May garante que "brexit será executado" em visita à Irlanda do Norte

Theresa May visitou pela primeira vez a fronteira da Irlanda do Norte, numa altura em que se discute como evitar voltar a ter uma divisão física entre norte e sul após a saída do Reino Unido da União Europeia.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, visitou pela primeira vez desde que chegou a Downing Street a fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. A questão de como manter a liberdade de movimento ao longo da linha de quase 500 quilómetros que divide a ilha é um dos aspetos fundamentais das negociações do brexit.

Uma questão que ameaça a paz na região, já que a relação futura entre o norte (uma província do Reino Unido) e o sul independente e membro da União Europeia tem profundas implicações económicas, políticas e sociais.

Os Acordos de Sexta-Feira Santa, assinados em 1998, puseram fim a décadas de confrontos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte (Troubles) e marcaram o início do fim dos controlos fronteiriços entre os dois países, facilitado pelo facto de ambos pertencerem à União Europeia desde 1973.

Atualmente, existem 200 pontos de passagem, que são cruzados todos os meses por quase dois milhões de carros e camiões. O brexit, com a planeada saída do Reino Unido do mercado único e da união aduaneira, poderá obrigar a voltar a impor controlos. Uma situação que May já disse não querer e que deverá reiterar num discurso esta sexta-feira, em Belfast.

Do lado de Bruxelas, a República da Irlanda tem praticamente poder de veto de qualquer acordo referente a este tema. Antes da visita de May, o chefe da diplomacia irlandesa, Simon Coveney, descreveu como "frustrante" a forma como estão a decorrer as negociações - que após anos de aproximação a trabalhar para o mesmo objetivo dentro da União Europeia, colocam os dois países em lados opostos. "É muito frustrante para países como a Irlanda e muitos outros países da UE estar a negociar com um país que continua a mudar de posição", afirmou, citado pela Sky News.

Qualquer alteração, seja ela qual for, ameaça a paz na região. Afinal 56% dos eleitores da Irlanda do Norte votaram, no referendo sobre o brexit, em 2016, para continuar na União Europeia. A maior base de apoio do "remain" era entre nacionalistas e católicos, que defendem uma Irlanda unida e independente. Os unionistas, que querem continuar sob controlo de Londres, vão rejeitar qualquer impedimento de viajar livremente entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido.

Para complicar ainda mais a situação, a Irlanda do Norte está sem governo próprio desde janeiro de 2017, quando o já falecido Martin McGuinness se demitiu do cargo de vice-primeiro ministro (num sistema em que, desde os Acordos de Sexta-Feira Santa, é de partilha de poder entre unionistas e nacionalistas). Um escândalo a envolver a primeira ministra Arlene Foster, do Partido Unionista Democrático (DUP), esteve na origem da decisão do líder do Sinn Féin.

O que também pode ser problemático é o facto de o DUP ser, desde as eleições britânicas de 8 de junho de 2017, o parceiro do governo minoritário de Theresa May. Foi acompanhada de Arlene Foster que a chefe do governo, britânico visitou esta quinta-feira uma fábrica de porcelanas em Belleek, Fermanagh, na Irlanda do Norte.

Durante esta visita, May garantiu: "Nós vamos executar o brexit e a proposta que eu fiz vai levar à execução do brexit. Isso responde ao voto que as pessoas do Reino Unido tiveram e vamos sair da União Europeia. Mas vamos fazê-lo de uma forma que proteja os empregos e o modo de vida das pessoas, garantindo que não voltará a haver uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a Irlanda".

Afirmando que a sua ida a Belleek se destina a compreender melhor "o dia a dia das pessoas e o que significa para elas e para os seus negócios não ter fronteira", May sublinhou que "um acordo aduaneiro é um elemento importante para garantir que as pessoas poderão continuar a fazer aqui trocas comerciais no futuro da mesma maneira que fazem hoje em dia".

Mais de oito séculos de história

As relações entre os dois povos remontam a 1169, quando os primeiros anglo-normandos chegaram à Irlanda. Seguiram-se 700 anos de história partilhada entre as duas ilhas, que no ponto mais afastado estão separadas por apenas 240 quilómetros. Em 1541, Henrique VIII foi o primeiro monarca britânico a ser também Rei da Irlanda. Mas seria só em 1801 que esta ilha passaria a fazer parte do Reino Unido.

