera que os "progressos" alcançados até agora, o levam a acreditar que só "os astros muito mal conjugados" podem impedir um acordo, já que as negociações estão "no bom caminho".

"Diria que era preciso que os astros estivessem muito mal conjugados, para que não chegássemos a um acordo a tempo e horas"

"Ninguém tem interesse em que não haja acordo. Todos temos interesse em que haja acordo. Neste momento só já está um ponto em discussão. Diria que era preciso que os astros estivessem muito mal conjugados, para que não chegássemos a um acordo a tempo e horas, sabendo sobretudo o custo enorme que teria para toda Europa e o custo enorme que teria para o Reino Unido, não haver acordo", disse, no final de uma cimeira em que, apesar das pressões sobre a primeira-ministra britânica, decorreu numa atmosfera mais respirável, do que o encontro anterior em Salzburgo.

"A verdade é que [desde] as situações de bloqueio que já tivemos no passado, de Salzburgo até hoje, houve um trabalho muito intenso, muitos dos dossiês que, há pouco mais de um mês, estavam bloqueados (...) e agora já foram acordados", afirmou Costa.

"Há agora um ponto final que é necessário fazer e que se centra, sobretudo, na questão delicada [e] difícil que é a questão da fronteira da República da Irlanda com a Irlanda do Norte", disse o chefe do governo português, em Bruxelas.

Desastre e deceção

As palavras encorajadoras e de esperança manifestadas agora relativamente à capacidade da primeira-ministra britânica, parecem contrastar com a reputação que Theresa May construiu na cúpula da União Europeia.

Se por um lado é vista como a primeira-ministra com o "mais difícil" dos cargos do mundo e "ninguém queria estar na sua pele" e, nesse sentido, ela "é uma mulher corajosa". Também é considerada como "a maior deceção que se pode ter relativamente a um líder", confessou um alto responsável da União Europeia ao DN.

"[Theresa May] chega [às cimeiras], senta-se, lê uma folha e cala-se", acrescentou a mesma fonte, lamentando que ela "não apresente uma ideia, nada".

"Não se percebe qual é o pensamento daquela mulher. É um desastre e está a conduzir as negociações de forma desastrosa", disse a fonte já citada, criticando a líder do Partido Conservador por ser "absolutamente inábil".

No dia 29 de outubro ficam a faltar cinco meses apenas para a saída do Reino Unido da UE. E ainda não se vislumbra um acordo final. Este sábado está prevista uma manifestação em Londres, para exigir um voto dos cidadãos, seja sobre um eventual acordo final, seja num eventual necessário segundo referendo.

No de 23 de junho de 2016, recorde-se, 51,89% dos britânicos que votaram manifestaram-se a favor do brexit, ou seja, sair da UE, 48,11% a favor de ficar na UE. No mais recente Eurobarómetro, divulgado esta semana, 51% dos britânicos inquiridos manifestaram-se a favor da permanência do Reino Unido na UE.

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