O catolicismo instalara-se na Irlanda no início e meados do século V, com a chegada de São Patrício e outros missionários cristãos, acabando passados vários séculos por suprimir as religiões celtas que eram dominantes. Com Henrique VIII, milhares de protestantes ingleses e escoceses chegaram à ilha e assumiram o controlo de terras que pertenciam a proprietários católicos, lançando as sementes para os conflitos sectários que se seguiram.

A vitória do protestante William de Orange sobre Jaime II de Inglaterra, na Batalha do Boyne, em 1690, ainda hoje é celebrada a 12 de julho pelos protestantes no Ulster (que inclui províncias da Irlanda do Norte e da República da Irlanda). Este ano, como noutros, as celebrações foram marcadas por atos de violência.

As guerras religiosas do século XVII foram exacerbadas pelos problemas económicos no século XIX, quando a política económica britânica beneficiou o nordeste da ilha, industrializado, onde os protestantes eram maioria. O resto do país, mais dependente da agricultura, sofreu com a queda dos preços dos alimentos.

Entre 1845 e 1849, quando a Irlanda já fazia parte do Reino Unido, a Grande Fome causou a morte a um milhão de pessoas e obrigou outros dois milhões a deixar a ilha (onde dois quintos da população dependiam das plantações de batata, que foi afetada por uma doença a nível europeu).

Isso gerou o aumento dos nacionalismos irlandeses, que conseguiram grande apoios no sul de maioria católica, que queria o restabelecimento do parlamento irlandês e das medidas protecionistas que os britânicos tinham levantado. Mas a ideia da independência legislativa da Irlanda levou, em 1885, ao início das revoltas sectárias no nordeste, com os protestantes a temer perder a liberdade religiosa e económica de que gozavam no Reino Unido e tornarem-se uma minoria numa Irlanda maioritariamente católica.

As revoltas e a guerra anglo-irlandesa de 1919-21, que opôs o recém-formado IRA (Exército Republicano Irlandês) ao exército britânico, culminaram na independência da Irlanda em 1922 e na divisão da ilha, com os seis condados a nordeste a continuar sob controlo de Londres (a Irlanda do Norte).

"Troubles"

A violência sectária na Irlanda do Norte atingiu o seu ponto alto durante os chamados "Troubles" (literalmente, problemas), entre 1968 e 1998. Estima-se que tenham morrido mais de 3600 pessoas durante esses 30 anos, que marcaram um ponto baixo das relações com Londres.

Vários momentos ficaram na memória coletiva. No Domingo Sangrento, em 1972, 14 civis foram mortos por soldados britânicos durante uma marcha pacífica contra a detenção de mais de 300 suspeitos de pertencerem ao IRA, que liderava a campanha por uma Irlanda unida contra o Reino Unido.

Em 1981, as greves de fome dos prisioneiros de Maze puseram à prova a então primeira-ministra, Margaret Thatcher, que acreditava que qualquer solução para o conflito implicava uma vitória das forças de segurança sobre o IRA. Entre os presos, que exigiam o estatuto de prisioneiros de guerra, estava Bobby Sands, o líder do protesto e um dos dez que acabariam por morrer.

Thatcher seria ela própria vítima de uma tentativa de homicídio, com a explosão de uma bomba no hotel de Brighton onde, em outubro de 1984, decorria o congresso do Partido Conservador. Cinco pessoas morreram.

Um ano depois, em 1985, foi assinado o acordo entre Reino Unido e a República da Irlanda, melhorando a cooperação entre ambos tendo em vista a situação na Irlanda do Norte e levaria, quase uma década depois, à assinatura dos Acordos de Sexta-Feira Santa, após o cessar-fogo do IRA em 1994.

O acordo foi assinado a 10 de abril de 1998, mas só entraria em vigor mais de um ano depois. A 15 de agosto de 1998, um grupo dissidente do IRA que se opunha à paz fez explodir um carro armadilhado em Omagh, matando 29 pessoas, tanto católicos como protestantes.

Apesar dos obstáculos, e das tensões constantes, a paz manteve-se e as relações entre Reino Unido e República da Irlanda foram crescendo. Em 2011, a rainha Isabel II tornou-se na primeira monarca a visitar a Irlanda desde o rei Jorge V, em 1911, quando o país ainda fazia parte do Reino Unido.

A nível económico, o Reino Unido é o principal parceiro económico da Irlanda, sendo este país, com uma população de 4,6 milhões, o quinto maior mercado das exportações britânicas.

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